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maio 30, 2007

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Por um pão

maio 30, 2007

A quem interessa que uma pessoa esteja viva, senão a ela mesma?

A maior parte das pessoas quer viver. Luta para isso. Faz planos e abre mão de luxos no presente: tudo para garantir o futuro, para garantir que sua vida será o mais agradável possível até o fim. Então por que tanta resistência contra o suicídio?

A imprensa brasileira não noticia suicídios. Mesmo que uma pessoa pública cometa suicídio isso não vai constar na cobertura da imprensa. A intenção é não fazer com que o suicídio pareça um ato heróico, para não incentivar novos suicídios. Uma exceção talvez tenha sido a morte de Getúlio Vargas, que, suicídio ou não (há controvérsias) foi amplamente divulgado, e teve grande impacto na sociedade brasileira. Vargas, que estava em baixa, deixou a vida como um dos presidentes mais amados pelos brasileiros. Seu suicídio foi visto como um ato heróico, e acima de tudo político. Um verdadeiro harakiri, ato suicida praticado pelos samurais quando perdiam uma batalha, para evitar a desonra de se tornarem prisioneiros.

E qual é o problema com isso? Morrer, por mais doloroso que possa ser, deve ser muito melhor do que uma vida que não se quer viver, que é entulho na vida de outras pessoas. Viver preso a uma cama, com tubos em várias partes do corpo sem poder mexer nada do pescoço para baixo bem poderia ser uma forma de tortura. Não é natural que uma pessoa nessas condições continue viva, e mesmo assim, quando a sua mente, que continua sadia, decide que quer morrer, lhe negam esse direito. Não porque alguém se importe com a vida dessa pessoa em especial. Mas por medo da morte. Por medo que a morte seja banalizada e aceita como uma alternativa. 

Para os orientais a questão da honra é muito importante. Se no passado os samurais usavam o suicídio para preservar sua honra, para chamar a atenção de seu daimiô para algo que estivessem fazendo de errado ou até mesmo para acompanhá-lo na morte, já que cada samurai só deveria servir a um daimiô, atualmente não são raros os suicídios na Ásia. No Japão executivos se matam se sua empresa não obtiver sucesso. O japonês se sente desonrado se não conseguir sustentar sua família. Jovens se suicidam se não forem aprovados no vestibular. A cobrança da sociedade é maior do que a vontade de viver.

Com 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, um quinto da população mundial, a China registrava, em 2003, 280 mil suicídios por ano, cerca de 30% do total mundial. A OMS calcula que atualmente sejam 350 mil suicídios por ano. A maior taxa está na faixa etária dos 15 aos 34 anos, na área rural e entre as mulheres.

O governo chinês trata o suicídio como um problema mental, e tenta combatê-lo. No entanto isso parece não estar surtindo efeito, já que no começo do mês a OMS pediu ao governo chinês que restrinja a venda de pesticidas, que são responsáveis por 60% dos suicídios. “Muitas pessoas só querem chamar a atenção, mas, se tomam pesticidas, não há salvação”, disse Henk Bekedam, representante na China da OMS. Será verdade? Ou não convém ao governo chinês admitir que 350 mil pessoas por ano, na China, preferem morrer a viver?

Talvez seja verdade que algumas pessoas só querem chamar atenção. Hoje um chinês que já havia tentado o suicídio mais de 100 vezes fracassou mais uma vez. Shi, como foi apelidado, já tentou se suicidar de várias maneiras. Desta vez foi resgatado pela polícia quando tentava se enforcar em uma árvore, na cidade de Nankin. Shi começou a tentar o suicídio quando se divorciou, em 2003, e passou a ter depressão. Provavelmente Shi só quer atenção. Talvez queira sua mulher de volta.Talvez só queira sua felicidade de volta, não necessariamente com a ex-mulher, mas alguém que quer mesmo se matar não falha 100 vezes.

Já para Huang o suicídio foi a única saída. Semana passada, a jovem Huang Xiaoling, pseudônimo que lhe foi atribuído pelos jornais, cometeu suicídio após ter sido humilhada em público por ter roubado um pão.

Filha adotiva de uma família pobre, que mora em Shenyang, Huang estava há mais de um dia sem comer. Os parentes deram à menina um iuane para comprar comida. Ela pegou apenas 50 centavos, provavelmente ciente da falta que o dinheiro faria à família. Entrou numa padaria e viu pães fresquinhos. Não resistiu e colocou um pão no bolso, acreditando que ninguém a via. No entanto o padeiro flagrou o furto, e a recriminou em voz alta, diante de todos que estavam na padaria.

Huang pediu desculpas. O pão custava 0,26 centavos de dólar, e um dos clientes gentilmente se ofereceu para pagar o pão. O padeiro não ouviu ninguém. Ralhou com ela por mais de uma hora e ainda informou o episódio à escola, aonde Huang sofreu uma nova humilhação, já que no ensino chinês, é comum criticar atitudes dos alunos.

A menina voltou para casa da escola, provavelmente com fome e se sentindo uma pessoa terrível, escreveu uma nota de desculpas à família e se matou.

“Sinceramente, não queria roubar o que não me pertencia. Já sei que cometi um erro, mas naquele momento estava com fome e não pude resistir à tentação do pão. Fiz o que não devia fazer. Não tenho honra suficiente para olhar as pessoas na cara, sinto vergonha pelos meus professores e companheiros. Adeus. Espero que possam me perdoar”, escreveu.

Nunca se saberá como Huang se matou, já que sua família adotiva é tão pobre que não pode pagar a autópsia. O mais provável é que ela tenha tomado veneno.

A China talvez não queira que o mundo conheça as circunstâncias que levam tantas pessoas a cometerem o suicídio. Isso faria muito sentido. Tanto quanto o suicídio, em alguns casos.

Informações da Folha Online e de O Estado de S. Paulo.

maio 30, 2007

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Como a eternidade

maio 30, 2007

A vibração é contínua, tanto no chão como nas paredes e móveis. É como estar dentro de um chocalho. O barulho das peças se batendo é ensurdecedor. Sente estar ali, sabe estar ali, mas nao se vê. Ao redor tudo é escuro e frio. O cheiro de mofo contamina o ambiente.

Uma distração mínima, e quando deu por si estava ali.

Sentada na almofada, agarra com as unhas a base de madeira do assento. O medo começa a dominá-la.

Em algum momento houve pessoas ali em volta. Sim, pessoas, muitas pessoas, pessoas que falavam, riam, pessoas que ela nunca vira e pessoas que ela amava.

Nem sempre tudo fora assim, escuro e solitário, reduzido ao barulho de um motor que não pára nunca. Houve dias ensolarados, na praia, com crianças correndo e tomando sorvete.

Houve dias de chuva em que o corpo pedia descanso, e a mãe lhe levava um cobertor se ela cochilasse no sofá. Já está ali há tanto tempo que é difícil acreditar, mas ela ainda se lembra. O tempo é que já não faz o menor sentido. Como pode existir o tempo quando nada muda para sempre?

Até dos dias nublados, com sua luz triste, que sempre odiara, ela sentia falta, agora que tudo se fora. Só restavam pensamentos. Incômodos e repetivos pensamentos.

Esperara muitas coisas. Deuses, anjos, campos floridos, demônios chifrudos de tritão em punho, gritando blasfêmias e ditando castigos abomináveis, até mesmo o nada, completo e absoluto, simplesmente o fim.

Talvez o limbo em que se encontrava fosse ainda pior. Nunca imaginara que a morte pudesse ser como um vagão de trem circulando por um túnel escuro sem fim.

maio 29, 2007

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Fantasmas

maio 29, 2007

Duas da madrugada. Ela caminha por entre os corredores desertos arrastando os pés com dificuldade. Parece ter acabado de sair da cama, de pantufas marrons e um casaco de tricot por cima do vestido amarrotado. As pernas, cobertas de veias azuladas, estão prestes a ceder. O peso que ela carrega nas costas é muito grande.

Esperou sozinha no apartamento o dia inteiro. Regou as plantas, leu o Evangelho, ouviu mais uma briga do casal de vizinhos, assistiu aos mesmos programas na televisao, comeu a mesma comida de sempre. Já não faz diferença.

Quando anoiteceu se animou um pouco, uma mudança de ares sempre faz bem. Agora se esgueira pelos corredores, evitando o olhar das poucas pessoas que cruzam seu caminho.

Os olhos saltados são o único sinal de vida no rosto enrugado e flácido. Observa as gôndolas lotadas sem se deter em nada. As imagens sao insuficientes para fazê-la se esquecer de quem ela é. Tem vergonha de ser vista. Mais vergonha ainda de ver.

Toda a sua vida já se passou, mas ela continuou em frente. Seguiu caminhando e respirando, como todas as pessoas, mas não vive. Nada mais lhe acontece. O presente é apenas uma sucessão de lembranças.

É uma visão. Uma morta que voltou do além para não deixar de seguir sua rotina.

 

maio 29, 2007

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Simplesmente Maria

maio 27, 2007

Durante o dia, numa rua do centro de Florianópolis, uma mulher de aparência indígena se senta no chão com seus dois filhos para vender cestos e colares. Essa é Maria, descendente da tribo dos guaranis. “Maria de quê?”, pergunto. A resposta é um sorriso tímido, meio de lado, mas que deixa bem claro que ela é apenas Maria. Um sobrenome, assim como tantas coisas essenciais, não fazem parte da vida desta mulher.

Ela tem 28 anos, mas a pele maltratada, as unhas e o cabelo sujos fazem com que pareça bem mais velha. Casada, mora no Morro do Cavalo, numa casa de tábuas. Fala em guarani com seus filhos, Gabriel de quatro anos, que brinca à sua volta com o que encontra no chão, e Camilo, de apenas seis meses. O guarani e os artigos que vende parecem ser os únicos resquícios da cultura indígena em Maria. Ela não sabe onde seus antepassados moravam, nem como viviam.

Os pais de Maria, assim como outros descendentes indígenas, também moram no Morro do Cavalo. É a mãe de Maria que periodicamente vai até Rio Grande do Sul buscar no mato a matéria-prima dos colares e cestos que sustentam a família. E os colares, Maria, vendem bem? “Às vezes vende, às vezes não…”. E quando não vende, como você faz para comer? Novamente a resposta é apenas um sorriso, e já não sei se esse sorriso de lado é timidez, tristeza ou só vergonha de não ter mais do que quatro dentes na boca.

Maria nunca teve outro emprego;  não chegou a procurar outra atividade, porque acha que não conseguiria arranjar nada. Nunca foi à escola, mas diz que vai matricular Gabriel.

Ela conhece os índios que estão sentados em cadeiras na esquina, vendendo colares numa banquinha de camelô. No entanto, sentada sozinha no chão com as crianças, ela chama muito mais atenção.

Um homem vestido de palhaço passa por nós fazendo propaganda de uma festa beneficente que farão para os índios. Maria concorda com ele, mas, assim que ele vai embora, pergunto a ela de que festa ele falava e ela simplesmente não sabe.

Na esquina outro grupo de índios toca música. Um homem com um violão é acompanhado por um menino com um violino e por meninas vestidas todas iguais que cantam em coro canções guaranis e tocam chocalhos. Um menino de rua sentado na calçada grita “Toca mais uma! Toca mais uma!”.

maio 26, 2007

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Mais louco é quem me diz

maio 25, 2007

O prédio parece uma pousada. Paredes amarelas, um portal na entrada, muitos carros estacionados. Mas dentro a realidade é totalmente diferente: mulheres e homens ficam em setores diferentes e são impedidos de sair por grades e enfermeiros. As pessoas não conversam entre si. Algumas têm sarna, outras piolhos. Uma mulher varre o chão. Compulsivamente. De um lado para o outro, ela varre o mesmo lugar o dia inteiro, sem limpar nada. Uma jovem está há horas sentada em sua cama abraçada a um ursinho de pelúcia. Ninguém pode assistir televisão, precisa-se da autorização de um psicólogo para ler qualquer livro e não há absolutamente nada para se fazer. Difícil não enlouquecer num ambiente destes.  

Pois é exatamente esse o tratamento dispensado aos internos na clínica psiquiátrica Instituto São José. Hoje é dia de visita na clínica e alguns parentes aguardam para ver os internos. Poucas pessoas. Na sala de espera todos parecem muito cansados.  

Vilma está preocupada com a filha que foi internada domingo, Franciele. Ela tem 25 anos, trabalha numa rede de supermercados, tem um filho de oito anos, é separada e mora com a mãe em Florianópolis há apenas alguns meses.  

Franciele chegava em casa depois do trabalho, se trocava e saía para beber. “Na ânsia de encontrar tempo para trabalhar, cuidar do filho e aproveitar sua vida, ela dormia 2 ou 3 horas por noite”, diz Vilma. Ela foi internada devido a uma crise de euforia ligada ao alcoolismo e à depressão, e se queixa à mãe por estar no mesmo pavilhão de doentes muito mais graves, como a filha de Eduarda, Silvia, que sofre de transtorno de personalidade Borderline.  

Pessoas com esse transtorno são propensas a comportamentos agressivos por motivos quase nulos e a tentar o suicídio. É a terceira vez que Silvia fica internada, e Eduarda, que trabalha na área da saúde, diz com os olhos cheios d´água que desta vez sua filha se internou por vontade própria, e que agora sim ela acredita em sua recuperação. 

Há oito anos Silvia está em tratamento psiquiátrico, ela já passou por outras duas internações. “Acredito que a internação seja necessária num momento de crise, e que a partir do tratamento na clínica é que o paciente vai passar por uma reeducação mental, que leva muitos anos”, disse Eduarda. 

No mesmo dia, um rapaz de 27 anos, olheiras profundas e cabelos desgrenhados na altura dos ombros está recebendo alta. Por um mês e meio Jardel permaneceu internado no Instituto São José. Quando lhe perguntam por que estava internado ele responde “Por nada…”, e deixa o olhar vagar sem  foco.  

“Ele enlouqueceu por causa de uma guria” diz sua mãe, que veio de Jaguariuna para buscá-lo. Jardel é apaixonado por uma menina que nunca quis saber dele. Em todos os lugares em que ela ia, lá estava ele esperando por ela… Ele aprendeu latim sozinho para impressionar sua amada lhe mandando bombons e um trecho de Romeu e Julieta na língua mais antiga do mundo, ignorando o fato de Shakespeare ser inglês. A menina, assustada, deu queixa de Jardel na polícia por perseguição. Ele passou a ficar o tempo todo em casa, costurando.  

O que a literatura chamaria de um louco de amor, a medicina classificou como um paciente com depressão e transtornos obssessivos. Hoje ele volta para Jaguariuna, mas vai continuar tomando 5 remédios diferentes, para evitar que uma nova recaída aconteça.  Talvez a longa duração tratamentos e o sofrimento que a doença traz aos familiares seja o motivo pelo qual muitos internos do Instituto não recebem visitas. O abandono dos parentes é motivo de revolta para muitos deles.  

Todos os pacientes do Instituto São José querem voltar para casa. Muitos estão internados contra sua vontade e não reconhecem estar doentes. No entanto os pacientes são bem tratados e isso já é uma grande evolução se considerarmos os tratamentos que as pessoas consideradas loucas receberam desde a Idade Média.  

No século XV os loucos eram condenados a serem queimados vivos em fogueiras, como as bruxas. Depois passaram a ser trancafiados em calabouços, como os criminosos. Os médicos lhes faziam sangrias para que o sangue infectado fosse retirado  

No século XX vários tratamentos foram testados: injeções de cânfora, de leite e de sangue de placenta humana eram aplicadas nos pacientes. A malaioterapia consistia em provocar no paciente uma infecção de malária. O paciente podia ser induzido ao coma por injeções insulínicas, que numa dose um pouco maior poderiam ser fatais.  

A eletroconvulsoterapia é o famoso tratamento de choque, que induzia os pacientes a terem convulsões e a perder todos os dentes, tanto por causa dos choques elétricos como por causa do bater dos dentes durante as convulsões.  

Mais tarde os médicos começaram a usar os pacientes de manicômios como cobaias para testar cirurgias cerebrais. Os loucos eram considerados animais e sua solicitação não era necessária para a realização da cirurgia, que causava diversos efeitos colaterais, como a perda dos movimentos das pernas e até mesmo a morte.  

Só na década de 40 o Código de Nuremberg, elaborado depois do holocausto nazista e das experiências feitas com prisioneiros em campos de concentração, definiu regras claras para a realização de experimentos com seres humanos, estabelecendo que as cirurgias só podem ser realizadas com a autorização do paciente e que a cirurgia só pode ser feita se for trazer benefícios para o paciente.  

 Na mesma época, os manicômios passaram pela reforma psiquiátrica, a partir da qual meios violentos e repressores deixaram de ser usados nos pacientes internados.  

A Organização Mundial da Saúde estima que 1% da população mundial tenha algum tipo de problema mental. Nos últimos dez anos foi reduzido pela metade o número de leitos ocupados por pessoas com problemas mentais no SUS. Antes eram quase 45.000 pessoas, agora são 18.000, ou 15,4% dos leitos hospitalares brasileiros. 

 Até os anos 80 a internação era única alternativa para os doentes mentais. Muitos alcoólatras e dependentes de drogas também iam para manicômios, como narra Austregésilo Carrano em seu livro Canto dos Malditos, que deu origem ao filme Bicho de Sete Cabeças. Atualmente, na maior parte dos casos, as pessoas com problemas mentais são encaminhadas para o Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) mais próximo, e internações são recomendadas apenas no caso de pacientes agressivos, que a família não consegue controlar.