Como a eternidade

A vibração é contínua, tanto no chão como nas paredes e móveis. É como estar dentro de um chocalho. O barulho das peças se batendo é ensurdecedor. Sente estar ali, sabe estar ali, mas nao se vê. Ao redor tudo é escuro e frio. O cheiro de mofo contamina o ambiente.

Uma distração mínima, e quando deu por si estava ali.

Sentada na almofada, agarra com as unhas a base de madeira do assento. O medo começa a dominá-la.

Em algum momento houve pessoas ali em volta. Sim, pessoas, muitas pessoas, pessoas que falavam, riam, pessoas que ela nunca vira e pessoas que ela amava.

Nem sempre tudo fora assim, escuro e solitário, reduzido ao barulho de um motor que não pára nunca. Houve dias ensolarados, na praia, com crianças correndo e tomando sorvete.

Houve dias de chuva em que o corpo pedia descanso, e a mãe lhe levava um cobertor se ela cochilasse no sofá. Já está ali há tanto tempo que é difícil acreditar, mas ela ainda se lembra. O tempo é que já não faz o menor sentido. Como pode existir o tempo quando nada muda para sempre?

Até dos dias nublados, com sua luz triste, que sempre odiara, ela sentia falta, agora que tudo se fora. Só restavam pensamentos. Incômodos e repetivos pensamentos.

Esperara muitas coisas. Deuses, anjos, campos floridos, demônios chifrudos de tritão em punho, gritando blasfêmias e ditando castigos abomináveis, até mesmo o nada, completo e absoluto, simplesmente o fim.

Talvez o limbo em que se encontrava fosse ainda pior. Nunca imaginara que a morte pudesse ser como um vagão de trem circulando por um túnel escuro sem fim.

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