Archive for maio \24\UTC 2007

Acrílica sobre papel

maio 24, 2007

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Você precisa ouvir: Pinkerton, do Weezer

maio 24, 2007

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Imagine-se em 1996. O cenário musical do rock nos EUA não era lá dos melhores. Kurt Cobain havia dado um tiro na cachola dois anos antes e o grunge estava ruindo; o Guns’n Roses já não tinha Slash e começava a sofrer com os devaneios de Axl Rose; o Metallica lançava o fraco Load, depois de 4 anos da turnê do “Black Álbum”; e o hip hop começava a dominar totalmente as paradas de sucesso.

Rivers Cuomo olhou para dentro de si e, direto de seu universo nerd, gravou Pinkerton, um dos discos mais introspectivos da história do rock. Falando abertamente sobre suas angústias amorosas juvenis e sem vergonha de seus óculos de armação grossa, o baixinho de Los Angeles forjou um disco clássico para a década de 90 e toda geração seguinte.

A estréia do Weezer, grupo liderado por Cuomo, já havia sido bem aceita e gerado burburinho em 1994. O álbum homônimo (conhecido popularmente como “Blue Álbum, por trazer uma foto da banda com um fundo azul) emplacou alguns sucessos como Say It Ain’t So e Buddy Holly, que teve seu videoclipe muito bem executado na MTV americana. Fortemente influenciado pelos Pixies, o Weezer começava a traçar os rumos para o rock do final do milênio.

Foi em Pinkerton que a banda alcançou sua sonoridade ideal. É o último disco da banda com o baixista Matt Sharp, que sairia para formar o The Rentals, um Weezer com doses cavalares de Moogs, aquele tecladinho com sonoridade meio metálica que já marcava presença no Weezer. Pinkerton é mais sujo, mais barulhento, mais contagiante, mais dançante e bem mais cheio de guitarras do que a estréia do quarteto. E tudo isso sem deixar de lado as melodias grudentas dos refrões. É colocar no volume mais alto do discman (ou iPod) e sair cantando e pulando pela rua.

No disco, Cuomo revela todas suas angústias de nerd declarado. Ao longo de Pinkerton, ele canta as desventuras de um rapaz que não chega na menina desejada já prevendo que terá uma decepção (Why Bother?), o garoto que sofre com o comportamento indesejado da namorada mas não a larga para não sofrer com a solidão (No other one), um estranho amor a distância (Across the sea), e até a paixão por uma lésbica (Pink Triangle, que traz o impagável verso “Everyone’s a little queer, can’t she be a little straight?”).

E, com toda essa sinceridade, Cuomo incluiu em Pinkerton a melhor canção da carreira do Weezer, The Good Life. O baixo marcado e preciso, no volume mais alto, os riffs de guitarra semelhantes sobrepostos, a mudança de acordes e ritmo no solo e a explosão do refrão compõe um verdadeiro clássico. Na letra, um cara que não suporta se encarar no espelho e clama aos céus para voltar a viver a sua boa vida anterior.

Para terminar o álbum, Cuomo larga as guitarras e faz um pedido de desculpas para a amada perdida, em uma balada acústica extremamente melódica e angustiante (Butterfly). A voz de Cuomo soa diferente, mais triste, distante. Uma canção de despedida.

De fato, a banda só viria a lançar um disco cinco anos depois, o irregular Green Album. Mas as canções pessoais de Cuomo marcariam a produção musical do resto da década, principalmente a geração emo e sua filosofia de vida baseada no sentimentalismo e na melancolia.

O Weezer também é responsável pelo som de boa parte das bandas da cena independente brasileira atual. Os cariocas dos Los Hermanos, principais ícones do novo rock nacional, nunca esconderam, desde seu primeiro álbum, que eram fãs do grupo americano. A banda gaúcha Bidê ou Balde chegou até a fazer uma cover do sucesso Buddy Holly em seu primeiro disco, “Se Sexo É o Que Importa, Só o Rock é Sobre Amor”, de 2001.

Não é de se assustar que o show do grupo no Curitiba Rock Festival de 2005 tenha sido tão intenso quanto os relatos. Uma semana antes do show, Cuomo disse, em entrevista ao jornalista Lúcio Ribeiro, da Folha de São Paulo, que estava apreensivo com o show pois não sabia se os brasileiros conheciam o quarteto. Certamente foi uma surpresa para ele escutar as 3 mil e quinhentas pessoas presentes ao Curitiba Máster Hall cantarem todas as canções do show ininterruptamente, revelando o nerd frustrado que cada um reprime dentro de si.

Sistemátomo

maio 22, 2007

Esqueça as teorias. O mundo não é assim por causa do colonialismo, do feudalismo, do imperialismo, do terrorismo, do surrealismo ou de algum outro “ismo” pseudo-intelectual. A culpa não é do Bush, do Fidel, do Diogo Mainardi e nem de Jesus. As raízes – sim, as raízes – do famigerado e imutável “sistema” vão um pouco – muito mais a fundo – à menor das estruturas. Isso mesmo, ele mesmo. Pare para pensar no funcionamento sociológico de um átomo.

Repousando ao núcleo, os nêutrons permanecem no alto de seus pedestais de isenção e estabilidade, aristocráticos. Gordos, fétidos e indiferentes. Acompanham, às gargalhadas, a sofrida dinâmica servil da eletrosfera. Os nobres bon-vivants atômicos degustam dry-martinis presunçosamente, sob o espectro blasé da neutralidade. Pudera: fora do cômodo núcleo atômico, têm uma vida média de cerca de 15 minutos. How typical.

Os prótons sim, cheios da “positiva” fúria obstinada. Gordos e fétidos também, mas cheios de oportunismo. Graças aos nêutrons, resistem à inevitável e incômoda atração com a ralé, daquele submundo escatológico e caótico da eletrosfera – bleargh. Sanguessugas da nobreza neutrina, do núcleo, do poder, do centro, da evidência, do empreendedorismo de cordiais tapinhas nas costas. Emergentes, burgueses – “pró”tons.

O que se vê além-núcleo é, enfim, a tal eletrosfera. Uma imensa periferia em camadas, onde os elétrons – negativos, tísicos, pobres e emputecidos – correm, correm, correm. Labuta ardilosa e rotineira, como numa linha de produção. Sistema que permanece e permanecerá exatamente do jeito que é. Enquanto a high-society atômica ostenta seu luxo efêmero, os elétrons, sem perspectivas, correm – sempre no mesmo caminho, presos ao mesmo espaço. Nunca se verão elétrons no “núcleo”, assim como nunca se verá sociedade igualitária, sistema justo e nenhuma dessas utopias de botequim.

E aí os átomos juntam-se uns aos outros, nas orgias bizarras e assimétricas que são as moléculas. Desenfreada troca de elétrons, como (ainda hoje) se trocam escravos. Das moléculas surgem as primeiras estruturas, e delas surgem todas as coisas. Tudo é feito de matéria desigual, injusta, podre.

Não é de se espantar.

Acrílica sobre papel

maio 22, 2007

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Sobre a rebeldia

maio 20, 2007

Então, há um tempo atrás, o presidente Lula recebeu no Palácio do Planalto a banda (?!) mexicana Rebeldes. Churrasquinho, jogo de futebol, tudo como manda o manual de recepção do atual governo tupiniquim. E, claro, não podia faltar a doação de uma guitarra da banda (!?) para o programa Fome Zero, a menina dos olhos do presidente, com direito a foto posada de Lula empunhando o instrumento (sem duplo sentido, por favor) e com cara de mau.

Aqui não está em pauta ser de direita ou de esquerda, nem análise musical, que não sou chegado a covardia. A ocasião é carregada de um simbolismo enorme pela presença da banda (repita-se a interrogação e exclamação quantas vezes forem necessárias). Fica uma pergunta no ar: são esses os rebeldes de hoje? Um bando de jovens cuidadosamente vestidos pela produção e o departamento de marketing de uma novela, com movimentos calculados e atitudes previsíveis, se abraçando com governantes? Os punks britânicos da década de 70 com o inconformismo e seus xingamentos à rainha em TV aberta, os artistas que brigaram contra a Guerra do Vietnã nos anos 60 e toda a resistência ao regime militar no Brasil devem estar se envergonhando de uma geração como essa.

A rebeldia foi banalizada, ou o que é pior, virou produto de marketing. É vendida num grupo internacional, no discurso da banda da molecada (aê, Chorão), na loja da esquina, como um souvenir. Talvez seja só saudosismo barato e incoerente chegando cedo demais, mas não param de ecoar na mente as palavras do profeta (quem diria) Humberto Gessinger: A juventude é uma banda, numa propaganda de refrigerantes.

Gravura em metal

maio 19, 2007

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O espetacular mundo da política

maio 19, 2007

Sim senhoras e senhores, da próxima vez em que assistirmos ao horário eleitoral ouviremos, talvez logo depois de Ey ey eymael, um democrata cristão, o Piri piri de Gretchen, que acaba de se associar ao PPS e pretende se candidatar a prefeita da Ilha de Itamaracá, em Pernambuco.

Maria Odete Brito de Miranda, ou a rainha do bumbum, como Gretchen é conhecida desde os anos 70, tem em seu currículo invejável os registros de cantora e atriz pornô. Esse é o tipo de político que o Brasil precisa. Dialoga com as massas, conhece a mídia, e representa as preferências do país pela abundância.

Ao ser apresentada como membro do PPS, Gretchen declarou que deixará de ser artista para se dedicar à política. Não consta que alguém a tenha chamado de artista. O fato é que Gretchen pediu orientação para o estudo da política e da coisa pública, mas deixou claro que em seus 30 anos de carreira artística adquiriu “um olhar mais profundo” sobre o país. Quão profundo é este olhar ela não pode dizer, devido ao horário em que a entrevista foi feita.

O deputado estadual Raul Jungmann, ao apresentá-la disse que o PPS não tem preconceitos e que Gretchen aparenta estar disposta a se aprofundar nesse novo mundo. Algumas pessoas simplesmente não tem limites.

O Senador Eduardo Suplicy, enciumado com a entrada de Gretchen no mundo da política, passou a declamar rap nas sessões do Senado, levando às gargalhadas os colegas da Comissão de Constuição e Justiça. Insatisfeito em apenas interpretar trechos de O homem na estrada, do Racionais Mc´s, o senador resolveu tentar vôos mais altos e constrangedores e soltou a voz cantando Blowin´in the Wind, de Bod Dylan, em uma palestra que ministrou na ESALQ.

Diante destes acontecimentos, não é de se estranhar que os maiores jornais do país tenham exibido fotos do presidente Lula segurando uma guitarra. Felizmente ele não resolveu virar cantor, apenas achou espaço entre os encontros com embaixadores e ministros e as viagens internacionais para receber o grupo Rebeldes. Talvez tenha pensado que se a Gretchen quer ser prefeita e o Suplicy cantor, ele pode relaxar e ser o presidente que bem entender. Não que isso mude muita coisa.

Fossa

maio 19, 2007

Aquela projeção dogmática…aquela certeza etérea, aquela extremidade, aquele tesão – essa ruptura. Essa falta de amor, ele que te entorpecia. Ele que acenava, que ia a fundo nos poros, que admirava com certa timidez adolescente. Esse clichê é tão efêmero…

Sentido sul, sempre sul. Passando pela serra, depois que a vegetação escasseia, depois que o clima inebria, chega-se a uma estrada aberta no deserto, mão-dupla, com a ida livre e a volta completamente engarrafada. Ao cabo de várias milhas, surge a enorme depressão, preenchida por uma névoa escura, de modo que a sensação é de adentrar num buraco negro. É Fossa, a cidade triste – e dizem seus moradores ser perene o breu.

A Fossa é anárquica. Isso porque a única tentativa de democratizar o condado resultou no suicídio de todos os que assumiam a prefeitura – pior do que viver na Fossa é ter de administrá-la. Dessa forma, a organização social delineia-se de forma absolutamente aleatória e caótica. Combinam-se conspirações no burburinho dos depressivos, inocula-se amargura nas ruas – em seringas contaminadas, migalhas de auto-estima dilacerada são devoradas do chão.

Ainda assim, num bantustão isolado de dor, o fluxo de turistas é intenso durante o ano todo. Fossa é a Meca do eu melancólico em cada ser, e a passagem por ela é circunstancial ou proposital. É comum a aquisição do “pacote Fossatur”: centro histórico, monumentos, sessão de pranto histérico, sessão de pranto brando, fim-de-semana de solidão. Um pouquinho de Fossa, e a cicatriz no free shop ou na feirinha de artesanato, por uns três dólares, talvez menos. Souvenir.

Também aparecem os mochileiros da Fossa, que procuram conhecê-la mais a fundo, e senti-la em sua totalidade. A periferia, a esquina da confeitaria, o espelho d’água, a ruela esquecida entre duas avenidas, os becos mais obscuros, a senhora à janela que tenta, curiosamente, esboçar um meio-sorriso – o louco anseio de sair da Fossa a qualquer custo, apesar do magnetismo inexplicável que o solo da cidade exerce sobre quem a visita.

Mas, é claro, não esqueçamos dos residentes da Fossa. Eles, que por toda a vida coexistem nesse espaço sob a pressurização constante do que chamamos de sofrimento. Eles que choram ao comprar o jornal, eles que se auto-flagelam na fila do banco, eles que vão rastejando ao local de trabalho. Eles que, diariamente, transformam seus sonhos em projéteis agudos para uma guerrilha urbana, e os atiram uns contra os outros. Eles que foram fagocitados pelas suas próprias resignações.

Da passagem pela Fossa, o que intriga é sair de lá tendo a certeza do retorno, breve ou não. Há quem se iluda, se preserve, evite ao máximo as intensidades que possam levar à cidade, mas não tem jeito. Quando se dão conta, já se uniram aos milhões que agonizam às ruas tristes-cheias-vazias de Fossa.

No Trombone

maio 19, 2007

No Trombone, de Roberta Ávila