Mais louco é quem me diz

O prédio parece uma pousada. Paredes amarelas, um portal na entrada, muitos carros estacionados. Mas dentro a realidade é totalmente diferente: mulheres e homens ficam em setores diferentes e são impedidos de sair por grades e enfermeiros. As pessoas não conversam entre si. Algumas têm sarna, outras piolhos. Uma mulher varre o chão. Compulsivamente. De um lado para o outro, ela varre o mesmo lugar o dia inteiro, sem limpar nada. Uma jovem está há horas sentada em sua cama abraçada a um ursinho de pelúcia. Ninguém pode assistir televisão, precisa-se da autorização de um psicólogo para ler qualquer livro e não há absolutamente nada para se fazer. Difícil não enlouquecer num ambiente destes.  

Pois é exatamente esse o tratamento dispensado aos internos na clínica psiquiátrica Instituto São José. Hoje é dia de visita na clínica e alguns parentes aguardam para ver os internos. Poucas pessoas. Na sala de espera todos parecem muito cansados.  

Vilma está preocupada com a filha que foi internada domingo, Franciele. Ela tem 25 anos, trabalha numa rede de supermercados, tem um filho de oito anos, é separada e mora com a mãe em Florianópolis há apenas alguns meses.  

Franciele chegava em casa depois do trabalho, se trocava e saía para beber. “Na ânsia de encontrar tempo para trabalhar, cuidar do filho e aproveitar sua vida, ela dormia 2 ou 3 horas por noite”, diz Vilma. Ela foi internada devido a uma crise de euforia ligada ao alcoolismo e à depressão, e se queixa à mãe por estar no mesmo pavilhão de doentes muito mais graves, como a filha de Eduarda, Silvia, que sofre de transtorno de personalidade Borderline.  

Pessoas com esse transtorno são propensas a comportamentos agressivos por motivos quase nulos e a tentar o suicídio. É a terceira vez que Silvia fica internada, e Eduarda, que trabalha na área da saúde, diz com os olhos cheios d´água que desta vez sua filha se internou por vontade própria, e que agora sim ela acredita em sua recuperação. 

Há oito anos Silvia está em tratamento psiquiátrico, ela já passou por outras duas internações. “Acredito que a internação seja necessária num momento de crise, e que a partir do tratamento na clínica é que o paciente vai passar por uma reeducação mental, que leva muitos anos”, disse Eduarda. 

No mesmo dia, um rapaz de 27 anos, olheiras profundas e cabelos desgrenhados na altura dos ombros está recebendo alta. Por um mês e meio Jardel permaneceu internado no Instituto São José. Quando lhe perguntam por que estava internado ele responde “Por nada…”, e deixa o olhar vagar sem  foco.  

“Ele enlouqueceu por causa de uma guria” diz sua mãe, que veio de Jaguariuna para buscá-lo. Jardel é apaixonado por uma menina que nunca quis saber dele. Em todos os lugares em que ela ia, lá estava ele esperando por ela… Ele aprendeu latim sozinho para impressionar sua amada lhe mandando bombons e um trecho de Romeu e Julieta na língua mais antiga do mundo, ignorando o fato de Shakespeare ser inglês. A menina, assustada, deu queixa de Jardel na polícia por perseguição. Ele passou a ficar o tempo todo em casa, costurando.  

O que a literatura chamaria de um louco de amor, a medicina classificou como um paciente com depressão e transtornos obssessivos. Hoje ele volta para Jaguariuna, mas vai continuar tomando 5 remédios diferentes, para evitar que uma nova recaída aconteça.  Talvez a longa duração tratamentos e o sofrimento que a doença traz aos familiares seja o motivo pelo qual muitos internos do Instituto não recebem visitas. O abandono dos parentes é motivo de revolta para muitos deles.  

Todos os pacientes do Instituto São José querem voltar para casa. Muitos estão internados contra sua vontade e não reconhecem estar doentes. No entanto os pacientes são bem tratados e isso já é uma grande evolução se considerarmos os tratamentos que as pessoas consideradas loucas receberam desde a Idade Média.  

No século XV os loucos eram condenados a serem queimados vivos em fogueiras, como as bruxas. Depois passaram a ser trancafiados em calabouços, como os criminosos. Os médicos lhes faziam sangrias para que o sangue infectado fosse retirado  

No século XX vários tratamentos foram testados: injeções de cânfora, de leite e de sangue de placenta humana eram aplicadas nos pacientes. A malaioterapia consistia em provocar no paciente uma infecção de malária. O paciente podia ser induzido ao coma por injeções insulínicas, que numa dose um pouco maior poderiam ser fatais.  

A eletroconvulsoterapia é o famoso tratamento de choque, que induzia os pacientes a terem convulsões e a perder todos os dentes, tanto por causa dos choques elétricos como por causa do bater dos dentes durante as convulsões.  

Mais tarde os médicos começaram a usar os pacientes de manicômios como cobaias para testar cirurgias cerebrais. Os loucos eram considerados animais e sua solicitação não era necessária para a realização da cirurgia, que causava diversos efeitos colaterais, como a perda dos movimentos das pernas e até mesmo a morte.  

Só na década de 40 o Código de Nuremberg, elaborado depois do holocausto nazista e das experiências feitas com prisioneiros em campos de concentração, definiu regras claras para a realização de experimentos com seres humanos, estabelecendo que as cirurgias só podem ser realizadas com a autorização do paciente e que a cirurgia só pode ser feita se for trazer benefícios para o paciente.  

 Na mesma época, os manicômios passaram pela reforma psiquiátrica, a partir da qual meios violentos e repressores deixaram de ser usados nos pacientes internados.  

A Organização Mundial da Saúde estima que 1% da população mundial tenha algum tipo de problema mental. Nos últimos dez anos foi reduzido pela metade o número de leitos ocupados por pessoas com problemas mentais no SUS. Antes eram quase 45.000 pessoas, agora são 18.000, ou 15,4% dos leitos hospitalares brasileiros. 

 Até os anos 80 a internação era única alternativa para os doentes mentais. Muitos alcoólatras e dependentes de drogas também iam para manicômios, como narra Austregésilo Carrano em seu livro Canto dos Malditos, que deu origem ao filme Bicho de Sete Cabeças. Atualmente, na maior parte dos casos, as pessoas com problemas mentais são encaminhadas para o Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) mais próximo, e internações são recomendadas apenas no caso de pacientes agressivos, que a família não consegue controlar.

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