Simplesmente Maria

Durante o dia, numa rua do centro de Florianópolis, uma mulher de aparência indígena se senta no chão com seus dois filhos para vender cestos e colares. Essa é Maria, descendente da tribo dos guaranis. “Maria de quê?”, pergunto. A resposta é um sorriso tímido, meio de lado, mas que deixa bem claro que ela é apenas Maria. Um sobrenome, assim como tantas coisas essenciais, não fazem parte da vida desta mulher.

Ela tem 28 anos, mas a pele maltratada, as unhas e o cabelo sujos fazem com que pareça bem mais velha. Casada, mora no Morro do Cavalo, numa casa de tábuas. Fala em guarani com seus filhos, Gabriel de quatro anos, que brinca à sua volta com o que encontra no chão, e Camilo, de apenas seis meses. O guarani e os artigos que vende parecem ser os únicos resquícios da cultura indígena em Maria. Ela não sabe onde seus antepassados moravam, nem como viviam.

Os pais de Maria, assim como outros descendentes indígenas, também moram no Morro do Cavalo. É a mãe de Maria que periodicamente vai até Rio Grande do Sul buscar no mato a matéria-prima dos colares e cestos que sustentam a família. E os colares, Maria, vendem bem? “Às vezes vende, às vezes não…”. E quando não vende, como você faz para comer? Novamente a resposta é apenas um sorriso, e já não sei se esse sorriso de lado é timidez, tristeza ou só vergonha de não ter mais do que quatro dentes na boca.

Maria nunca teve outro emprego;  não chegou a procurar outra atividade, porque acha que não conseguiria arranjar nada. Nunca foi à escola, mas diz que vai matricular Gabriel.

Ela conhece os índios que estão sentados em cadeiras na esquina, vendendo colares numa banquinha de camelô. No entanto, sentada sozinha no chão com as crianças, ela chama muito mais atenção.

Um homem vestido de palhaço passa por nós fazendo propaganda de uma festa beneficente que farão para os índios. Maria concorda com ele, mas, assim que ele vai embora, pergunto a ela de que festa ele falava e ela simplesmente não sabe.

Na esquina outro grupo de índios toca música. Um homem com um violão é acompanhado por um menino com um violino e por meninas vestidas todas iguais que cantam em coro canções guaranis e tocam chocalhos. Um menino de rua sentado na calçada grita “Toca mais uma! Toca mais uma!”.

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