Archive for outubro \31\UTC 2007

Divagações pictóricas

outubro 31, 2007

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No quadro A arte da pintura de Johaness Vermeer, o pintor está de costas para o expectador, com sua modelo posando. Uma cortina semi-aberta dá a impressão de que estamos espiando o pintar que está a postos, com o pincel na mão. Esta pintura é muito interessante , pois de fato estamos o tempo todo buscando nos quadros o olhar do pintor, o que ele quis nos dizer. E de fato nunca poderemos ter certeza se o que entendemos de uma obra realmente foi o que o artista quis passar. A subjetividade da obra faz com que ela possa ter muitas leituras diferentes, com que o seu significado ultrapasse em valor o que o artista quis expressar na mente de outras pessoas.

Ao pensar nessa questão da subjetividade das obras de arte, é impossível não se lembrar de René Magritte.

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Em seu quadro O Terapeuta, ele pinta o profissional que lida os complexos e traumas dos pacientes como um homem de cabeça de gaiola, como se fosse um ser que guarda a chave do sagrado, dos significados que ninguém tem, e ele as tivesse aos montes na sacola que carrega na mão. Mas na entanto a sua cabeça está trancada. Ele pode ter muitas chaves, mas não tem sua própria chave. Os terapeutas precisam de terapeutas. E talvez o pintor de quadro de Vermeer fosse como um terapeuta, que tem a chave de um segredo e apenas revela uma parte aos expectadores. Ele revela a sua presença, mas não aonde o seu olhar está concentrado.

O terapeuta também pode ser interpretado não como uma pintura sobre um terapetua, mas sobre cada um tentando entender sua própria mente, tentando ser o terapeuta de si mesmo e libertar os pássaros que voam em círculos dentro de nossa cabeça, batendo nas grades e ficando tontos e soltando penas sem conseguir sair.

Magritte passa a mesma sensação de intimidade que Vermeer, com a diferença que o misterioso em Vermeer é o que não podemos ver, mas em Magrite o mistério vêm do inexplicável, do indizível, que, ao mesmo tempo em que demonstra a solidão do ser representado na tela, nos dá uma sensação de intimidade, porque eu reconheço minha própria solidão na solidão do outro. A mesma sensação de intimidade que Vermeer cria, direcionando o olhar do expectador através da luz, tão característica dos seus quadros, com sua incidência lateral em grande parte de suas composições, e que pode ser observado no famoso Moça com Brinco de Pérola. Essa luz faz com os elementos de composição do quadro sejam secundários, o olhar é direcionado por essa luz que tem um quê de celestial. É como se o pintor estivesse segurando a cortina e dizendo “pode espiar, mas só vai ver o que eu quiser…”. E essa sensação de estar assistindo uma cena íntima e especial nos fascina.

A mesma sensação de intimidade vem ironizada por Magritte em seu quadro Os amantes.

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Ao colocar os rostos tapados se beijando Magritte questiona os relacionamentos e invoca Levinás, colocando na tela o absolutamente outro com rostos. Há entrega, o que é indiscutível pela expressão corporal do casal, mas ela é condicionada pelas engrenagens que regem nossa cabeça. Enquanto Vermeer quer deliciar com a imagem do proibido, Magritte quer que não nos contentemos em ver a superfície. Enxergar apenas o que a cortina permite não é o suficiente para Magritte. Ele quer ir além, quer escrachar, quer que Os Amantes enxerguem O Terapeuta em si mesmos, desvendando para os amantes o fato de que o outro sempre é capaz de nos surpreender e de se surpreender consigo mesmo e que todas as pessoas são o Absolutamente Outro, não importa o quanto a amemos, como disse Fernando Pessoa em seu poema Meus Olhos, Porque quem ama nunca sabe o que ama/Nem sabe por que ama, nem o que é amar …/Amar é a eterna inocência,/E a única inocência não pensar…”

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Acrílica sobre tela

outubro 28, 2007

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Estamira está em todo lugar

outubro 25, 2007

 

Estamira é um documentário de Marcos Prado, filmado em 2006, sobre uma mulher de mesmo nome que vive em um lixão. 

Difícil dizer se ela sabe do que está falando, mas com certeza um pouco do que ela representa está em todo lugar, principalmente nas cidades grandes, onde não só o lixo costuma ser um problema de saudade pública, como muitas pessoas depois de sofrerem bastante passam a viver na sua própria realidade, seja ela a mendicância, o lixão ou a psicose.

Estamira é uma mulher que mora no lixão. Ela fala em seu dialeto próprio e passa horas xingando a Deus e falando coisas que não tem muito sentido. Inicialmente parece louca. Ela não é 100%, como diz sua filha, mas a questão é que a história de sua vida de certa forma justifica o seu desequilíbrio. A começar pelos abusos sofridos quando era pequena, pelo padrasto, que ainda por cima a deixou em um bordel aos 12 anos. Estamira saiu de lá para se casar com um homem infiel, num casamento em quenão existia respeiro, e ambos eram violentos. A partir do momento em que deixou o marido, as coisas ficaram ainda mais difíceis financeiramente. Para piorar o quadro, Estamira foi estuprada duas vezes, no caminho de sua casa.

Uma mulher que vive do lixo para criar seu filhos, voltou as costas para um Deus que ela chama de estuprador. Como dizer que ela está errada? Como julgar essa mulher que todos os dias passa por algo inimaginável?

Apesar de não fazer sentido em grande parte das coisas que diz, Estamira tem algo de intelectual na sua loucura, um quê de filosofia nas coisas que diz. É como se ela própria inventasse um novo sentido para as palavras, e se convencesse de que aquilo faz sentido. Algumas vezes durante o filme é perceptível que nem ela mesma acredita no que está dizendo, nas conexões entre palavras que não dizem nada juntas, e então você a vê em alguns momentos como uma mulher ferida e em outros como uma criança, que quer inventar uma história, mas não sabe a hora certa de chegar ao final. Por isso ela continua inventando e indo sempre mais longe do ponto em que queria chegar, até a hora em que já não se lembra mais do começo da história, nem dos personagens, sendo que talvez ela tenha esquecido o personagem principal: ela mesma.

O filho de Estamira tem um grande problema com o seu lado religioso, porque ele é um rapaz que lê a Bíblia e que freqüenta a igreja, mas as duas filhas de Estamira parecem entender muito bem quem é a mãe, e a amam como ela é. A mais velha por saber sua história e compreender os arrependimentos e as tristezas da mãe. A mais nova de um modo ainda mais doce e conflituoso, se sente culpada por não ter sido criada pela mãe, mesmo que isso significasse morar no lixão, e ao mesmo tempo parece ser a responsável pelos momentos em que Estamira está mais calma e serena, porque a filha está ao seu lado, lhe fazendo carinho. Apesar de tudo, Estamira ainda é capaz de amar.

Estamira é como arte contemporânea, difícil e complexa. Quando a vemos, sentimos repulsa, nos sentimos em conflito, mas ao mesmo tempo em que queremos sair dessa realidade cruel e triste, queremos saber mais, não que seja difícil, pois Estamira está em todo lugar e como ela diz no filme “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

Lápis de cor

outubro 24, 2007

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Porque Pessoa era O Cara

outubro 17, 2007

Eu não gosto de poesia, mas sim de poetas. Poesia só pela poesia costuma ser vazio, meloso e masturbatório demais. Mas tem pessoas que valem a pena. Tem algumas que valem a pena pela companhia, que só por estarem num ambiente deixam o clima mais leve, outras valem pelo humor ou pela beleza. Fernando Pessoa deve ter sido uma pessoa que valeu a pena por cada linha que escreveu, por cada pensamento que teve.

Dizem que tudo já foi dito, pensado, escrito… Que ser original é impossível. Eu acho que isso é falta de confiança de quem fala, mas às vezes vale a mais a pena citar alguém que foi O Cara do que escrever aqui qualquer abobrinha.

Senhoras e senhores, Fernando Pessoa:

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Trecho do livro Mensagem:

“Sem a loucura que é o homem, além de besta sadia, cadáver adiado que procria?!”

outubro 16, 2007

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Miranda, do Ídolos para o Trombone

outubro 15, 2007

Carlos Eduardo Miranda, o Miranda do Ídolos, produtor musical que descobriu os Raimundos e produziu Cordel do Fogo Encantado, Mundo Livre S.A, O Rappa, Skank, Lobão, Otto, Cansei de ser Sexy e De Falla, entre outras bandas, contou um pouco de sua vida pessoal para o repórter Tiago Agostini. A seguir um trecho da entrevista.

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  • Miranda, você gosta de futebol?

“Véio, tem tanta coisa pra fazer na vida que se preocupar com futebol é muito pra mim. Só acho legal pra sacanear quem gosta. Eu sempre dou um jeito de olhar na Internet coisa dos times desses caras, só pra exercitar essa coisa que todo mundo gosta. O futebol é meio o que a novela é para mulher, é o papo com os amigos e tal, aquilo que tu acompanha todo dia. E também, nessa hora vai namorar. Namorar é melhor. E ainda tem que fazer outras coisas. Já é raro ter tempo pra assistir filmes… Tem que ver filme, ler gibi, ler livro, tem que pensar, tem que namorar, tem que comer, tem que dormir e tem q cair na gandaia. Tudo isso é coisa que ocupa muito o cara. Divide um dia por essas coisas pra tu ver. E nenhuma delas é boa por pouco tempo. Comer vai umas 3 , 4 horas, no mínimo. Namorar vai no mínimo umas 6 horas, já deu 10. Dormir mais umas 4, 5 horas já deu umas 15. Ai tem q ler, tomar banho… Eu tomo 2 ou 3 banhos por dia. E Internet ainda, que toma muito tempo. E não é só Internet, é conversar, que eu gosto pra caralho.”

Da série Personagens: Capitão Gancho

outubro 9, 2007

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Sobre música

outubro 4, 2007

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O homem que não possui a música em si mesmo,

Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,

Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia.

Sua inteligência é morna como a noite,

Suas aspirações sombrias como Erebo,

Desconfia de tal homem! Escuta a música.

Shakespeare

Citação extraída do livro “O espiritual na arte”, de Wassily Kandinsky

Da série Personagens: Prince Charming

outubro 3, 2007

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