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agosto 25, 2007

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A insustentável leveza do ser

agosto 25, 2007

O que faz da sua vida a sua vida? As decisões que você tomou fizeram com que sua vida fosse o que é ou uma série de coincidências te levaram a conhecer as pessoas que você ama e a seguir o rumo que você seguiu na vida? 

A idéia do eterno retorno, de Nietzsche diz que um dia tudo vai se repetir tal como já foi vivido e que essa repetição vai se prolongar indefinidamente. A vida que desaparece hoje, por mais atroz ou mais bela que tenha sido não tem o menor sentido. Assim como a guerra entre judeus e palestinos ou o holocausto, ela não alterou em nada a face do mundo apesar de todas as mortes que causaram. No eterno retorno o holocausto se repete para todo o sempre. Milhares de pessoas são dizimadas, o muro é construído separando Berlim em duas e isso não impede que os judeus construam um muro isolando os palestinos mais de 50 anos mais tarde. Nada mudou.  

Essa repetição infinita atribui um grande peso a todos os fatos, já que todos eles se repetirão para sempre. Pior do que um Robespierre, de uma Revolução Francesa, é a sua volta eterna.

Essa é a divagação com que o escritor tcheco Milan Kundera inicia o livro A insustentável leveza do ser, publicado em 1984. A história se passa Passado na antiga Tchecoslováquia, durante os eventos da “Primavera de Praga”, em que o clima de traição e anticomunismo tomam conta do país após a invasão da União Soviética.  

As personagens principais do livro são Tomas e Tereza. Tomas é um cirurgião com dificuldade em ter relações monogâmicas, que conhece Tereza trabalhando num bar durante uma viagem a um pequena cidade da Boêmia. Algum tempo depois ela vai visitá-lo em Praga e pega uma gripe forte, que a deixa de cama por uma semana. Tomas cuida dela durante esse período e se apaixona pela idéia de ter alguém tão vulnerável em sua vida. Sente-se como se Tereza lhe tivesse sido enviada através de uma cesta levada rio abaixo pela correnteza de um rio e deixada aos seus cuidados. Eles passam a morar juntos, e, pelo resto de sua vida, Tomas se pergunta se está com Tereza por amor ou se foi uma armadilha do destino, através de coincidências como a gripe, que o fizeram se sentir responsável por aquele ser indefeso e que o amava tão desesperadamente.

Tereza é fotógrafa, sempre teve uma relação ruim com sua mãe e nunca gostou de sua vida, até que conheceu Tomas, a quem sempre amou incondicionalmente. Por isso suporta todas as amantes que ele tem e o cheiro que elas deixam nele e que a faz ter pesadelos todas as noites.

O livro é muito interessante, não apenas por tratar relacionamentos com um realismo muito forte e por fazer reflexões profundas sobre as relações de força e manipulação presentes numa relação amorosa, mas por se passar num local que passa por uma transformação histórica muito pouco comentada em comparação com a de outros países na mesma época, mas nem por isso menos interessante. Talvez o fato do autor ser tcheco faça com que tenha uma visão diferente da do resto dos europeus.

Para aqueles que não procuram uma história de amor água com açúcar com final feliz e belas cenas em castelos encantados, mas um romance filosófico e reflexivo, eu recomendo.

agosto 22, 2007

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Antes fosse bêbada

agosto 14, 2007

Entrei e me sentei perto da máquina de café expresso. Um suco de laranja e um pão de queijo, por favor. Quase oito horas, logo as coisas começam a abrir. Chegar mais cedo é sempre bom.

O balcão em formato de U da padaria estava quase vazio. Além de mim, só um bêbado, sentado do outro lado, que fala alguma coisa sem sentido. Oito horas da manhã e já bêbado, ou ainda bêbado.

Ela entrou e ficou me encarando. Eu não entendi. Toda arrumada, usando uma bolsa cara, sapatos de salto, jóias. Quem se veste assim para tomar café da manhã na esquina? Mas bem, os Jardins são ali do lado, vai ver que trabalha na Oscar Freire, ou é só perua mesmo…

Sentou e continuou me encarando. A garçonete a chamou pelo nome. Olá minha princesa, como está hoje? Vai querer o mesmo de sempre? A resposta foi virar e continuar me encarando. Devo estar incomodando, pensei. Mas por que eu, sentadinha tomando meu café e não o maldito bêbado, que a essa altura cantava qualquer coisa que tinha sido sucesso no carnaval passado num volume extraordinário?

A garçonete não esperou resposta. Fez uma cara estranha e colocou uma xícara na frente da perua, que olhou o café e me encarou de novo.

Não tem espaço pra comer aqui Tânia, como é que eu vou tomar o meu café? Aqui não dá pra ser Tânia! Aqui não tem espaço, Tânia! Repetia o nome da garçonete como se fosse uma criança que acabou de aprender a escrever “O ônibus é amarelo. O ônibus é da escola. O ônibus me leva pra casa”. Aí tem coisa, pensei. E não é nada boa.

O bêbado parou de cantar para ver quem estava gritando mais do que ele. A Tânia estava preocupada. Tem espaço aí sim querida. Toma seu café, toma. Ela falava e olhava pra mim. Tinha dez lugares vazios ao redor do balcão da padaria, e eu sentei justo aonde a perua doida tomava café todo dia. Levantar e sair, isso sim é uma boa idéia.

O bêbado, vendo que eu me levantei resolveu puxar assunto. Já vai princesa? Vamos dar uma volta por aí? A perua ficou mais emputecida de ver ele falar comigo. Cala a boca seu bêbado, deixa ela ir embora!

Era o que faltava. Sua perua vagabunda, você é louca! É isso que você é! Eu posso ser bêbado, mas você é louca. Ok, vou sair enquanto eles estão ocupados um com o outro. Droga tarde demais. Eu não sou louca Tânia! Não deixa ele falar assim comigo Tânia! É tudo culpa dela Tânia! Ela sentou no meu lugar, Tânia! Eu só que queria tomar café, Tânia! Eu só queria tomar café! Não deixa ele falar assim comigo, Tânia, não deixa! Eu só quero ser feliz! Eu tenho direito de ser feliz, Tânia! Eu quero ser feliz!

Agora é oficial, sou o motivo da discussão entre um bêbado e uma perua louca que não consegue ser feliz se não sentar todo dia no mesmo banco pra tomar café. Levantei pra pagar a conta, o bêbado e a perua repetiam as mesmas ofensas um pro outro. Em dois minutos a padaria tinha deixado de ser um lugar simpático para virar um hospício sem enfermeiros.

Fui pro caixa atordoada. Só queria sair dali. Eu quero ser feliz, Tânia! Eu preciso ser feliz! Eu quero ser feliz! Gritava como se sua vida dependesse disso. Eu nem sabia mais se fazia diferença o banco da padaria ou não, mas ela não era feliz. Talvez nem soubesse o que é isso e estivesse só repetindo o que sua mãe louca dizia, quando apanhava do marido alcóolatra e descontava quebrando pratos na cabeça das crianças quando elas choravam de fome. Talvez ela tivesse se casado com algum cara com grana, pensando que assim ia estar livre desse passado miserável e só o que conseguiu foi se tornar esse ser bizarro, rico por fora, podre por dentro. Antes fosse bêbada.

O cara do caixa me deu um sorrisinho torto. Você acredita que eu agüento isso todo dia? Não, não acredito.

agosto 13, 2007

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Teoria da desculpa

agosto 12, 2007

Errar é humano, isso todo mundo sabe, mas nem todo mundo sabe pedir desculpas. Não que seja fácil, na verdade pode ser complicado, assim como falar de sentimentos e intenções é difícil, mas é algo essencial em qualquer relacionamento. Cedo ou tarde todo mundo faz besteira e um pedido de desculpas de verdade pode ser a diferença entre o fim e o perdão.

Ok. Isso é óbvio. Então por que algumas pessoas simplesmente são incapazes de pedir desculpa? É ridículo. É irritante. É desconcertante. É absurdo. Então se você não sabe, preste atenção.

Pedir desculpa não é apenas pronunciar as palavras “me desculpe”. Para os mais orgulhosos talvez isso já seja um grande esforço, admitir o erro e se colocar na posição de quem pede, de quem está em dívida, por baixo na relação.

Mas a verdade é que virar para o lado e dizer “desculpa” não significa muita coisa.Não mesmo. Quase nada. É suficiente quando você pisa no pé de alguém ou dá um encontrão num desconhecido, mas está muito longe de resolver as coisas se o motivo do pedido de desculpa realmente foi sério. É só uma palavra. Mais uma, que de tanto ser usada pode acabar não significando nada. Apenas mais um som emitido por qualquer troglodita no universo que não tenha problemas de fala. Mágoas não são esquecidas com um pedido de desculpas.

As desculpas tem que ser equivalente ao erro cometido. Se o erro foi dizer alguma coisa, pedir desculpas é explicar a razão do erro e qual era a intenção original. Matemático e frio. Exatamente assim.

Infelizmente nem sempre a gente sabe porque faz as coisas ou tem uma boa intenção mal compreendida no fundo das besteiras que cometeu. Neste caso existem outras opções. Mandar flores, fazer serenatas, no fundo são sempre a mesma coisa: declarações de amor. Ninguém precisa fazer tudo certo sempre, só precisa saber lembrar aos outros, apesar dos erros que comete, que os ama. Esta técnica tem um índice de eficácia bem alto. Fez besteira? Então pare, pense e descubra detalhes e fatos que sejam as razões e as raízes do seu amor por alguém. Quanto mais verdadeiro for, mais eficaz.

Talvez nada disso funcione. Sempre é uma possibilidade. Nesse caso, vale a pena lembrar um dos trechos do Manual de Instruções do livro Histórias de cronópios e de famas, de Júlio Cortazar, chamado Instruções para chorar.

A transcrição segue abaixo para aqueles que estragaram tudo, perderam quem amavam, para os que se arrepedendem e estão desesperados. Pode ser que não resolva, mas sempre alivia.

Instrucciones para llorar

Instrucciones para llorar. Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente.

Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.

Texto retirado do site http://www.juliocortazar.com.ar.

agosto 12, 2007

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Pra gringo ver

agosto 6, 2007

 

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Malandragem e oportunismo talvez sejam os melhores termos a serem usados quando se fala do Bonde do Rolê. Despretensiosamente misturando samples de funk carioca com solos e riffs de guitarra, os DJs e produtores Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot e a vocalista Marina Vello aproveitaram a esteira do reconhecimento do Cansei de Ser Sexy no exterior, fascinaram o DJ Diplo e engataram uma turnê pelos EUA e Europa, participando de grandes festivais – mesmo que como nomes secundários. Dessa forma, subverteram a lógica e foram contratados pela Domino Records, casa de Arctic Monkeys e Franz Ferdinand, e tiveram seu primeiro disco (With Lasers) lançado primeiro lá fora – e sabe-se lá quando chegará às lojas brasileiras. Só com muito jeitinho brasileiro pra conseguir tudo isso. Ah, vá lá, quem quiser também chame isso de sorte.

Apenas o gosto estrangeiro por coisas bizarras e fora do comum de outros países para explicar tudo que aconteceu com o Bonde. A música é ruim, com colagens e misturas de batidas e riffs de forma gratuita – bem longe do que faz a Comunidade Nin-Jitsu ou do que fazia o De Falla no começo da década. Junte a isso letras de humor adolescente, sem a espontaneidade e safadeza machista dos bons tempos do Raimundos, que resvalam no vulgar o tempo inteiro. É música pra escutar em balada, com muita cerveja na cabeça – e mesmo assim, após duas ou três (como Dança do Zumbi e Caminhão de Gás) é bem provável que você esteja pedindo água. Coisa pra gringo ver.

Se musicalmente o Bonde não é lá essas coisas, como fenômeno esquizóide eles são totalmente válidos, e já começaram a colher os frutos do seu sucesso. Um fenômeno, principalmente pelo fato de terem atingido este posto tão rapido – e sem acontecer no país de origem.

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Na verdade, a impressão que dá é que os três, desde o começo, levaram a coisa meio que como uma brincadeira, uma diversão despretensiosa que já foi longe pra caramba. O que eles precisam agora é aproveitar esse momento sem se deslumbrar muito com a fama, pois, se tudo correr como esperado, eles não devem passar do terceiro disco e, depois disso, vão voltar para Curitiba e para o ostracismo. Precisam fazer valer seus 15 minutos de fama, para ter muita história para contar para os netinhos.