A coragem de dizer a verdade

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No livro “Um Homem sem Pátria, coleção de crônicas e pequenos ensaios”, Kurt Vonnegut analisa a narrativa de várias histórias: Cinderela, Dickens, Kafka, Shakespeare.

Para Vonnegut o que faz com que uma história tenha qualidade não é o que acontece ao longo de enredo, Hamlet é a história de um rapaz, cujo pai é assassinado e ele tenta descobrir quem matou seu pai. Milhares de histórias seguem esse enredo. Em outras milhares o fantasma do pai morto volta para falar ao filho, sem que isso signifique que o defunto vai contar ao filho quem o pai. O que faz de Hamlet uma grande história, para Vonnegut, é o fato dos personagens de Shakeaspere não saberem o que é bom e o que é ruim na sua vida, assim como os homens de fato não sabem. Shakespeare admite assim a condição do homem na sua vida, e isso engrandece a sua obra, que toma dimensão filosófica a partir de um fato mundano. Isso, para Vonnegut, é a coragem de dizer a verdade.

Courbet tem a coragem de dizer a verdade e de provocar aqueles que a ignoram ao pintar A origem do mundo. É possível ignorar boa parte do tempo que somos animais, assim como os cavalos e os ratos, mas é impossível ignorar a face animalesca do homem quando se trata de sexo.

Por mais que as mulheres usam sete saias, armações de metal embaixo dos vestidos, espartilhos, soutiens e o que mais for, por baixo de todo pano ainda haverá seios e uma vagina. Parece ridículo, mas se isso fosse tão óbvio o quadro de Gustav Courbet não teria causado o alvoroço que causou.

Todo aquele escândalo, senhoras horrorizadas, mocinhas proibidas de ver o quadro, que ficou perdido por tanto tempo por causa de uma vagina!

Ora essa, a origem do mundo para todos os homens é uma vagina. É a pura verdade! Então encarem-na! Encarem a vagina da origem do mundo! Deixem de lado a hipocrisia e vejam a verdade por debaixo dos panos.

O que Courbet ousou fazer em 1886 ainda desafia a sociedade contemporânea. Isso me lembra uma entrevista feita na Serra Pelada, há alguns anos, em que o jornalista, se não me engano Pedro Bial, que na época não apresentava só o Big Brother, perguntou a um daqueles miseráveis homens porque ele arriscava a vida tentando achar ouro num lugar que já tinha sido tão explorado. A resposta do homem foi: para ficar rico. Bial então lhe perguntou para que ele queria ficar rico, e a resposta, sabia como a origem do mundo foi: ué, para comer mulher!

Courbet exclamou (chocando tantas pessoas): sexo move o mundo! E move mesmo.

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Uma resposta to “A coragem de dizer a verdade”

  1. BRUNO Says:

    o cara escreve um texto interessantissimo que aborda hamlet,Shakeaspere,Courbet,Vonnegut,Kafka.

    gostei.

    e a carol só reforça a dissertação escrita acima com essa “sede”.

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