Por um pão

A quem interessa que uma pessoa esteja viva, senão a ela mesma?

A maior parte das pessoas quer viver. Luta para isso. Faz planos e abre mão de luxos no presente: tudo para garantir o futuro, para garantir que sua vida será o mais agradável possível até o fim. Então por que tanta resistência contra o suicídio?

A imprensa brasileira não noticia suicídios. Mesmo que uma pessoa pública cometa suicídio isso não vai constar na cobertura da imprensa. A intenção é não fazer com que o suicídio pareça um ato heróico, para não incentivar novos suicídios. Uma exceção talvez tenha sido a morte de Getúlio Vargas, que, suicídio ou não (há controvérsias) foi amplamente divulgado, e teve grande impacto na sociedade brasileira. Vargas, que estava em baixa, deixou a vida como um dos presidentes mais amados pelos brasileiros. Seu suicídio foi visto como um ato heróico, e acima de tudo político. Um verdadeiro harakiri, ato suicida praticado pelos samurais quando perdiam uma batalha, para evitar a desonra de se tornarem prisioneiros.

E qual é o problema com isso? Morrer, por mais doloroso que possa ser, deve ser muito melhor do que uma vida que não se quer viver, que é entulho na vida de outras pessoas. Viver preso a uma cama, com tubos em várias partes do corpo sem poder mexer nada do pescoço para baixo bem poderia ser uma forma de tortura. Não é natural que uma pessoa nessas condições continue viva, e mesmo assim, quando a sua mente, que continua sadia, decide que quer morrer, lhe negam esse direito. Não porque alguém se importe com a vida dessa pessoa em especial. Mas por medo da morte. Por medo que a morte seja banalizada e aceita como uma alternativa. 

Para os orientais a questão da honra é muito importante. Se no passado os samurais usavam o suicídio para preservar sua honra, para chamar a atenção de seu daimiô para algo que estivessem fazendo de errado ou até mesmo para acompanhá-lo na morte, já que cada samurai só deveria servir a um daimiô, atualmente não são raros os suicídios na Ásia. No Japão executivos se matam se sua empresa não obtiver sucesso. O japonês se sente desonrado se não conseguir sustentar sua família. Jovens se suicidam se não forem aprovados no vestibular. A cobrança da sociedade é maior do que a vontade de viver.

Com 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, um quinto da população mundial, a China registrava, em 2003, 280 mil suicídios por ano, cerca de 30% do total mundial. A OMS calcula que atualmente sejam 350 mil suicídios por ano. A maior taxa está na faixa etária dos 15 aos 34 anos, na área rural e entre as mulheres.

O governo chinês trata o suicídio como um problema mental, e tenta combatê-lo. No entanto isso parece não estar surtindo efeito, já que no começo do mês a OMS pediu ao governo chinês que restrinja a venda de pesticidas, que são responsáveis por 60% dos suicídios. “Muitas pessoas só querem chamar a atenção, mas, se tomam pesticidas, não há salvação”, disse Henk Bekedam, representante na China da OMS. Será verdade? Ou não convém ao governo chinês admitir que 350 mil pessoas por ano, na China, preferem morrer a viver?

Talvez seja verdade que algumas pessoas só querem chamar atenção. Hoje um chinês que já havia tentado o suicídio mais de 100 vezes fracassou mais uma vez. Shi, como foi apelidado, já tentou se suicidar de várias maneiras. Desta vez foi resgatado pela polícia quando tentava se enforcar em uma árvore, na cidade de Nankin. Shi começou a tentar o suicídio quando se divorciou, em 2003, e passou a ter depressão. Provavelmente Shi só quer atenção. Talvez queira sua mulher de volta.Talvez só queira sua felicidade de volta, não necessariamente com a ex-mulher, mas alguém que quer mesmo se matar não falha 100 vezes.

Já para Huang o suicídio foi a única saída. Semana passada, a jovem Huang Xiaoling, pseudônimo que lhe foi atribuído pelos jornais, cometeu suicídio após ter sido humilhada em público por ter roubado um pão.

Filha adotiva de uma família pobre, que mora em Shenyang, Huang estava há mais de um dia sem comer. Os parentes deram à menina um iuane para comprar comida. Ela pegou apenas 50 centavos, provavelmente ciente da falta que o dinheiro faria à família. Entrou numa padaria e viu pães fresquinhos. Não resistiu e colocou um pão no bolso, acreditando que ninguém a via. No entanto o padeiro flagrou o furto, e a recriminou em voz alta, diante de todos que estavam na padaria.

Huang pediu desculpas. O pão custava 0,26 centavos de dólar, e um dos clientes gentilmente se ofereceu para pagar o pão. O padeiro não ouviu ninguém. Ralhou com ela por mais de uma hora e ainda informou o episódio à escola, aonde Huang sofreu uma nova humilhação, já que no ensino chinês, é comum criticar atitudes dos alunos.

A menina voltou para casa da escola, provavelmente com fome e se sentindo uma pessoa terrível, escreveu uma nota de desculpas à família e se matou.

“Sinceramente, não queria roubar o que não me pertencia. Já sei que cometi um erro, mas naquele momento estava com fome e não pude resistir à tentação do pão. Fiz o que não devia fazer. Não tenho honra suficiente para olhar as pessoas na cara, sinto vergonha pelos meus professores e companheiros. Adeus. Espero que possam me perdoar”, escreveu.

Nunca se saberá como Huang se matou, já que sua família adotiva é tão pobre que não pode pagar a autópsia. O mais provável é que ela tenha tomado veneno.

A China talvez não queira que o mundo conheça as circunstâncias que levam tantas pessoas a cometerem o suicídio. Isso faria muito sentido. Tanto quanto o suicídio, em alguns casos.

Informações da Folha Online e de O Estado de S. Paulo.

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