A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea

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Marcel Duchamp, foto de Henri Cartier Bresson

Marcel Duchamp foi um artista que questionou através de seu trabalho o que é uma obra de arte e propôs um novo método para a sua realização: partindo de idéias, ao invés de partir de assuntos do cotidiano.

O fato é que Duchamp nunca foi um artista que atendia às expectativas da época.Começou a produzir no começo do século XX, e com o passar do tempo sua obra adquiriu características irônicas e contestadoras.

Tendo começado sua carreira como pintor, ele realizou obras que tinham características impressionistas, expressionistas e cubistas.

 

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Já nessa época, seu quadro Nu descendo a escada foi mal visto pelos cubistas, que o julgaram uma ironização da proposta cubista.

A obra de Duchamp conservou esse caráter questionador e insatisfeito com os padrões até o ponto em que Duchamp destruiu os padrões existentes até então. Ele fez um tipo de arte que não se enquadrava em nenhuma categoria. Os ready mades não são pintura, gravura e não são esculturas já que ele nem sequer os fez. Com esse ato, de designar um objeto fabricado em série como obra de arte, Duchamp expandiu os horizontes da arte contemporânea. Como disse Luiz Camillo Osório, professor de Estética e História da Arte na UFRJ, do Renascimento até Picasso as transformações artísticas se deram no interior de uma linguagem pictórica, de uma concepção histórica da forma e do objeto artístico. E a partir de Duchamp essa trajetória se alterou e tomou rumos que mudaram completamente a concepção de arte atual.

Como observou Octavio Paz, em seu livro “Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza”, “Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir a dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, mas transparente”.

 

Esse gesto simples, mas impensado até então, fez com o mundo da arte se visse diante de duas reflexões extremamente importantes para a arte contemporânea: o que faz com que consideremos um objeto arte? Qual a importância do gesto do artista na obra de arte?

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Os ready mades se tornaram o elemento de destaque da produção de Duchamp. Entre os mais famosos e irônicos, podemos citar a obra L.H.O.O.Q. (sigla que, lida em francês, assemelha-se ao som da frase “Elle a chaud au cul”, que, traduzida para o português, significa “Ela tem fogo no rabo”), que é uma reprodução da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, com um bigodinho.

 

Além disso Duchamp criou Madame Rrose Sélavy (cujo sobrenome se assemelha à expressão francesa “C’est la vie”, ou seja, “É a vida”, em português), uma artista irônica, assim como ele, que assinou uma parte dos ready mades.

Seria Madame Rrose Sélavy mais um ready made? O artista existe porque sua assinatura está em obras de arte que estão são reconhecidas pelo circuito artístico?

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Nesta foto, tirada por Man Ray, Duchamp aparece travestido de Rose Sélavy. Com esse tipo de obra de arte Duchamp tirava

o foco da criação artística da sociedade e seus problemas ou da representação fiel do modelo e coloca em questão o ato artístico.

Man Ray, pintor americano amigo de Duchamp disse em entrevista transcrita por Pierre Cabane, em “Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido”, “Não atribuo ao artista uma espécie de função social em que ele se acha obrigado a fazer qualquer coisa, em que tenha um dever para com o público. Tenho horror a todas essas considerações”.

De fato Duchamp tinha suas próprias questões, como o estudo dos problemas óticos. O estudo do olhar sobre a arte interessou muito a Duchamp, que se opunha àquilo que ele chamava de “arte retiniana”, ou seja, que agrada à vista, que foi feita para não incomodar, para satisfazer. Nesse sentido Duchamp o esforço de Duchamp era no sentido oposto, de levar o público a refletir a partir da confrontação com algo novo e inesperado. O objeto que era a obra de arte não tinha o propósito de ser alvo de uma contemplação, admiração, ele devia levar a uma reflexão, e essa reflexão era o objetivo da obra.

A base teórica do trabalho de Duchamp influenciou as gerações que o seguiram e foram fundamentais para a trajetória que a arte contemporânea seguiu, tornando-se propositiva e questionadora.

Movimentos artísticos como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato e a Arte Conceitual foram muito influenciados por Duchamp. André Breton, artista surrealista, por várias vezes tentou fazer com que Duchamp aderisse à causa do movimento surrealista, Tristan Tzara, um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de Duchamp uma precursora.

No entanto uma das previsões de Duchamp não se concretizou: por diversas vezes ele disse que a pintura estava morta. Ao contrário, a pintura, assim como outras formas de arte, continua se inovando, incorporando formas de expressão e atraindo artistas inovadores como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Andy Warhol.

Em seu livro Destruição do pai, reconstrução do pai, Louise Bourgeois fala sobre o ato de criaçãoAs conexões que faço em meu trabalho são conexões que não posso encarar. São na verdade conexões inconscientes. O artista tem o privilégio de estar em contato com seu inconsciente, e isso é realmente um dom. É a definição de sanidade. É a definição de auto-realização”. Como disse o próprio Duchamp, em entrevistas, ele queria inventar ou encontrar seu próprio caminho, em lugar de ser um mero intérprete de uma teoria, e conseguiu.

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40 Respostas to “A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea”

  1. 10.000 visitas « trombone Says:

    […] Post mais lido: A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea – http://notrombone.wordpress.com/2007/07/01/a-influencia-de-marcel-duchamp-na-arte-contemporanea/ […]

  2. renata Says:

    Em que medida a obra de um artista como Marcel Duchamp encarnou e expressou bem o espirito cultural tipico do século passado?

  3. Danieli Says:

    Bom vocês deveriam ir direto ao ponto e falar o ano que ele nasceu, morreu etc..
    Obrigada pela atenção!!!!!!!!!

  4. Priscila Says:

    Não concordo com o comentário de Danieli, acho que falar quando nasceu e morreu não diz nada sobre um artísta.

  5. elaine Says:

    Duchamp! visionário, gênio, artista. Conquistou o mundo das artes, não pela sua capaciadade artistica, mais pelas suas idéias revolucionárias.

  6. Bruna .N. Says:

    duchamp um artista que gosto muito (mas deveria ter quando ele nasceu e morreu )

  7. dane Says:

    ele instigou os pensamentos alheios, a reflexao dos sábios, despertando que seus sucessores podem ir mais além que ele, acompanhando a realidade atraves de suas obras.

  8. Felipe Trigueiro Says:

    Duchamp é um gênio sim, revolucionário ao extremo!

  9. Vanessa Says:

    Pra quem não sabe Marcel Duchamp nasceu em Blainville, França, a 28 de julho de 1887, e morreu em Nova York, EUA, em 2 de outubro de 1968. (:

  10. Jimmy Says:

    Um bobo, frívolo e principalmente patranheiro. Suas investidas no ramo artístico não passam de trotes, que a crítica atual engole, simplesmente porque deixou de existir. O medo de execrar algo que, com recuo histórico, possa se tornar “importante”, afogou os bons teóricos, e eles são calados às pampas e reduzidos a ilustradores, molduradores, enfim.

  11. Elma Carneiro Says:

    Ooopa, o comentário acima foi antes que eu terminasse meu raciocínio. Desculpe.

    Concordo com os dizeres de Jimmy.
    Marcel Duchamp, foi um homem que sempre ironizou e brincou com a arte de forma irresponsável.
    A arte é algo muito mais sério do que brincar com um urinol, colocar bigodinho na Mona Liza de Leonardo da Vinci, ou mesmo aparece travestido de Rose Sélavy.
    Talvez fosse um pichador de muros frustrado e incapaz de criar sua própria arte.

  12. carol Says:

    gosto mto das artes de marcel duchamp sao obras importantes para a humanidade…continua….

  13. juliana gatinha Says:

    da hora esse cara muito bom meuhhh

  14. CROWND Says:

    valeu, me ajudou muito no trabalho :D
    ele parece ser um grande pintor..

  15. [Patife] Says:

    Olá,

    seu texto faz uma relação muito interessante entre esses dois momentos histórico-artísticos (sim, Duchamp é um momento!).

    No entanto, gostaria de lançar uma questão aqui. Poderia, no final das contas, o artista sempre ser considerado portador de uma potência política? Levando em conta mesmo autores medievais, ou aqueles com obrigações com a nobreza, em retratar seu cotidiano, não estariam todos findados a uma relação com a ordem social de sua época? Apesar disto ficar evidenciado, mais fortemente, com pintores como Velasquez ou Delacroix, com seus respectivos Las meninas e A Liberdade Guiando o Povo.

    Estariam os artistas intrinsecamente atados à alguma postura política em relação à estrutura que se apresenta em sua época? Seja passivamente, seja contestadoramente?

    Cordiais abraços.

  16. paula Says:

    noooooooossa, super massa aquela foto dele de mulher! hahaha

  17. Deisi Souza Says:

    Respondendo ao Patife (é isso né ? )

    Sim, o artista está ligado com seu contexto político e principalmente histórico. Duchamp usa da ousadia que o Cubismo tinha propiciado, usando elementos e materiais inusitados fora do seu contexto habitual e os transferindo para as telas, e passa a utilizar dos ready-made, que são elementos industriais produzidos em escala com um valor conceitual e designado como arte pelo artista. Dai a pergunta que o próprio autor do texto indaga a cima: “O artista existe porque sua assinatura está em obras de arte que estão são reconhecidas pelo circuito artístico?” O artista passa a legitimar as obras, independente do que estiver nela, afinal o que vale é a idéia e não a produção. A assinatura passa a valer mais do que o objeto artístico em si.
    O Duchamp foi magnífico, e genial. Pena que muitos artistas pós-modernos utilizam da sua ousadia para se codificar ao sistema, e automaticamente esse valor é transferido ao Duchamp, que se opunha a uma arte que agradasse aos olhos. Ele não apela para os nossos sentido, mas para a nossa imaginação.

  18. Daniel Says:

    Concordo com o comentário acima(Deisi). Imaginação é a força motriz de qualquer ser pensante.

  19. vanessa morais Says:

    adoreii mtooooooooooooooooooooooooo

  20. thamires Says:

    marcel era um genio da arte sabe o ke faz

  21. barbara karoline Says:

    Adoooreiii;vou ate recomendar para amigos…

  22. Não sobre o que é arte, afinal? « Caducando, lendo e assistindo. Says:

    […] A importância de falar em contexto e conceito reside no fato de que hoje – aliás, desde quase 100 anos atrás – o fazer artístico pôde se desconectar do eixo ligado à habilidade física do artista e se pendurar na idéia desenvolvida para a obra, desenvolvida nela. A marca mais popular deste acontecimento é, parece, A Fonte, de Marcel Duchamp. […]

  23. roberta padilha Says:

    eu concordo com tudo o que foi dito e adorei todas as obras

  24. roberta padilha Says:

    adorei aquela foto dele

  25. Luciana Says:

    Acredito precisamente, hoje, a pintura está morta!
    Da assinatura, porque? Da Vinci escondeu sua assinatura nos ollhos da Mona Lisa??

  26. andressa santos souza Says:

    Gostei mas vcs deveriam colocar só o necessário sobre a vida de Duchamp

  27. Maria Helena Says:

    Duchamp! perfeita a sua foto de mulher, uma ideia, uma arte…ele foi e é tudo de bom, pelo menos pra mim.

  28. Aldenora Says:

    muito massa, adorei! pois estou fazendo um trabalho sobre Marcel Duchamp.

  29. Não sobre o que é arte, afinal? » Caducando, lendo e assistindo Says:

    […] A importância de falar em contexto e conceito reside no fato de que hoje – aliás, desde quase 100 anos atrás – o fazer artístico pôde se desconectar do eixo ligado à habilidade física do artista e se pendurar na idéia desenvolvida para a obra, desenvolvida nela. A marca mais popular deste acontecimento é, parece, A Fonte, de Marcel Duchamp. […]

  30. lucas Says:

    não achei o que eu queria!!

  31. Ghostkiller60 Says:

    muito Bom

  32. Léo Vieira Says:

    Autor??? Bibliografia??? Citações??? Vi varias dessa frases em outros blogs e sites, acho que isso se considera plagio ou não??Pois bem, na verdade só queria citar uma frase deste texto em um trabalho acadêmico, mais como vários outros site não tem fonte(Fountain, hehe desculpa o trocadilho, é que relmente falta fontes).

  33. Léo Vieira Says:

    *realmente

  34. Gustavobdsp Says:

    valeu apena pois estou com uma prova de artes pra fazer

  35. IGOOOOOR DAS aRT Says:

    Que merda essa obras, mds. No meu morro tem gente que desenha melhor do que isso, e kd o recoincimento ?

  36. TeoDasMaconha Says:

    C4ramb4, adorei esse cara, senti mt interesse nessa monaliza, que demonstra o que a mulher de verdade é e quer. Adorei mt de vdd. Amooo Picasso. Bjs

  37. Ori da Colombia Says:

    MDS que lindo. Amei amai amei…que V1d4 l0k4. Super curtir, espero um dia ir ao chow dele

  38. Brunaaaaaaaaaaaaaaaaaa Says:

    hgjyhkjy

  39. TeoDasMaconha Says:

    Só pra me retratar aqui, disse anteriormente que era Picasso, mas queria falar de Duchamp. Agora que me retratei quero dizer que adorei mt a obra de novo, novamente, e tbm dizer que cara, eu realmente amo arte, gosto da monaliza de da vinti, mas gosto mt mais da do Du du. E que espero que um dia ele venha para o Brasil e fassa alguma coisa sobre o Curintia, pq é meu time do coração. Bjs, e me manda uma msg aqui #Duchamp

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