Fantasmas

Duas da madrugada. Ela caminha por entre os corredores desertos arrastando os pés com dificuldade. Parece ter acabado de sair da cama, de pantufas marrons e um casaco de tricot por cima do vestido amarrotado. As pernas, cobertas de veias azuladas, estão prestes a ceder. O peso que ela carrega nas costas é muito grande.

Esperou sozinha no apartamento o dia inteiro. Regou as plantas, leu o Evangelho, ouviu mais uma briga do casal de vizinhos, assistiu aos mesmos programas na televisao, comeu a mesma comida de sempre. Já não faz diferença.

Quando anoiteceu se animou um pouco, uma mudança de ares sempre faz bem. Agora se esgueira pelos corredores, evitando o olhar das poucas pessoas que cruzam seu caminho.

Os olhos saltados são o único sinal de vida no rosto enrugado e flácido. Observa as gôndolas lotadas sem se deter em nada. As imagens sao insuficientes para fazê-la se esquecer de quem ela é. Tem vergonha de ser vista. Mais vergonha ainda de ver.

Toda a sua vida já se passou, mas ela continuou em frente. Seguiu caminhando e respirando, como todas as pessoas, mas não vive. Nada mais lhe acontece. O presente é apenas uma sucessão de lembranças.

É uma visão. Uma morta que voltou do além para não deixar de seguir sua rotina.

 

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