Flácido, mas bronzeado

Aproximou-se do ponto de ônibus como quem caminha a passeio: um pezinho depois do outro, os olhos de um azul claro muito atentos ao que se passava na rua, a bengala suportava o corpo curvado e desequilibrado. Estava velho, mas ainda tinha todo o tempo do mundo. Os dias lhe pertenciam, com suas horas que se passavam calmamente, entre uma ida à praça para ver os amigos, um passeio pelo quarteirão e uma partida de xadrez bem jogada.

Sentou-se bem devagarinho, como se tivesse medo de danificar uma sutil engrenagem. Seus movimentos eram planejados, os riscos calculados, precauções tomadas, a bengala posicionada. Já que o conjunto todo estava enferrujado, cada pecinha devia ser cuidada, quem sabe a falta que poderiam fazer… Um tombo e talvez nunca mais voltasse a andar. Há até quem morra disso! Um escorregão na banheira poderia ser fatal.

Cumprimentou-me com sua voz rouca. Os dentes se deslocaram um pouco na boca, talvez por isso existam tantas propagandas de cola para dentadura.

Era mesmo uma bela manhã. O sol iluminava o calçadão e as pessoas se dirigiam às praias. Os ciclistas passavam apressados pela frente do ponto de ônibus, com sua roupas reluzentes e panturrilhas inchadas. As mulheres vestiam roupas coloridas e atraentes. O velhinho, com seu colete bege e seu mocassim marrom, destoava da paisagem. Parecia ter saído de um portal, diretamente do passado, para se sentar ao meu lado.

O ônibus devia estar se aproximando, me levantei para esperá-lo.

“Deus abençoe essa bunda, minha filha”.

Assim, de repente, como se fôssemos velhos conhecidos, íntimos, como um avô que faz recomendações à neta, sem pudor nem rodeios.

Me virei espantada e lá estavam seu claros olhos me encarando. Os cabelos brancos reluziam ao sol. Há décadas eles cobriam apenas a parte de trás da cabeça ovalada. Por um momento não pude me conformar. Aquele senhor podia ser meu bisavô!

Mas então compreendi: sim, era possível. Por baixo daquela casca de velhice, das inúmeras sardas que cobriam cada centímetro da pele flácida, mas bronzeada, vivia um homem.

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Uma resposta to “Flácido, mas bronzeado”

  1. Rafaela Creczynski Pasa Says:

    adorei.

    “Deus abençoe essa bunda, minha filha”.

    abraço

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