Archive for julho \30\UTC 2007

julho 30, 2007

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Da série: Os condões da feitiçaria moderna

julho 29, 2007

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A feitiçaria antiga já não é a mesma. Que lástima! Os feiticeiros e feiticeiras à moda antiga, cada vez em menor número, estão desesperados. Nas atuais circunstâncias, tudo é difícil de ser realizado. Quase não praticam encantamentos, bons produtos mágicos são raríssimos, confraternizações tornaram-se exemplos claros de grande dispêndio e não contam com a presença de muitos.

E a coisa é muito maior. Nos últimos dias, por crises econômicas, cessaram-se as exportações e importações de alguns ingredientes fundamentais no preparo de grande parte das poções. Entre eles estão os olhos defumados de sapo e as pernas de aranha avinagradas.

Segundo estudos, esta deverá ser uma das mais agudas crises mágicas até os dias de hoje. Indignados, os feiticeiros mais idosos e conservadores já não sabem o que fazer e nem sabem qual será a próxima medida a ser adotada por seus superiores. Se bem que, se tudo isso depender dos outros feiticeiros a crise não passará de apenas mais um episódio passageiro. A grande maioria encontra-se incontestavelmente adaptada ao mundo não-mágico. Há anos é possível encontrar bruxos carregando por aí, sem constrangimentos, sacolas de compras vistosas que além de páprica selvagem, por exemplo, trazem dentro de si sucos coloridos de todos os sabores e lasanhas para microondas de preparo ultra-rápido. A feitiçaria moderna é, além de tudo, irreverente.

Green Tree

julho 21, 2007

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No purgatório do pop

julho 17, 2007

Banda paulistana Ludov lança segundo CD mais próximo da MPB e tenta alcançar vôos mais altoschega.jpg

Em outubro de 2005, o Ludov fez um pocket show na FNAC Curitiba, no Shopping Barigui. Todos sentados, guitarras e baixos apoiados nas coxas e cinco sorrisos nos rostos – destaque para a simpatia e o brilho nos olhos da vocalista Vanessa Krongold ao cantar cada sílaba. Sorrisos sinceros, diga-se de passagem, daqueles que você dá apenas para os amigos em dia que está de bem com a namorada. E parecia mesmo que eles estavam tocando para amigos, com uma naturalidade tranqüila. Em um clima tão leve, o som que ecoava pelos cantos da livraria era sutil, como em um luau, agradável de se ouvir. É esse o som e o clima que transparecem no novo CD da banda, Disco Paralelo, lançado em junho pelo selo paulistano Mondo 77.

De lá para cá muita coisa aconteceu com o Ludov. Primeiro a saída da gravadora, Deck Disc, pela qual haviam lançado no início de 2005 o primeiro disco, O Exercício das Pequenas Coisas; a saída do baixista/fundador da banda/amigo Edu Filomeno; a participação na trilha sonora do filme da Disney High School Musical; a composição das novas músicas; a eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo; a volta ao mundo independente com a Mondo; e, óbvio, as gravações do novo disco. Algumas perdas, outras motivações. Nada diferente do que a vida normal.

O fato mais marcante talvez tenha sido a saída de Edu, que foi morar no Canadá. Apesar de não ser a primeira baixa na banda, foi o primeiro membro fundador a sair e não ser substituído. Isso levando em conta que a história do Ludov começa mesmo em 1996, quando os amigos de infância em Brasília Habacuque e Mauro chegam em São Paulo para fazer faculdade e montam o Maybees, junto com Edu, Vanessa e Falcão na bateria. Todos eram estudantes de Publicidade, Mauro na ECA/USP e os outros na ESPM. Falcão, depois de gravar os dois discos da banda (Maybees, de 1998, e Picture Perfect, de 2000), foi estudar engenharia de som no Canadá. Em seu lugar entrou Vlad Rocha, velho conhecido dos tempos de faculdade, que também saiu após a gravação de dois álbuns com a banda (agora já chamada Ludov). Para substituí-lo entra Chapolin, também ex-colega da faculdade.

Com a saída de Edu o fator amizade pesou. “A gente ficou com preguiça de fazer todo processo de integração com uma pessoa de novo. Um novo membro não seria apenas um baixista, e sim um cara que você convive muito durante a semana. Banda é como um casamento, tem que ter essa química. Todo mundo se conhece há tanto tempo que ficamos com preguiça de estabelecer uma nova relação”, explica Mauro. O estabelecimento da formação em quarteto mudou muita coisa. Primeiro no lado pessoal. “Cara, ele era um amigo que eu via todo dia, viajava junto. Quando saiu ficou um vácuo, ver ele uma vez por semana não era suficiente. Agora que ele ta no exterior, então, nem se fala”, lamenta o guitarrista.

A saudade bateu, mas em termos musicais as mudanças foram tão (ou mais) profundas. Os dois guitarristas passaram a se revezar no baixo, com o auxílio em shows do produtor e amigo Fábio Pinc. Esse foi um dos motivos do disco novo soar mais sutil, introspectivo e leve do que O Exercício das Pequenas Coisas. Os pequenos detalhes de teclado e arranjo foram deixados de lado com a opção de um som mais cru, baseado em guitarras limpas e uma bateria tocada de forma mais “suave”. Algo que suscita logo uma aproximação com a MPB;

O Exercício das Pequenas Coisas era composto por um pop inteligente difícil de encontrar na cena brasileira atual. Acessível sem ser clichê, ele surgiu impulsionado pelo sucesso da música Princesa (gravada no EP Dois a Rodar, de 2004, e incluída como faixa bônus no CD), que havia ganhado o prêmio de Videoclipe Revelação no Video Music Brasil, da MTV, em setembro de 2004. O prêmio garantiu o contrato com a Deck, que acabou também relançando Dois a Rodar.

Em uma gravadora média, o lançamento do CD ganhou um tratamento que nenhum anterior tinha recebido. O cuidado estético habitual da banda com encarte e toda parte visual continuava lá, mas a promoção agora era maior, com exposição direta na MTV e até capa do exigente Caderno 2, do Estadão. O disco cravou outro clipe de sucesso, Kriptonita, e foi apontado como um dos melhores do ano pela crítica.

Mesmo assim, o clima na gravadora já não era o mesmo. “Nunca pensamos numa gravadora ou selo como salvação, como responsável pelo sucesso da banda ou nossa felicidade. Mas precisamos sentir que o trabalho está sendo bem feito. Quando fechamos com a Deck existia esse compromisso, só que com o tempo a relação ficou morna. Então decidimos sair”, comenta Mauro. “Ficamos um tempo sem ter necessidade de buscar outra gravadora, só pensando no disco novo, sem se preocupar com quem ia lançar. Aí pintou a Mondo, que é por pessoas que já estavam no nosso circulo pessoal e profissional, então não foi difícil encontrá-los como opção. Foi meio como olhar pro lado. E estamos super satisfeitos.”

Antes do acordo com a Mondo 77, o Ludov já começava a compor. O ponto de partida e de motivação foi o convite da Disney para participar da trilha sonora de High School Musical, fazendo uma versão da música What I’ve Been Looking For, que virou O Que Eu Procurava. A experiência foi totalmente nova para a banda – eles nunca haviam gravado versão de outra música e nem participado de uma trilha sonora. “Veio num momento interessante, porque tínhamos terminado a turnê do disco anterior e tava tudo uma calmaria. Depois da turnê rola uma espécie de crise de abstinência, às vezes você se pega em casa no sábado sem saber o que fazer. Aí todo mundo se envolveu no projeto, começamos a tocar e compor de novo”, conta Mauro.

Foram alguns meses de composição e arranjos, ensaiando toda semana. No começo, com a companhia da Copa do Mundo e do álbum de figurinhas, até que o Brasil foi eliminado pela França e um desânimo bateu no guitarrista. “Assistimos o jogo todos juntos, no Sítio, que é o estúdio que o Fábio Pinc tem em um sítio afastado da cidade. Depois do jogo eu não queria mais saber, joguei meu álbum fora. Faltavam umas oito figurinhas pra completar.” De qualquer modo, ao final do processo eles chegaram com mais de 20 músicas para escolher antes de entrar em estúdio. “Até o último minuto antes de gravar a primeira bateria estávamos em dúvida. Tentamos dar um coerência à seleção de músicas, mas não sei bem direito qual.”

Se existe coerência nas canções de Disco Paralelo elas estão na já citada sonoridade sutil. É impossível não citar uma clara aproximação com a MPB (em todo disco) e os ecos de Los Hermanos que aparecem em Conversas em Lata e Refúgio. Tudo ainda bastante pop – só com um pouco mais de refinamento. Basta ver que Sintonia, faixa lançada no site da banda no segundo semestre do ano passado. Surgida junto com as canções novas, ela mantém a energia do disco anterior – e não figura entre as 11 selecionadas de Disco Paralelo. “O importante nesse disco foi a liberdade. Em nenhum momento a gente determinou onde queria chegar”, ressalta Mauro.

Para orquestrar essa liberdade, o quarteto chamou o produtor Chico Neves, famoso por seus trabalhos com Los Hermanos, Os Paralamas do Sucesso, Lenine e O Rappa, entre outros. A constante qualidade técnica dos discos de Chico – destaque para Hey Na Na, dos Paralamas – chamaram a atenção da banda. A partir do momento que fecharam o acordo, eles passaram a gravar os ensaios semanais e mandar para o produtor saber em que ponto as músicas estavam.

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Com isso, a gravação no Rio de Janeiro durou apenas dez dias. Longe de São Paulo, o nível de concentração dos músicos foi muito maior, sem ter que se preocupar com os problemas da vida cotidiana ao chegar em casa. O aproveitamento do tempo em estúdio foi total, sem dispersões. “O Chico cria um clima muito bom, você se sente à vontade. Ele conduz a gravação de uma maneira tão boa que você nem percebe que chegou ao ponto ideal. Foi nossa melhor experiência de gravação, pelo fator técnico, artístico e pessoal. O Chico é uma das pessoas mais queridas que você pode conhecer na vida. É quase como ir ao Tibet e conhecer o Dalai Lama”, empolga-se o guitarrista.

O resultado final foi um disco mais coeso que O Exercício das Pequenas Coisas, porém, ainda longe de ser irretocável – as faixas de abertura, Ciência e Fugi Desse País, são verdadeiros gols contra. Mas as melodias delicadas de Delírio (sob asas) – cantada por Mauro -, Noite Clara e A Espera, a densidade de Conversas em Lata e o flerte com o rock internacional atual de referência ao pós-punk oitentista de Urbana jogam a favor. Utilizando elementos dos momentos mais calmos dos discos anteriores, uma coisa que não pode se dizer é que o álbum seja mais maduro. Ainda mais quando a melhor música, Rubi, tem melodia vocal extremamente parecida com Érika, do disco Picture Perfect, quando eles ainda atendiam por Maybees.

O problema do Ludov não é artístico, e sim estrutural. Com 11 anos de atividade, um prêmio importante nas costas e o reconhecimento da crítica, eles não conseguem atingir o mainstream da música brasileira. Pior que isso, estão numa espécie de purgatório do pop – nem tão conhecidos para ir ao Faustão e vender muitos discos, nem tão anônimos para tocar nas bibocas apertadas do underground brasileiro para 300, 400 pessoas. No mesmo dia do show na FNAC em Curitiba eles participaram de um festival em um var com capacidade para 200 pessoas, e ar para respirar era artigo de luxo naquela noite dentro do recinto.

 

De certa forma eles haviam passado por situação semelhante no começo da década, quando mudaram de Maybees para Ludov. O Maybees era uma banda totalmente diferente, não apenas por cantar em inglês. As guitarras eram mais presentes e o som mais rock e garageiro – sem ser tosco. Com dois discos aclamados pela crítica e pelo público independente, de certa forma o ponto máximo de reconhecimento e prestígio possível dentro da cena, a pergunta era a) continuar fazendo a mesma coisa e viver do prestígio alcançado, ou b) mudar de idioma, sonoridade e tentar alçar novos vôos, quiçá mais altos. A segunda opção pareceu mais atraente.

O jornalista José Flávio Júnior já flagrava esse momento em sua crítica de Picture Perfect para a revista Bizz. Dizia ele: “sabe o The Bends, do Radiohead? O Maybees fez o seu. Depois da estréia, que rendeu boa exposição e alguma popularidade no cenário alternativo, o quinteto paulistano foi fazer o disco decisivo. Com muita astúcia e bom gosto adicionaram metais, cordas e muito teclado no pop rock simples que fez a fama do primeiro álbum. (…) A banda segue no caminho. Só que para fazer um OK Computer e agradar a gregos e troianos, vai ter de começar a cantar em português.”

Hoje, Zé Flávio não acha que a excelência sonora tenha sido alcançada pelo grupo com a mudança de idioma, mas acredita nas possibilidades do Ludov. “Os chamaria de “banda emergente”. Ainda estão definindo a personalidade, mas o potencial é imenso, até porque nela se encontram bons instrumentistas e uma cantora afinada (fato ainda raro por aqui). Como qualquer grupo pop, precisam de hits para conseguir ampliar a audiência ainda mais .” Músicas boas, com capacidade de agradar o público de um Jota Quest eles tem. Resta conseguir se inserir no mercadão, coisa cada dia mais difícil com a decadência da indústria musical no Brasil.Além de saber jogar o jogo, certamente a sorte será fundamental para uma maior exposição. Com ou sem sucesso, uma certeza: o Ludov é a banda nacional com mais requisitos para fazer a ponte entre underground e mainstream.

Cerâmica Plástica

julho 8, 2007

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Bauhaus: o nascimento do design moderno

julho 7, 2007

 

O design está em presente em tudo que nos cerca, nos móveis, nas peças decorativas, nos eletrodomésticos e até em jóias e bijuterias. O incrível é que o conceito de design atual nasceu há menos de um século, na Bauhaus.

O período de existência da Bauhaus foi de apenas quatorze anos, mas muitas de suas propostas ainda hoje servem de inspiração no campo do design. Grandes artistas como Kandinsky, Klee, Schlemmer, Moholy-Nagy, ao lado de arquitetos e artesãos de vanguarda, foram mestres nesta escola que nasceu da união da Escola de Artes e Ofícios com a Escola de Belas-Artes em 1919, durante o período da República de Weimar, na Alemanha.

O que se pretendeu na Bauhaus foi dar aos estudantes de arte uma formação global, tanto artística como artesanal. Para alcançar este objetivo, foi criada uma nova forma de dar aulas, através da interação constante entre os professores e os alunos. A educação deveria ser democrática para agir como transformadora da sociedade. Essa forma de ver o mundo explica porque a escola foi fechada em 1933, com a ascensão do nazismo.

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À esquerda, um exemplo do estilo de produção anterior à Bauhaus, à direita cadeira produzida de acordo com o design desenvolvido na Bauhaus, chamada de Le Corbusier, em homenagem ao arquiteto homônimo.

As criações da escola eram baseadas no funcionalismo, mas o lado artístico sempre era trabalhado. Os resultados foram criações sempre voltadas para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, através de produtos criados por processos artísticos que garantissem a forma ideal, adaptada ao corpo humano, e possibilitassem a produção em massa de uma forma fácil.

 

Le Corbusier

 

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O design do prédio da Bauhaus foi feito de acordo com a tendência construtivista, movimento iniciado na Rússia que valorizava muito as formas geométricas. Essa tendência estética passou a se refletir na construção de prédios e casas muito comuns atualmente, baseados na forma de um quadrado ou retângulo.

A arquitetura passou por grandes mudanças na mesma época com o arquiteto Charles-Edouard Jeanneret-Gris, mais conhecido como Le Corbusier, que é considerado um dos responsáveis pela padronização da aparência das grandes metrópoles do mundo, por ter sempre defendido que todos os prédios deveriam ser brancos e que os esforços de diferenciação dos prédios eram artificiais. Brasília foi planejada sob a sua influência.

Le Corbusier também foi um dos primeiros arquitetos a compreender as diferenças que os carros tornavam necessárias nos planejamentos urbanos e é um dos grandes nomes na história da arquitetura contemporânea.

Mudança

julho 3, 2007

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A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea

julho 1, 2007

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Marcel Duchamp, foto de Henri Cartier Bresson

Marcel Duchamp foi um artista que questionou através de seu trabalho o que é uma obra de arte e propôs um novo método para a sua realização: partindo de idéias, ao invés de partir de assuntos do cotidiano.

O fato é que Duchamp nunca foi um artista que atendia às expectativas da época.Começou a produzir no começo do século XX, e com o passar do tempo sua obra adquiriu características irônicas e contestadoras.

Tendo começado sua carreira como pintor, ele realizou obras que tinham características impressionistas, expressionistas e cubistas.

 

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Já nessa época, seu quadro Nu descendo a escada foi mal visto pelos cubistas, que o julgaram uma ironização da proposta cubista.

A obra de Duchamp conservou esse caráter questionador e insatisfeito com os padrões até o ponto em que Duchamp destruiu os padrões existentes até então. Ele fez um tipo de arte que não se enquadrava em nenhuma categoria. Os ready mades não são pintura, gravura e não são esculturas já que ele nem sequer os fez. Com esse ato, de designar um objeto fabricado em série como obra de arte, Duchamp expandiu os horizontes da arte contemporânea. Como disse Luiz Camillo Osório, professor de Estética e História da Arte na UFRJ, do Renascimento até Picasso as transformações artísticas se deram no interior de uma linguagem pictórica, de uma concepção histórica da forma e do objeto artístico. E a partir de Duchamp essa trajetória se alterou e tomou rumos que mudaram completamente a concepção de arte atual.

Como observou Octavio Paz, em seu livro “Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza”, “Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir a dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, mas transparente”.

 

Esse gesto simples, mas impensado até então, fez com o mundo da arte se visse diante de duas reflexões extremamente importantes para a arte contemporânea: o que faz com que consideremos um objeto arte? Qual a importância do gesto do artista na obra de arte?

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Os ready mades se tornaram o elemento de destaque da produção de Duchamp. Entre os mais famosos e irônicos, podemos citar a obra L.H.O.O.Q. (sigla que, lida em francês, assemelha-se ao som da frase “Elle a chaud au cul”, que, traduzida para o português, significa “Ela tem fogo no rabo”), que é uma reprodução da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, com um bigodinho.

 

Além disso Duchamp criou Madame Rrose Sélavy (cujo sobrenome se assemelha à expressão francesa “C’est la vie”, ou seja, “É a vida”, em português), uma artista irônica, assim como ele, que assinou uma parte dos ready mades.

Seria Madame Rrose Sélavy mais um ready made? O artista existe porque sua assinatura está em obras de arte que estão são reconhecidas pelo circuito artístico?

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Nesta foto, tirada por Man Ray, Duchamp aparece travestido de Rose Sélavy. Com esse tipo de obra de arte Duchamp tirava

o foco da criação artística da sociedade e seus problemas ou da representação fiel do modelo e coloca em questão o ato artístico.

Man Ray, pintor americano amigo de Duchamp disse em entrevista transcrita por Pierre Cabane, em “Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido”, “Não atribuo ao artista uma espécie de função social em que ele se acha obrigado a fazer qualquer coisa, em que tenha um dever para com o público. Tenho horror a todas essas considerações”.

De fato Duchamp tinha suas próprias questões, como o estudo dos problemas óticos. O estudo do olhar sobre a arte interessou muito a Duchamp, que se opunha àquilo que ele chamava de “arte retiniana”, ou seja, que agrada à vista, que foi feita para não incomodar, para satisfazer. Nesse sentido Duchamp o esforço de Duchamp era no sentido oposto, de levar o público a refletir a partir da confrontação com algo novo e inesperado. O objeto que era a obra de arte não tinha o propósito de ser alvo de uma contemplação, admiração, ele devia levar a uma reflexão, e essa reflexão era o objetivo da obra.

A base teórica do trabalho de Duchamp influenciou as gerações que o seguiram e foram fundamentais para a trajetória que a arte contemporânea seguiu, tornando-se propositiva e questionadora.

Movimentos artísticos como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato e a Arte Conceitual foram muito influenciados por Duchamp. André Breton, artista surrealista, por várias vezes tentou fazer com que Duchamp aderisse à causa do movimento surrealista, Tristan Tzara, um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de Duchamp uma precursora.

No entanto uma das previsões de Duchamp não se concretizou: por diversas vezes ele disse que a pintura estava morta. Ao contrário, a pintura, assim como outras formas de arte, continua se inovando, incorporando formas de expressão e atraindo artistas inovadores como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Andy Warhol.

Em seu livro Destruição do pai, reconstrução do pai, Louise Bourgeois fala sobre o ato de criaçãoAs conexões que faço em meu trabalho são conexões que não posso encarar. São na verdade conexões inconscientes. O artista tem o privilégio de estar em contato com seu inconsciente, e isso é realmente um dom. É a definição de sanidade. É a definição de auto-realização”. Como disse o próprio Duchamp, em entrevistas, ele queria inventar ou encontrar seu próprio caminho, em lugar de ser um mero intérprete de uma teoria, e conseguiu.