Sistemátomo

Esqueça as teorias. O mundo não é assim por causa do colonialismo, do feudalismo, do imperialismo, do terrorismo, do surrealismo ou de algum outro “ismo” pseudo-intelectual. A culpa não é do Bush, do Fidel, do Diogo Mainardi e nem de Jesus. As raízes – sim, as raízes – do famigerado e imutável “sistema” vão um pouco – muito mais a fundo – à menor das estruturas. Isso mesmo, ele mesmo. Pare para pensar no funcionamento sociológico de um átomo.

Repousando ao núcleo, os nêutrons permanecem no alto de seus pedestais de isenção e estabilidade, aristocráticos. Gordos, fétidos e indiferentes. Acompanham, às gargalhadas, a sofrida dinâmica servil da eletrosfera. Os nobres bon-vivants atômicos degustam dry-martinis presunçosamente, sob o espectro blasé da neutralidade. Pudera: fora do cômodo núcleo atômico, têm uma vida média de cerca de 15 minutos. How typical.

Os prótons sim, cheios da “positiva” fúria obstinada. Gordos e fétidos também, mas cheios de oportunismo. Graças aos nêutrons, resistem à inevitável e incômoda atração com a ralé, daquele submundo escatológico e caótico da eletrosfera – bleargh. Sanguessugas da nobreza neutrina, do núcleo, do poder, do centro, da evidência, do empreendedorismo de cordiais tapinhas nas costas. Emergentes, burgueses – “pró”tons.

O que se vê além-núcleo é, enfim, a tal eletrosfera. Uma imensa periferia em camadas, onde os elétrons – negativos, tísicos, pobres e emputecidos – correm, correm, correm. Labuta ardilosa e rotineira, como numa linha de produção. Sistema que permanece e permanecerá exatamente do jeito que é. Enquanto a high-society atômica ostenta seu luxo efêmero, os elétrons, sem perspectivas, correm – sempre no mesmo caminho, presos ao mesmo espaço. Nunca se verão elétrons no “núcleo”, assim como nunca se verá sociedade igualitária, sistema justo e nenhuma dessas utopias de botequim.

E aí os átomos juntam-se uns aos outros, nas orgias bizarras e assimétricas que são as moléculas. Desenfreada troca de elétrons, como (ainda hoje) se trocam escravos. Das moléculas surgem as primeiras estruturas, e delas surgem todas as coisas. Tudo é feito de matéria desigual, injusta, podre.

Não é de se espantar.

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Uma resposta to “Sistemátomo”

  1. Jacy Says:

    Chuchu,
    sou tua fã!

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