Archive for junho \27\UTC 2007

junho 27, 2007

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A coragem de dizer a verdade

junho 27, 2007

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No livro “Um Homem sem Pátria, coleção de crônicas e pequenos ensaios”, Kurt Vonnegut analisa a narrativa de várias histórias: Cinderela, Dickens, Kafka, Shakespeare.

Para Vonnegut o que faz com que uma história tenha qualidade não é o que acontece ao longo de enredo, Hamlet é a história de um rapaz, cujo pai é assassinado e ele tenta descobrir quem matou seu pai. Milhares de histórias seguem esse enredo. Em outras milhares o fantasma do pai morto volta para falar ao filho, sem que isso signifique que o defunto vai contar ao filho quem o pai. O que faz de Hamlet uma grande história, para Vonnegut, é o fato dos personagens de Shakeaspere não saberem o que é bom e o que é ruim na sua vida, assim como os homens de fato não sabem. Shakespeare admite assim a condição do homem na sua vida, e isso engrandece a sua obra, que toma dimensão filosófica a partir de um fato mundano. Isso, para Vonnegut, é a coragem de dizer a verdade.

Courbet tem a coragem de dizer a verdade e de provocar aqueles que a ignoram ao pintar A origem do mundo. É possível ignorar boa parte do tempo que somos animais, assim como os cavalos e os ratos, mas é impossível ignorar a face animalesca do homem quando se trata de sexo.

Por mais que as mulheres usam sete saias, armações de metal embaixo dos vestidos, espartilhos, soutiens e o que mais for, por baixo de todo pano ainda haverá seios e uma vagina. Parece ridículo, mas se isso fosse tão óbvio o quadro de Gustav Courbet não teria causado o alvoroço que causou.

Todo aquele escândalo, senhoras horrorizadas, mocinhas proibidas de ver o quadro, que ficou perdido por tanto tempo por causa de uma vagina!

Ora essa, a origem do mundo para todos os homens é uma vagina. É a pura verdade! Então encarem-na! Encarem a vagina da origem do mundo! Deixem de lado a hipocrisia e vejam a verdade por debaixo dos panos.

O que Courbet ousou fazer em 1886 ainda desafia a sociedade contemporânea. Isso me lembra uma entrevista feita na Serra Pelada, há alguns anos, em que o jornalista, se não me engano Pedro Bial, que na época não apresentava só o Big Brother, perguntou a um daqueles miseráveis homens porque ele arriscava a vida tentando achar ouro num lugar que já tinha sido tão explorado. A resposta do homem foi: para ficar rico. Bial então lhe perguntou para que ele queria ficar rico, e a resposta, sabia como a origem do mundo foi: ué, para comer mulher!

Courbet exclamou (chocando tantas pessoas): sexo move o mundo! E move mesmo.

Cerâmica Plástica

junho 25, 2007

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Arte e cultura de mãos dadas

junho 24, 2007

Resenha do ensaio “A arte como um sistema cultural”, de Clifford James Geertz.

Em seu ensaio “A arte como um sistema cultural”, integrante do livro “O Saber Local: novos ensaios em Antropologia Interpretiva”, 142-181, Editora Vozes, Clifford James Geertz trabalha a questão da arte ser algo de que o discurso não dá conta de explicar e, ao mesmo tempo, as pessoas se sentirem atraídas pela idéia de falar sobre arte.

Para o antropólogo estadunidense, considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea – a chamada Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa – isso acontece porque, ao nos depararmos com uma obra de arte, percebemos que há ali algo importante e tentamos expressar o que sentimos, mas as palavras soam vazias e falsas ao falar sobre arte. Como cita Geertz “quando não somos capazes de falar, devemos ficar em silêncio”,no entanto, os próprios artistas não conseguem fazê-lo.

Apesar da aparente inutilidade em se falar sobre arte, discutir arte é uma necessidade incessante, diz Geertz. No entanto, boa parte das pessoas discute arte em termos artesanais, colocando as cores de uma obra de arte e suas relações acima de temas como harmonia ou composição pictórica. No ocidente algumas pessoas chegam mesmo a acreditar que isso é suficiente para se entender a arte.

Mas a maioria crê que isso não é suficiente, e que a discussão nesses termos deriva de interesses culturais que não são a arte em si.

A função do discurso sobre arte é buscar para esta um lugar no contexto das demais expressões dos objetivos humanos e dos modelos de vida a que essas expressões dão sustentação (p.145).

Geertz faz uma análise dos fatores que fazem com que algo seja definido como uma obra de arte. Essa definição nunca é puramente estética, mas sim uma forma de anexação a outras formas de atividade social, com a intenção de incorporar essa apreciação estética a um padrão de vida (p.146).

Essa atribuição de um significado cultural a objetos de arte é sempre um processo local e a incapacidade de compreender essa variedade é a responsável por fazer com que muitos estudiosos da arte não-ocidental digam que povos primitivos falam pouco sobre arte. Povos primitivos falam sim sobre arte, mas não da mesma forma como o fazem os pesquisadores, em termos de propriedades formais, conteúdo simbólico, valores afetivos e estilísticos.

Os povos primitivos falam sobre arte ao dizer como ela deve ser usada, quem é seu dono, quem o faz, quando é tocado, quem desempenha papel nessa ou naquela atividade e assim por diante. A questão é que a atitude dessas sociedades com relação à arte é vista pelos pesquisadores não como discurso sobre arte, mas como parte de suas atividades sociais, de sua vida cotidiana. A relação que possuem com arte passa despercebida ao nosso plano de visão.

Como resposta a isto, Geertz cita Matisse, que dizia que os meios através dos quais a arte se expressa e o sentimento pela vida que os estimula são inseparáveis. Portanto, o diálogo em torno do objeto de arte, ainda que discutindo sua função ou quem o possuía, era uma forma das sociedades primitivas exteriorizarem sentimentos que levaram à sua execução, ou seja, uma forma de falar sobre arte.

Pelo fato de ser impossível separar a arte do sentimento que estimulou sua execução, estudar a arte é explorar uma sensibilidade que é, essencialmente, uma formação coletiva.

Essa forma de ver a arte nos afasta da visão funcionalista, que vê as obras de arte como mecanismos elaborados para definir as relações sociais, mantendo suas regras e fortalecendo seus valores (p. 150). Para Geertz, as formas de arte não pregam doutrinas. Elas materializam uma forma de viver, evidenciando um modelo de pensamento para o mundo dos objetos, tornando-o visível.

Deste ponto de vista, o valor que as diferentes sociedades atribuem a elementos como o traço e a linha é derivado de significados da sua própria cultura. Por isso, o que se fala sobre arte, inclusive o que não faz parte reconhecidamente do discurso estético, é importante na reflexão sobre arte, para tentar apreender a origem dos valores artísticos nas diferentes sociedades.

Os antropólogos reagem a esta união entre a cultura e os valores estéticos replicando que isso pode ser verdade para os povos primitivos, que fundem os vários domínios de sua experiência em um todo gigantesco, mas que isso não se aplica a culturas mais desenvolvidas (p. 154).

Para retrucar esse argumento, Geertz analisa dois empreendimentos estéticos desenvolvidos e muitos diferentes: a pintura do quattrocento e a poesia islâmica.

Para falar sobre a pintura italiana do século XV, Geertz cita a análise de Michael Baxandall, no livro “Painting and experience in fifteenthcentury italy”, que procura estabelecer “o olhar da época, a bagagem intelectual que o público de um pintor do século XV, isto é, outros pintores e as ‘classes patrocinadoras’ trazia no confronto com estímulos visuais complexos, como quadros”.

Isso significa que as pessoas são sensíveis a vários tipos de habilidades interpretativas, e que essas habilidades não são inatas, mas parte da bagagem cultural de cada homem, que ordena a sua experiência visual.

A pintura do quattrocento era na sua maior parte de temática religiosa, e a sua intenção era exaltar a dimensão espiritual da vida, convidando o observador a refletir sobre as verdades do cristianismo. Não era, portanto, algo que devia ser apenas observado, mas que devia levar a uma reflexão, interagia com a cultura na qual estava inserida de maneira complementar: era necessário haver uma compreensão do tema da pintura e uma reflexão a partir disso, e o conhecimento prévio do assunto, comum aos italianos inseridos neste meio, quer como pintores quer como mecenas, era necessário para isso.

Havia ainda vários fatores que colaboravam para a formação desta sensibilidade no público. Os pregadores populares transmitiam conhecimento religioso às suas congregações de forma que as fisionomias eram caracterizadas e as cores transformadas em símbolos. Isso era essencial para a resposta à pintura.

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O nascimento de Vênus,1483 – Sandro Botticelli

Outro fator que contribuía para a compreensão dos quadros era a dança da época, que utilizava passos lentos e movimentos geométricos. Essas formas de agrupamento foram utilizadas por pintores como Botticelli para organizar as figuras em pinturas como Primavera e Nascimento de Vênus. As pessoas compreendiam a maneira como as pessoas se agrupam como resultado do tipo de relacionamento que existe entre elas.

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Primavera,1478 – Sandro Botticelli

Além disso, as pessoas possuíam uma grande capacidade de avaliação de formas geométricas. Essa habilidade era muito necessária no comércio, pois existiam embalagens de tamanho padrão, que eram divididas em outros tipos de embalagens. Aos comerciantes era indispensável a habilidade de decompor massas irregulares em grupos de massas regulares, cilindros, cones, cubos e assim por diante. É um mundo intelectual específico, mas era nessa esfera, de lugares como Veneza e Florença, que viviam as classes cultas.

Geertz cita Baxandall na sua afirmação de que um registro visual é algo que precisamos aprender a ler, assim como temos que aprender a ler um texto de uma cultura diferente da nossa.

A participação no sistema da arte só se torna possível através da participação no sistema geral de formas simbólicas que chamamos de cultura (p. 165) e uma teoria da arte é, ao mesmo tempo, uma teoria da cultura, e não algo autônomo.

O poeta no islã é o homem que faz o tráfico da substância moral da sua cultura.

O Corão é o único milagre do islã. Seu nome significa “recitação”, e ele difere das outras escrituras porque não contém relatos de profetas falando sobre Deus, mas a própria palavra de Deus, que escreveu o Corão. Assim como Deus, o Corão é imortal, é um dos atributos de Alá. Então, quando alguém recita o Corão canta o próprio Deus, exerce um ato de fé.

A língua árabe possui a sua versão clássica, que é a linguagem do Corão, falada por uma parcela pequena da população, e a sua versão vulgar, que é falada por todos. No entanto, as árabes consideram que só a língua culta é capaz de exprimir as grandes verdades, e que a língua vulgar é incapaz de dizer coisas sérias.

A poesia do islã é uma reorganização das palavras do Corão falando sobre temas definidos, usando fórmulas pré-estabelecidas. Temas como a inevitabilidade da morte, a não-confiabilidade das mulheres e o orgulho religioso são comuns.

A poesia do islã corre o tempo todo o risco de ser sacrílega, já que usa as palavras do Corão para tratar de temas mundanos. As apresentações dos poetas são feitas ao ar livre, e as poesias não são escritas, são feitas na hora. Caso o poeta não atinja as expectativas da platéia será vaiado e obrigado a parar a recitação.

A definição do que é de bom gosto e o que não é depende da capacidade do artista de atingir as sensibilidades que a sociedade possui, tanto no caso da pintura do quattrocento como na poesia islâmica.

Portanto, se existe algo em comum entre todas as artes, certamente não será o fato de afetarem um sentido universal de beleza presente em todos os homens. Assim como a variedade artística não é resultado do acaso, mas das várias concepções que as diferentes sociedades têm sobre como funciona e se organiza o mundo.

Localizando o contexto de surgimento das artes, talvez seja possível começar a localizar as origens de seu poder.

junho 20, 2007

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2º Congresso de Suicidologia

junho 20, 2007

De 28 a 30 de junho acontece em Belo Horizonte o 2º Congresso de Suicidologia. Só por milagre os participantes escaparam da primeira edição do Congresso. Sabe como é, às vezes a vontade de viver aparece, ali, no último momento, no instante em que a lâmina de barbear corta o pulso, um segundo antes de pular do alto da ponte.

O suicídio é considerado uma das principais causas de morte entre homens e mulheres da faixa etária dos 15 aos 44 anos. Também, depois dos 44 já passou tanto tempo que quem tinha coragem e vontade já se foi; os outros se conformaram em ficar por aqui mesmo, neste mundo cruel.

Representantes de 16 países estarão presentes: Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Costa Rica, Cuba, Estados Unidos, França, Inglaterra, Israel, México, Paraguai, Peru, Porto Rico e Uruguai. O prestigio internacional do Congresso se deve às incríveis palestras ministradas durante a primeira versão: “Veneno de rato – uma solução prática”, “Gás de cozinha – tenha uma morte indolor” e “Overdose – suicídio ou morte acidental?”.

O número de inscritos para a 2ª edição foi inferior ao da primeira, mas isso já era esperado, claro.

Incrivelmente, o 2º Congresso de Suicidologia vai acontecer (não é brincadeira) e seu tema é “Compreender para prevenir”. Caso você tenha uma inclinação para se machucar propositalmente, procure um psicólogo ou veja mais sobre o assunto no link www.congressosuicidio.com. Mas se você estiver decidido, aproveite a data! Os especialistas da área estarão ocupados discutindo o assunto e a barra vai estar limpa.

junho 19, 2007

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Music

junho 16, 2007

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A carvão

junho 16, 2007

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junho 15, 2007

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