Será de Cuiabá a melhor banda de rock nacional da atualidade?

Cuiabá é considerada a porta de entrada para a floresta amazônica e, além dela, tem ao seu redor o cerrado e o pantanal. Três ecossistemas totalmente diferentes, ao lado do centro geodésico da América (o ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico). Com uma máxima temperatura média de 34,1 ºC e picos acima dos 40 ºC, é chamada de Hell City pelos íntimos. Um lugar de onde, à primeira vista, seria improvável sair uma cena de rock. Mas, não só a cena local se espalhou pelo Brasil e ganhou notoriedade, como é de Cuiabá a banda indie mais hypada, incensada e festejada pela crítica nos últimos tempos: Vanguart.

Foram três Eps desde o surgimento da banda, em 2003 (Ready To, The Noon Moon e Before Vallegrand), atiçando a curiosidade e deslumbrando os admiradores. O folk rock em inglês à Dylan, com toques de Radiohead, dos meninos conquistou fãs pelo Brasil inteiro, pelos shows que fizeram quando resolveram cair na estrada. Público que aguardava ansiosamente o lançamento do primeiro disco, Vanguart, prometido desde meados de 2006. Em agosto finalmente ele veio, encartado na revista Outracoisa.

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Gravado em duas semanas no estúdio Inca, em Cuiabá, em dezembro de 2006, o CD demorou a sair muito por causa da burocracia. “A gente já tinha começado a gravar ele umas três vezes, até que surgiu essa proposta legal do estúdio. Gravamos rápido porque já conhecíamos as músicas bem. Em janeiro tínhamos o disco pronto, masterizado, mas não podíamos pagar. Como ele é parte financiado por leis de incentivo federal e municipais, tivemos que esperar abrir o edital, sair a grana, o que é um processo um pouco demorado”, explica o baterista, Douglas Godoy.

Vanguart, o disco, chega às bancas com as principais canções do grupo não lançadas em EPs anteriormente. Semáforo, Cachaça e Hey Yo Silver, que já viraram hinos e sucessos no meio indie. O disco abandona a exclusividade do inglês para abrigar seis músicas em português, sete em inglês e uma em espanhol.

Incensado pelo público indie e por uma parte da imprensa, o Vanguart ganhou muitos detratores nesse tempo de estrada. Além de um ranço por parte da crítica com a semelhança com Bob Dylan, o nome Vanguart foi considerado pretensioso demais. “Não entenderam a ironia. O que pode ter de menos vanguarda em alguém cantar folk em inglês com um violão?”, teoriza Helio. “Não entramos nessa pra ganhar fãs ou coisas assim. O que nos importa é fazer a música que gostamos, é essa necessidade.”

No caso de Helio, a necessidade de se expressar começou cedo. Aos 12 anos ele compôs as primeiras músicas e, mesmo sem gostar muito do resultado, não desistiu. “Nessa idade você é um idiota, um moleque sem muitas aspirações. A primeira musica que escrevi e gostei foi com uns 15, 16 anos.” Isso explica a repulsa do vocalista a Ready To, primeiro EP, caseiro, gravado antes de o Vanguart ser realmente uma banda, com músicas de quando ele tinha uns 14 anos. Helio não gosta do álbum e não deixa ser passado para ninguém. Diferente de The Noon Moon, também caseiro mas um pouco mais maduro, de quando o vocalista tinha uns 16 anos. “É um disco toscamente gravado, mas gosto muito daquela sonoridade. Ainda vou prensa-lo de novo”, orgulha-se Helio. “Ali já tem alguns dos elementos do que seria mesmo o Vanguart.”

Sim, porque a banda tomou forma mesmo em 2004, depois que o vocalista voltou de sua viagem pela Bolívia. “Eu tava sem rumo, com muitos demônios na cabeça, aí fiz essa viagem. Fiquei um tempo em La Paz, masquei uma folha de coca, compus um monte de músicas e voltei com o Vanguart idealizado como banda.” A partir daí a banda teve algumas mudanças de formação até se estabelecer no quinteto atual (além de Helio e Douglas, o guitarrista Daniel Dafré, o baixista Reginaldo Lincoln e o tecladista Luiz Lazzaroto). Da viagem também nasceu Los Chicos de Ayer, única música em espanhol do disco de estréia. “A música é sobre a dor que encontrei lá, e que também está muito presente no Brasil, em Cuiabá. As pessoas são muito passionais na América Latina. Muito dessa dor foi responsável pelo que o Vanguart é hoje”, explica Helio.

E é ai que o burburinho começa a se estabelecer em torno da banda. Começando a se apresentar pelos palcos do Brasil, nos diversos festivais independentes, eles foram descobrindo que havia público para folk rock e aperfeiçoando sua sonoridade. Lançaram, em 2005, o EP Before Vallegrand (com uma das melhores músicas da banda, a curta e rápida Into The Ice) e logo depois os singles Semáforo e Cachaça. Fernando Rosa, do site Senhor F, foi o primeiro a chamar a primeira de Hino de Uma Geração. Mas, afinal, o que ela tem de tão significativa? “Todos meus amigos querem morrer hoje em dia. De todas as formas. Cada um sabe sua forma de morrer e se sentir bem”, filosofa o vocalista.

Hoje com 22 anos, Helio é considerado um dos principais letristas do rock independente. Canções como Los Chicos de Ayer, Para Abrir os Olhos e Cachaça comprovam isso. Isso significa amadurecimento? “Às vezes acho que sou o mesmo moleque de 12 anos. Só sei que escrever é algo essencial pra mim. Meu primeiro beijo na boca eu dei porque escrevi um soneto para a menina, se não, não conseguia. Quero chegar aos 60 escrevendo.”

O último passo importante da banda foi participar do programa Som Brasil em homenagem a Raul Seixas, na TV Globo. “Não muda muita coisa, a não ser que agora a gente vai poder tocar Raul quando pedirem nos shows”, brinca Douglas. Aparecer em rede nacional, na principal emissora do país, não parece ter deslumbrado os rapazes. Uma possível conquista do mainstream continua a não ser uma meta. “Acho que ninguém mais vai estourar. Eu acredito em uma carreira mais consolidada de trabalhos sólidos. Eu estou muito mais preocupado com o que a gente vai apresentar no próximo álbum do que se a gente vai estourar ou não. Não é falta de ambição, mas precisamos primeiro trabalhar a música, não ficar pensando se vamos estourar porque tocamos na Globo. Se fosse um projeto montado pra estourar não estaríamos aqui hoje. Desde o começo, foi algo que fizemos por causa da música.”

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Uma resposta to “Será de Cuiabá a melhor banda de rock nacional da atualidade?”

  1. stenio andrade Says:

    ouvi ‘semáforo’, puta som!

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