Divagações pictóricas

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No quadro A arte da pintura de Johaness Vermeer, o pintor está de costas para o expectador, com sua modelo posando. Uma cortina semi-aberta dá a impressão de que estamos espiando o pintar que está a postos, com o pincel na mão. Esta pintura é muito interessante , pois de fato estamos o tempo todo buscando nos quadros o olhar do pintor, o que ele quis nos dizer. E de fato nunca poderemos ter certeza se o que entendemos de uma obra realmente foi o que o artista quis passar. A subjetividade da obra faz com que ela possa ter muitas leituras diferentes, com que o seu significado ultrapasse em valor o que o artista quis expressar na mente de outras pessoas.

Ao pensar nessa questão da subjetividade das obras de arte, é impossível não se lembrar de René Magritte.

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Em seu quadro O Terapeuta, ele pinta o profissional que lida os complexos e traumas dos pacientes como um homem de cabeça de gaiola, como se fosse um ser que guarda a chave do sagrado, dos significados que ninguém tem, e ele as tivesse aos montes na sacola que carrega na mão. Mas na entanto a sua cabeça está trancada. Ele pode ter muitas chaves, mas não tem sua própria chave. Os terapeutas precisam de terapeutas. E talvez o pintor de quadro de Vermeer fosse como um terapeuta, que tem a chave de um segredo e apenas revela uma parte aos expectadores. Ele revela a sua presença, mas não aonde o seu olhar está concentrado.

O terapeuta também pode ser interpretado não como uma pintura sobre um terapetua, mas sobre cada um tentando entender sua própria mente, tentando ser o terapeuta de si mesmo e libertar os pássaros que voam em círculos dentro de nossa cabeça, batendo nas grades e ficando tontos e soltando penas sem conseguir sair.

Magritte passa a mesma sensação de intimidade que Vermeer, com a diferença que o misterioso em Vermeer é o que não podemos ver, mas em Magrite o mistério vêm do inexplicável, do indizível, que, ao mesmo tempo em que demonstra a solidão do ser representado na tela, nos dá uma sensação de intimidade, porque eu reconheço minha própria solidão na solidão do outro. A mesma sensação de intimidade que Vermeer cria, direcionando o olhar do expectador através da luz, tão característica dos seus quadros, com sua incidência lateral em grande parte de suas composições, e que pode ser observado no famoso Moça com Brinco de Pérola. Essa luz faz com os elementos de composição do quadro sejam secundários, o olhar é direcionado por essa luz que tem um quê de celestial. É como se o pintor estivesse segurando a cortina e dizendo “pode espiar, mas só vai ver o que eu quiser…”. E essa sensação de estar assistindo uma cena íntima e especial nos fascina.

A mesma sensação de intimidade vem ironizada por Magritte em seu quadro Os amantes.

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Ao colocar os rostos tapados se beijando Magritte questiona os relacionamentos e invoca Levinás, colocando na tela o absolutamente outro com rostos. Há entrega, o que é indiscutível pela expressão corporal do casal, mas ela é condicionada pelas engrenagens que regem nossa cabeça. Enquanto Vermeer quer deliciar com a imagem do proibido, Magritte quer que não nos contentemos em ver a superfície. Enxergar apenas o que a cortina permite não é o suficiente para Magritte. Ele quer ir além, quer escrachar, quer que Os Amantes enxerguem O Terapeuta em si mesmos, desvendando para os amantes o fato de que o outro sempre é capaz de nos surpreender e de se surpreender consigo mesmo e que todas as pessoas são o Absolutamente Outro, não importa o quanto a amemos, como disse Fernando Pessoa em seu poema Meus Olhos, Porque quem ama nunca sabe o que ama/Nem sabe por que ama, nem o que é amar …/Amar é a eterna inocência,/E a única inocência não pensar…”

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2 Respostas to “Divagações pictóricas”

  1. Claudia Says:

    Era mesmo isto que procurava.
    Obrigada:D

  2. larissa barbosa Says:

    qantos passaros existe realmente na pintura O TERAPEUTA?

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