Archive for setembro \30\UTC 2007

Subvertendo versões

setembro 30, 2007

Enquanto não lançam disco novo (o já gravado Não Esperem Por Nós…), os guris da Pipodélica compilaram todas versões de outros artistas que fizeram e colocaram no projeto Infinito. Funcionando a princípio como um EP virtual (assim como Volume 4, lançado no início de 2005), o site será atualizado com novas versões assim que elas forem feitas. A próxima a entrar é She’s Leaving Home, gravada para um tributo brasileiro em comemoração aos 40 anos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

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Estão lá Xmas Time Is Here Again (Beatles), Eu me amo (Ultraje a Rigor), Acontece (Cartola), A Viagem (Odair José), Zagueiro (Jorge Ben) e Ohm Sweet Ohm (Kraftwerk). Talvez por terem um estilo tão peculiar e único, a banda de Florianópolis consegue imprimir sua cara em músicas tão distintas. Não são apenas versões; são músicas com a cara da banda, sendo que quem não conhece as originais poderia muito bem que trata de músicas da Pipodélica. E, importante, com um resultado positivo sempre. Coisa que apenas o Móveis Coloniais de Acaju, no Brasil, também consegue.

É interessante analisar as versões como uma evolução sonora da banda, a mesma que tiveram em seus discos. Assim, Xmas Time Is Here Again, ainda com Carine Nath nos vocais, lançada em 1999, traz um pop menos elaborado em questão de timbres, e é a mais próxima do original. Daí pra frente todas as versões são de depois de 2004, e os guris subvertem o que era um ska-pop (Eu me amo), um sambinha ao violão (Acontece), uma balada marcial (A Viagem), um samba-rock (Zagueiro) e uma melancolia eletrônica (Ohm Sweet Ohm), transformando-as em baladas climáticas cheias de texturas sonoras e timbres, com muito mais cores e ânimo, que não fariam feio no principal disco da banda, Simetria Radial, de 2003.

Os Pipodélicos apresentam uma nova proposta de lançamento em um mercado em transição. Com um álbum em constante confecção, pretendem alimentar os fãs regularmente com novo material. Ao mesmo tempo, terminam a mixagem do novo CD, que deve ser lançado no início do ano que vem. Um álbum que se anunciava progressivo, mas que vem na mesma linha de Simetria, sem tantas guitarras quanto o EP Volume 4. Felizes com o resultado, eles prometem o melhor disco da banda. “Hora H é a música mais Pipodélica de todos os tempos”, já disse Xuxu. E isso significa que vem coisa boa por aí.

Baixe as músicas de Infinito em http://infinito.pipodelica.com.br

Escute duas músicas novas no MySpace da banda, www.myspace.com/pipodelica

Veja abaixo um ensaio acústico de Memória Multicolor, do álbum Simetria Radial

Os condões da feitiçaria moderna: Questões imobiliárias

setembro 29, 2007

circus.jpgApesar de a economia no mundo mágico não andar essas coisas, na área imobiliária a situação é outra. Há ofertas aos montes. Casas abandonadas, esquisitas, fora de moda, convencionais e moderninhas. Onde houver uma ampla sala de estar, uma lareira e uma árvore velha, as chances de encontrar um bruxo hospedado são grandes. E ainda maiores se o local possuir bons espelhos ovais, caldeirões de cobre ou estanho e livros de todos os tipos. Feiticeiros adoram ler livros antigos, cheios de bolor e cobertos de segredinhos enterrados em pó e séculos. Costumam ter em suas residências grandes estoques de livros de feitiçaria, cadernos de culinária e uma quantidade razoável de revistas com a programação dos canais por assinatura. Bruxos e bruxas modernos não conseguem viver sem seus filmes e séries preferidos, são espectadores assíduos e sedentos por entretenimento despretensioso. Os mais precavidos e sisudos, por outro lado, costumam instalar em suas casas canais por assinatura com programação voltada para a saúde e para os negócios, em uma tentativa de manter vivo o interesse pelas coisas “sérias” do mundo moderno. Os bruxos que não possuem televisão paga em seus lares, são adeptos de outras atividades, que não, passar várias horas diárias frente a um monitor de vidro assistindo a séries enlatadas. Alguns vivem a decorar os cômodos de suas casas, outros se dedicam à dança de salão (no caso, à dança de sala de estar) e outros fazem artes manuais, como patchworks com forros de baús velhos ou bonequinhos decorativos com meias de algodão listradas.

Winter-Gi

setembro 27, 2007

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Ana das Carrancas e sua filhas

setembro 26, 2007

Cerâmica Pernambucana

Quando chegou em Pernambuco era conhecida como Ana do cego, retirante vinda do Piauí, que por 3 meses viajou com a família durante a noite, para fugir do calor e do sol, e de dia descansava e procurava com o que se alimentar. Nunca aceitou que o marido, que é deficiente visual, fosse pedinte. Insistiu em trabalhar para sustentar a família, e começou a fazer louça para vender. Virou Ana louceira, mas a vida continuava difícil. Ganhava pouco com a venda das louças, e o preço da argila subia na praça. Para não parar de trabalhar, passou a buscar argila no rio São Francisco.

Numa das idas até o leito do rio, se sentou para observar os barcos com as suas carrancas, enquanto pedia a Deus que a ajudasse a encontrar uma solução para sustentar a família. Diz a lenda que muitas embarcações naufragavam no rio São Francisco, vítimas de animais gigantescos e seres estranhos. Para afugentá-los criou-se o costume de colocar na proa do navio uma carranca de madeira, que projetando sua sombra monstruosa na água mantinha os maus espíritos afastados, e o barco protegido. Transportando a forma das carrancas para o barro, Ana Louceira, passou a Ana das Carrancas e pelo reconhecimento de seu trabalho, hoje é conhecida como a Dama do Barro.

Seguem abaixo fotos tiradas em seu ateliê, que infelizmente Ana não usa mais, pois sofreu um derrame há pouco tempo. Suas filhas, no entanto, continuam vivendo do barro. Maria da Cruz faz o mesmo tipo de carranca que a mãe a ensinou, já Ângela, como diz a irmã, tem imaginação própria, e além de novos tipos de carrancas produz lindas telas com barro.

Carrancas

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Produção de Ângela (Argila sobre Tela)

Luiz Gonzaga

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Releitura da Bandeira de Pernambuco

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Mulher com Moringa e Natureza Morta

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Nova Carranca

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Autoretrato

setembro 26, 2007

Olho para o lado e vejo um rapaz enorme, com braços compridos como um gorila e uma cabeça bem pequena, moldada por uma camada espessa de cabelos negros e espetados. Curvado para frente, ele se debruça sobre um livro, que conserva a cinco centímetros de seu rosto. Os olhos castanhos, muito próximos um do outro, não se movem durante a leitura. É o livro que é levado de um lado para o outro e cada vez mais para baixo, conforme a leitura avança. Em seu ritmo frenético e bizarro de leitura, esse estranho é a razão pela qual eu quero ser jornalista.

Estamos num ônibus cheio de gente, em pleno centro de Florianópolis, e ninguém parece notar esse sujeito que se destaca no meio dos outros. Mas ele não é só um cara esquisito sentado num ônibus, ele é personagem de uma história que eu quero contar. É para isso que eu quero ser jornalista, para contar histórias.

Porto Alegre

setembro 23, 2007

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Diário de um Coronel

setembro 20, 2007

Sentado ao meu lado no avião, um cabra atarracado, de cabelos branquinhos, apóia as mãos trêmulas e morenas na barriguinha saliente. A poltrona não quer ficar na posição vertical e ele se oferece para me ajudar. Você é de Petrolina, minha filha? Eu não. Sou de Florianópolis é minha primeira vez aqui. Ah então você vai gostar muito, Petrolina é uma cidade muito boa. O São Francisco é muito bonito. Eu sou prefeito, diz ele, com sua fala pausada, e o nome da cidade que governa parece nome de fruta. As frutas aliás, são uma das grandes fontes de renda da região, assim como a capricultura. A cidade fica do lado de Juazeiro. Sou prefeito pela quarta vez e já fui vereador sete vezes.

Nossa, mas pra ter sido eleito tantas vezes o senhor deve ter entrado na política muito cedo. Fui vereador pela primeira vez com 21 anos. Entrei na política e nunca mais saí. Política é dom.

Você não adivinha a idade que eu tenho! Bom, se ele fala assim, deve ter mais do que aparenta. Chuto sessenta e erro feio. Nem a pele queimada pelo sol e sardenta faz com que ele aparente os oitenta anos que vai completar em outubro. A água lá na sua cidade deve rejuvenescer, hein, seu Prefeito? Água que nada minha filha, o que rejuvenesce são as meninas… Diz ele com um sorriso maroto e aponta para a morena que dorme ao seu lado. Tá vendo essa menina? É minha secretária, eu trouxe comigo. Tenho quatro em Curaçá, todas dessa idade…

Nisso um senhor magro vem em nossa direção pelo corredor. Ô colega, tudo bom? Tava mesmo falando em você esses dias. O PSB anda muito fraco estávamos pensando se você não quer mudar de partido, daí a gente faz uma coligação com o PMDB… O magrelo fala muito, mas parece não convencer. Seu tom agressivo e direto não causa muito efeito no Prefeito, que ouve prestando bastante atenção, com seu ar ingênuo e bondoso, um jeitinho que parece de vô do interior, mas não dá resposta.

O magrelo se cansa da palestra e volta para o seu assento, e o Prefeito me diz que sempre foi muito amigo do ACM. Nós tínhamos um trato, estávamos juntos até morrer. Ele foi primeiro, mas eu continuo no PFL. Pra que eu vou mudar de partido se não for para conseguir uma creche, uma escola para o meu município? A teoria é bonita, mas eu fico pensando se era isso mesmo que o faria mudar de partido.

Diz ele que nunca foi empregado de ninguém e que se eu perguntar quanto ele gasta por mês ele não sabe. Eu vou gastando, não to nem aí. Engraçado, ser Prefeito também é receber um salário. Não sei se a família dele é rica, já que ele me disse que só cursou até a quarta série. Se fosse rico talvez fosse doutor, como ACM. Acho melhor não perguntar de onde sai o dinheiro.

O Prefeito tem família grande, diz que juntando a esposa, os 9 filhos, as noras, os genros e os netos, somam 35 pessoas. Toda a prole fez faculdade, e ele se orgulha disso. Assistente social, advogado, psicólogo, cada um se formou em uma área, mas nenhum virou político. Política é dom, diz ele de novo, e depois que o governo fez a lei do nepotismo ele tirou todos os parentes que tinha de cargos públicos. Ele diz isso com um olhar ressabiado, como se eu fosse fiscal de alguma coisa. Depois volta ao tom paternal, e eu fico imaginando que ele deve ter uma fazenda, com uma mesa bem cumprida para juntar toda a família nos domingos e para receber o povo das redondezas com seus pedidos: um remédio para o pai, uma cabra pra cruzar com o cabrito da família, uma passagem para a cidade grande, uma ajuda para resolver uma pendenga. Quando chegamos ao aeroporto, uma hora depois, é como se eu fosse mais uma ovelha de seu rebanho, e ele me oferece carona até o hotel no Hyundai que o esperava. Agradeço e pego um táxi. Por mais que o tempo passe, que o ACM tenha morrido, que o governo faça a transposição do São Francisco e que Nilo Coelho tenha trazido o sabor das frutas para a economia da região, parece que tem coisas que não mudam no nordeste. O calor, a seca e os coronéis continuam os mesmos.

Cuesta – Parque Nacional Serra da Capivara

setembro 16, 2007

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Será de Cuiabá a melhor banda de rock nacional da atualidade?

setembro 15, 2007

Cuiabá é considerada a porta de entrada para a floresta amazônica e, além dela, tem ao seu redor o cerrado e o pantanal. Três ecossistemas totalmente diferentes, ao lado do centro geodésico da América (o ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico). Com uma máxima temperatura média de 34,1 ºC e picos acima dos 40 ºC, é chamada de Hell City pelos íntimos. Um lugar de onde, à primeira vista, seria improvável sair uma cena de rock. Mas, não só a cena local se espalhou pelo Brasil e ganhou notoriedade, como é de Cuiabá a banda indie mais hypada, incensada e festejada pela crítica nos últimos tempos: Vanguart.

Foram três Eps desde o surgimento da banda, em 2003 (Ready To, The Noon Moon e Before Vallegrand), atiçando a curiosidade e deslumbrando os admiradores. O folk rock em inglês à Dylan, com toques de Radiohead, dos meninos conquistou fãs pelo Brasil inteiro, pelos shows que fizeram quando resolveram cair na estrada. Público que aguardava ansiosamente o lançamento do primeiro disco, Vanguart, prometido desde meados de 2006. Em agosto finalmente ele veio, encartado na revista Outracoisa.

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Gravado em duas semanas no estúdio Inca, em Cuiabá, em dezembro de 2006, o CD demorou a sair muito por causa da burocracia. “A gente já tinha começado a gravar ele umas três vezes, até que surgiu essa proposta legal do estúdio. Gravamos rápido porque já conhecíamos as músicas bem. Em janeiro tínhamos o disco pronto, masterizado, mas não podíamos pagar. Como ele é parte financiado por leis de incentivo federal e municipais, tivemos que esperar abrir o edital, sair a grana, o que é um processo um pouco demorado”, explica o baterista, Douglas Godoy.

Vanguart, o disco, chega às bancas com as principais canções do grupo não lançadas em EPs anteriormente. Semáforo, Cachaça e Hey Yo Silver, que já viraram hinos e sucessos no meio indie. O disco abandona a exclusividade do inglês para abrigar seis músicas em português, sete em inglês e uma em espanhol.

Incensado pelo público indie e por uma parte da imprensa, o Vanguart ganhou muitos detratores nesse tempo de estrada. Além de um ranço por parte da crítica com a semelhança com Bob Dylan, o nome Vanguart foi considerado pretensioso demais. “Não entenderam a ironia. O que pode ter de menos vanguarda em alguém cantar folk em inglês com um violão?”, teoriza Helio. “Não entramos nessa pra ganhar fãs ou coisas assim. O que nos importa é fazer a música que gostamos, é essa necessidade.”

No caso de Helio, a necessidade de se expressar começou cedo. Aos 12 anos ele compôs as primeiras músicas e, mesmo sem gostar muito do resultado, não desistiu. “Nessa idade você é um idiota, um moleque sem muitas aspirações. A primeira musica que escrevi e gostei foi com uns 15, 16 anos.” Isso explica a repulsa do vocalista a Ready To, primeiro EP, caseiro, gravado antes de o Vanguart ser realmente uma banda, com músicas de quando ele tinha uns 14 anos. Helio não gosta do álbum e não deixa ser passado para ninguém. Diferente de The Noon Moon, também caseiro mas um pouco mais maduro, de quando o vocalista tinha uns 16 anos. “É um disco toscamente gravado, mas gosto muito daquela sonoridade. Ainda vou prensa-lo de novo”, orgulha-se Helio. “Ali já tem alguns dos elementos do que seria mesmo o Vanguart.”

Sim, porque a banda tomou forma mesmo em 2004, depois que o vocalista voltou de sua viagem pela Bolívia. “Eu tava sem rumo, com muitos demônios na cabeça, aí fiz essa viagem. Fiquei um tempo em La Paz, masquei uma folha de coca, compus um monte de músicas e voltei com o Vanguart idealizado como banda.” A partir daí a banda teve algumas mudanças de formação até se estabelecer no quinteto atual (além de Helio e Douglas, o guitarrista Daniel Dafré, o baixista Reginaldo Lincoln e o tecladista Luiz Lazzaroto). Da viagem também nasceu Los Chicos de Ayer, única música em espanhol do disco de estréia. “A música é sobre a dor que encontrei lá, e que também está muito presente no Brasil, em Cuiabá. As pessoas são muito passionais na América Latina. Muito dessa dor foi responsável pelo que o Vanguart é hoje”, explica Helio.

E é ai que o burburinho começa a se estabelecer em torno da banda. Começando a se apresentar pelos palcos do Brasil, nos diversos festivais independentes, eles foram descobrindo que havia público para folk rock e aperfeiçoando sua sonoridade. Lançaram, em 2005, o EP Before Vallegrand (com uma das melhores músicas da banda, a curta e rápida Into The Ice) e logo depois os singles Semáforo e Cachaça. Fernando Rosa, do site Senhor F, foi o primeiro a chamar a primeira de Hino de Uma Geração. Mas, afinal, o que ela tem de tão significativa? “Todos meus amigos querem morrer hoje em dia. De todas as formas. Cada um sabe sua forma de morrer e se sentir bem”, filosofa o vocalista.

Hoje com 22 anos, Helio é considerado um dos principais letristas do rock independente. Canções como Los Chicos de Ayer, Para Abrir os Olhos e Cachaça comprovam isso. Isso significa amadurecimento? “Às vezes acho que sou o mesmo moleque de 12 anos. Só sei que escrever é algo essencial pra mim. Meu primeiro beijo na boca eu dei porque escrevi um soneto para a menina, se não, não conseguia. Quero chegar aos 60 escrevendo.”

O último passo importante da banda foi participar do programa Som Brasil em homenagem a Raul Seixas, na TV Globo. “Não muda muita coisa, a não ser que agora a gente vai poder tocar Raul quando pedirem nos shows”, brinca Douglas. Aparecer em rede nacional, na principal emissora do país, não parece ter deslumbrado os rapazes. Uma possível conquista do mainstream continua a não ser uma meta. “Acho que ninguém mais vai estourar. Eu acredito em uma carreira mais consolidada de trabalhos sólidos. Eu estou muito mais preocupado com o que a gente vai apresentar no próximo álbum do que se a gente vai estourar ou não. Não é falta de ambição, mas precisamos primeiro trabalhar a música, não ficar pensando se vamos estourar porque tocamos na Globo. Se fosse um projeto montado pra estourar não estaríamos aqui hoje. Desde o começo, foi algo que fizemos por causa da música.”

Pedra Furada – Parque Nacional Serra da Capivara

setembro 11, 2007

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