Você precisa ouvir: Pinkerton, do Weezer

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Imagine-se em 1996. O cenário musical do rock nos EUA não era lá dos melhores. Kurt Cobain havia dado um tiro na cachola dois anos antes e o grunge estava ruindo; o Guns’n Roses já não tinha Slash e começava a sofrer com os devaneios de Axl Rose; o Metallica lançava o fraco Load, depois de 4 anos da turnê do “Black Álbum”; e o hip hop começava a dominar totalmente as paradas de sucesso.

Rivers Cuomo olhou para dentro de si e, direto de seu universo nerd, gravou Pinkerton, um dos discos mais introspectivos da história do rock. Falando abertamente sobre suas angústias amorosas juvenis e sem vergonha de seus óculos de armação grossa, o baixinho de Los Angeles forjou um disco clássico para a década de 90 e toda geração seguinte.

A estréia do Weezer, grupo liderado por Cuomo, já havia sido bem aceita e gerado burburinho em 1994. O álbum homônimo (conhecido popularmente como “Blue Álbum, por trazer uma foto da banda com um fundo azul) emplacou alguns sucessos como Say It Ain’t So e Buddy Holly, que teve seu videoclipe muito bem executado na MTV americana. Fortemente influenciado pelos Pixies, o Weezer começava a traçar os rumos para o rock do final do milênio.

Foi em Pinkerton que a banda alcançou sua sonoridade ideal. É o último disco da banda com o baixista Matt Sharp, que sairia para formar o The Rentals, um Weezer com doses cavalares de Moogs, aquele tecladinho com sonoridade meio metálica que já marcava presença no Weezer. Pinkerton é mais sujo, mais barulhento, mais contagiante, mais dançante e bem mais cheio de guitarras do que a estréia do quarteto. E tudo isso sem deixar de lado as melodias grudentas dos refrões. É colocar no volume mais alto do discman (ou iPod) e sair cantando e pulando pela rua.

No disco, Cuomo revela todas suas angústias de nerd declarado. Ao longo de Pinkerton, ele canta as desventuras de um rapaz que não chega na menina desejada já prevendo que terá uma decepção (Why Bother?), o garoto que sofre com o comportamento indesejado da namorada mas não a larga para não sofrer com a solidão (No other one), um estranho amor a distância (Across the sea), e até a paixão por uma lésbica (Pink Triangle, que traz o impagável verso “Everyone’s a little queer, can’t she be a little straight?”).

E, com toda essa sinceridade, Cuomo incluiu em Pinkerton a melhor canção da carreira do Weezer, The Good Life. O baixo marcado e preciso, no volume mais alto, os riffs de guitarra semelhantes sobrepostos, a mudança de acordes e ritmo no solo e a explosão do refrão compõe um verdadeiro clássico. Na letra, um cara que não suporta se encarar no espelho e clama aos céus para voltar a viver a sua boa vida anterior.

Para terminar o álbum, Cuomo larga as guitarras e faz um pedido de desculpas para a amada perdida, em uma balada acústica extremamente melódica e angustiante (Butterfly). A voz de Cuomo soa diferente, mais triste, distante. Uma canção de despedida.

De fato, a banda só viria a lançar um disco cinco anos depois, o irregular Green Album. Mas as canções pessoais de Cuomo marcariam a produção musical do resto da década, principalmente a geração emo e sua filosofia de vida baseada no sentimentalismo e na melancolia.

O Weezer também é responsável pelo som de boa parte das bandas da cena independente brasileira atual. Os cariocas dos Los Hermanos, principais ícones do novo rock nacional, nunca esconderam, desde seu primeiro álbum, que eram fãs do grupo americano. A banda gaúcha Bidê ou Balde chegou até a fazer uma cover do sucesso Buddy Holly em seu primeiro disco, “Se Sexo É o Que Importa, Só o Rock é Sobre Amor”, de 2001.

Não é de se assustar que o show do grupo no Curitiba Rock Festival de 2005 tenha sido tão intenso quanto os relatos. Uma semana antes do show, Cuomo disse, em entrevista ao jornalista Lúcio Ribeiro, da Folha de São Paulo, que estava apreensivo com o show pois não sabia se os brasileiros conheciam o quarteto. Certamente foi uma surpresa para ele escutar as 3 mil e quinhentas pessoas presentes ao Curitiba Máster Hall cantarem todas as canções do show ininterruptamente, revelando o nerd frustrado que cada um reprime dentro de si.

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