Estamira está em todo lugar

By notrombone

 

Estamira é um documentário de Marcos Prado, filmado em 2006, sobre uma mulher de mesmo nome que vive em um lixão. 

Difícil dizer se ela sabe do que está falando, mas com certeza um pouco do que ela representa está em todo lugar, principalmente nas cidades grandes, onde não só o lixo costuma ser um problema de saudade pública, como muitas pessoas depois de sofrerem bastante passam a viver na sua própria realidade, seja ela a mendicância, o lixão ou a psicose.

Estamira é uma mulher que mora no lixão. Ela fala em seu dialeto próprio e passa horas xingando a Deus e falando coisas que não tem muito sentido. Inicialmente parece louca. Ela não é 100%, como diz sua filha, mas a questão é que a história de sua vida de certa forma justifica o seu desequilíbrio. A começar pelos abusos sofridos quando era pequena, pelo padrasto, que ainda por cima a deixou em um bordel aos 12 anos. Estamira saiu de lá para se casar com um homem infiel, num casamento em quenão existia respeiro, e ambos eram violentos. A partir do momento em que deixou o marido, as coisas ficaram ainda mais difíceis financeiramente. Para piorar o quadro, Estamira foi estuprada duas vezes, no caminho de sua casa.

Uma mulher que vive do lixo para criar seu filhos, voltou as costas para um Deus que ela chama de estuprador. Como dizer que ela está errada? Como julgar essa mulher que todos os dias passa por algo inimaginável?

Apesar de não fazer sentido em grande parte das coisas que diz, Estamira tem algo de intelectual na sua loucura, um quê de filosofia nas coisas que diz. É como se ela própria inventasse um novo sentido para as palavras, e se convencesse de que aquilo faz sentido. Algumas vezes durante o filme é perceptível que nem ela mesma acredita no que está dizendo, nas conexões entre palavras que não dizem nada juntas, e então você a vê em alguns momentos como uma mulher ferida e em outros como uma criança, que quer inventar uma história, mas não sabe a hora certa de chegar ao final. Por isso ela continua inventando e indo sempre mais longe do ponto em que queria chegar, até a hora em que já não se lembra mais do começo da história, nem dos personagens, sendo que talvez ela tenha esquecido o personagem principal: ela mesma.

O filho de Estamira tem um grande problema com o seu lado religioso, porque ele é um rapaz que lê a Bíblia e que freqüenta a igreja, mas as duas filhas de Estamira parecem entender muito bem quem é a mãe, e a amam como ela é. A mais velha por saber sua história e compreender os arrependimentos e as tristezas da mãe. A mais nova de um modo ainda mais doce e conflituoso, se sente culpada por não ter sido criada pela mãe, mesmo que isso significasse morar no lixão, e ao mesmo tempo parece ser a responsável pelos momentos em que Estamira está mais calma e serena, porque a filha está ao seu lado, lhe fazendo carinho. Apesar de tudo, Estamira ainda é capaz de amar.

Estamira é como arte contemporânea, difícil e complexa. Quando a vemos, sentimos repulsa, nos sentimos em conflito, mas ao mesmo tempo em que queremos sair dessa realidade cruel e triste, queremos saber mais, não que seja difícil, pois Estamira está em todo lugar e como ela diz no filme “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

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