Archive for the ‘Crônicas’ Category

Quem será a maior banda do novo rock mundial?

novembro 15, 2007

Na segunda metade de 2004, duas bandas da nova geração do rock mundial lançavam seu primeiro CD, e, cada uma com um mega-hit, ultrapassavam a barreira do indie, tornando-se conhecidas até entre os funkeiros das festas de Jornalismo da UFSC. Os americanos do The Killers com “Somebody Told Me” e os escoceses do Franz Ferdinand com “Take Me Out” provavam que o rock inteligente e dançante podia ainda ser um sucesso de massa.

the_killers.jpg

The Killers

As duas bandas tiveram maneiras diferentes de aproveitar o sucesso. O Franz Ferdinand engatou, no final de 2005, um segundo disco (You Could Have it So Much Better) tão bom quanto o primeiro. Já o Killers deu uma pausa para a gravação do segundo, Sam’s Town, que só foi sair no final de 2006. Dessa maneira, durante o ano de 2006 o Franz reinava soberano no cenário do novo rock, com toda a simpatia e bom mocismo de seus integrantes. Vieram duas vezes ao Brasil, primeiro abrindo para o U2 e depois como headliners do festival Motomix, lotando os espaços onde tocaram. Ao Killers, durante todo este tempo, restou criar a expectativa em torno do novo álbum, coisas que Brandon Flowers até exagerou, bradando que este seria um dos melhores discos dos últimos 20 anos.

De fato, quando chegou às lojas, Sam’s Town transbordava pretensão. Carregando as músicas com influências de Queen, o Killers forjou um disco grandioso, de rock de arena, extremamente irregular, em que ótimos momentos como “Bones”, “When You Were Young” e “Uncle Johnny” convivem com músicas enfadonhas e arrastadas como “Read My Mind” e “Bling (Confessions Of A Broken Heart)”. No lugar das levadas dançantes de Hot Fuss (o primeiro álbum), uma massa sonora para angariar multidões. Coisa de banda que quer ser a maior do mundo. No fim, Sam’s Town não passa de um disco de transição, em que o Killers arrica uma mudança de estilo acertando e errando, mas apontando um horizonte interessante se conseguir dosar as arestas.

Disco de transição este que o Franz Ferdinand ainda prepara. O próprio Alex Kapranos já declarou que o disco deve ter mais influências e elementos eletrônicos. Se vai ser irregular ou não, deve-se esperar para ver. Com o talento que os escoceses mostraram até aqui, não será espantoso que o disco venha redondinho.

 

franz-ferdinand.jpg
Franz Ferdinand

No final de outubro, o Brasil pôde conferir mais um detalhe na disputa das duas bandas. O Tim Festival era a hora de comparar o show do Killers com as apresentações do ano passado do Franz. Os escoceses demonstram mais carisma em cima do palco, com os quatro integrantes esbanjando sorrisos e presença, enquanto o Killers depende do esforço único de Flowers, que se movimenta o tempo todo, e do simpático baterista Ronnie Vannucci. A grande diferença é que o som do Franz funciona melhor em locais menores, e o rock de arena do Killers preenche estádios – mesmo as músicas de Hot Fuss soam grandiosas com uma boa camada de teclados por baixo. Os dois empolgam, mas sem dúvida o Franz é mais incendiário.

No saldo final, nenhuma das duas bandas abriu vantagem em uma possível corrida para ser a maior banda do mundo. Mas, mesmo mais despretensioso, o Franz Ferdinand consegue, com seu carisma, estar um pouco à frente.

Anúncios

Cultura popular, música popular e artesanato

novembro 6, 2007

O termo cultura popular é preconceituoso porque divide a população entre “elite” e “povo”, sendo o povo a parcela pobre e sem educação. A cultura popular seria, portanto, uma espécie de reflexo rude da cultura erudita e a sua afirmação a partir da cultura popular definiria seu domínio cultural sobre outras parcelas da população.

A denominação da música como popular leva essa caracterização em conta, na medida em que o termo popular afasta esse tipo de música da música clássica, que seria parte da cultura da elite, e também a afasta do termo música folclórica, indesejado por sua ligação com a tradição e dessa forma com a falta de originalidade.

Do mesmo jeito o artesanato, uma forma de produção tradicional, é desvalorizado pela sociedade industrial. De acordo com García Canclini, em seu texto sobre a venda do artesanato indígena no México, o tratamento dispensado ao artesanato pela sociedade é uma forma de afirmação de poder da cultura dominante sobre a dominada. A venda do artesanato o define como uma arte secundária, já que ele não vai ser exibido em galerias e admirado, mas sim servir como enfeite ou objeto de uso comum para uma pessoa de outra classe social e outra cultura, ou ainda como forma de ostentação, no caso de jóias e mobília trabalhada.

O comércio do artesanato vai servir para sustentar uma família indígena que antes não pertencia ao modo de produção capitalista, mas que será inserida nele com a venda de sua produção artística. Isso estabelece uma relação de cultura dominadora e cultura dominada, já que faz parte desse contexto da dominação cultural que a cultura dominadora se insira no ambiente das culturas dominadas, através de roupas, eletrodomésticos e da inserção no imaginário da cultura dominada de desejos de consumo que antes não existiam.

A música popular usa essa denominação para fugir desse afastamento que o artesanato apresenta: ele é fruto da tradição, de algo que não é novo e não pertence ao povo, mas aos seus antepassados. Dessa forma, ela consegue um apelo comercial de que a música folclórica não desfruta. A música popular é o novo, é o encontro da tradição com a atualidade, e é distante da elite, assim como a denominação da parcela pobre da população de “povo”.

No entanto, ambas as produções, a música e o artesanato, são produtos da cultura popular, se chamarmos de popular o que é feito pelas pessoas de uma sociedade, não importando seu nível de educação ou de adequação junto à elite ou junto aos grupos de maior tradição cultural. No entanto, a denominação da música como popular lhe atribui um significado que facilita a sua circulação no meio comercial e a sua assimilação pela população, enquanto o artesanato fica restrito a ser visto e comercializado como produção de uma cultura dominada e que acaba sendo vista como inferior.

Biliografia:

O que é cultura popular, Antoni Augusto Arantes Ed. Braziliense

Do mercado à boutique: quando as peças de artesanato emigram, Nestor García Canclini, As culturas populares no Capitalismo

A “origem do samba” como invenção do Brasil (Por que as canções têm música?)Rafael José de Menezes, Revista Brasileira de Ciências Sociais, disponível no site http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_31/rbcs31_09.htm

Divagações pictóricas

outubro 31, 2007

a-arte-da-pintura-vermeer.jpg

No quadro A arte da pintura de Johaness Vermeer, o pintor está de costas para o expectador, com sua modelo posando. Uma cortina semi-aberta dá a impressão de que estamos espiando o pintar que está a postos, com o pincel na mão. Esta pintura é muito interessante , pois de fato estamos o tempo todo buscando nos quadros o olhar do pintor, o que ele quis nos dizer. E de fato nunca poderemos ter certeza se o que entendemos de uma obra realmente foi o que o artista quis passar. A subjetividade da obra faz com que ela possa ter muitas leituras diferentes, com que o seu significado ultrapasse em valor o que o artista quis expressar na mente de outras pessoas.

Ao pensar nessa questão da subjetividade das obras de arte, é impossível não se lembrar de René Magritte.

terapeuta-magritte-copy.jpg

Em seu quadro O Terapeuta, ele pinta o profissional que lida os complexos e traumas dos pacientes como um homem de cabeça de gaiola, como se fosse um ser que guarda a chave do sagrado, dos significados que ninguém tem, e ele as tivesse aos montes na sacola que carrega na mão. Mas na entanto a sua cabeça está trancada. Ele pode ter muitas chaves, mas não tem sua própria chave. Os terapeutas precisam de terapeutas. E talvez o pintor de quadro de Vermeer fosse como um terapeuta, que tem a chave de um segredo e apenas revela uma parte aos expectadores. Ele revela a sua presença, mas não aonde o seu olhar está concentrado.

O terapeuta também pode ser interpretado não como uma pintura sobre um terapetua, mas sobre cada um tentando entender sua própria mente, tentando ser o terapeuta de si mesmo e libertar os pássaros que voam em círculos dentro de nossa cabeça, batendo nas grades e ficando tontos e soltando penas sem conseguir sair.

Magritte passa a mesma sensação de intimidade que Vermeer, com a diferença que o misterioso em Vermeer é o que não podemos ver, mas em Magrite o mistério vêm do inexplicável, do indizível, que, ao mesmo tempo em que demonstra a solidão do ser representado na tela, nos dá uma sensação de intimidade, porque eu reconheço minha própria solidão na solidão do outro. A mesma sensação de intimidade que Vermeer cria, direcionando o olhar do expectador através da luz, tão característica dos seus quadros, com sua incidência lateral em grande parte de suas composições, e que pode ser observado no famoso Moça com Brinco de Pérola. Essa luz faz com os elementos de composição do quadro sejam secundários, o olhar é direcionado por essa luz que tem um quê de celestial. É como se o pintor estivesse segurando a cortina e dizendo “pode espiar, mas só vai ver o que eu quiser…”. E essa sensação de estar assistindo uma cena íntima e especial nos fascina.

A mesma sensação de intimidade vem ironizada por Magritte em seu quadro Os amantes.

os-amantes.jpg

Ao colocar os rostos tapados se beijando Magritte questiona os relacionamentos e invoca Levinás, colocando na tela o absolutamente outro com rostos. Há entrega, o que é indiscutível pela expressão corporal do casal, mas ela é condicionada pelas engrenagens que regem nossa cabeça. Enquanto Vermeer quer deliciar com a imagem do proibido, Magritte quer que não nos contentemos em ver a superfície. Enxergar apenas o que a cortina permite não é o suficiente para Magritte. Ele quer ir além, quer escrachar, quer que Os Amantes enxerguem O Terapeuta em si mesmos, desvendando para os amantes o fato de que o outro sempre é capaz de nos surpreender e de se surpreender consigo mesmo e que todas as pessoas são o Absolutamente Outro, não importa o quanto a amemos, como disse Fernando Pessoa em seu poema Meus Olhos, Porque quem ama nunca sabe o que ama/Nem sabe por que ama, nem o que é amar …/Amar é a eterna inocência,/E a única inocência não pensar…”

Porque Pessoa era O Cara

outubro 17, 2007

Eu não gosto de poesia, mas sim de poetas. Poesia só pela poesia costuma ser vazio, meloso e masturbatório demais. Mas tem pessoas que valem a pena. Tem algumas que valem a pena pela companhia, que só por estarem num ambiente deixam o clima mais leve, outras valem pelo humor ou pela beleza. Fernando Pessoa deve ter sido uma pessoa que valeu a pena por cada linha que escreveu, por cada pensamento que teve.

Dizem que tudo já foi dito, pensado, escrito… Que ser original é impossível. Eu acho que isso é falta de confiança de quem fala, mas às vezes vale a mais a pena citar alguém que foi O Cara do que escrever aqui qualquer abobrinha.

Senhoras e senhores, Fernando Pessoa:

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Trecho do livro Mensagem:

“Sem a loucura que é o homem, além de besta sadia, cadáver adiado que procria?!”

Sobre música

outubro 4, 2007

flauta.jpg

O homem que não possui a música em si mesmo,

Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,

Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia.

Sua inteligência é morna como a noite,

Suas aspirações sombrias como Erebo,

Desconfia de tal homem! Escuta a música.

Shakespeare

Citação extraída do livro “O espiritual na arte”, de Wassily Kandinsky

Os condões da feitiçaria moderna: Questões imobiliárias

setembro 29, 2007

circus.jpgApesar de a economia no mundo mágico não andar essas coisas, na área imobiliária a situação é outra. Há ofertas aos montes. Casas abandonadas, esquisitas, fora de moda, convencionais e moderninhas. Onde houver uma ampla sala de estar, uma lareira e uma árvore velha, as chances de encontrar um bruxo hospedado são grandes. E ainda maiores se o local possuir bons espelhos ovais, caldeirões de cobre ou estanho e livros de todos os tipos. Feiticeiros adoram ler livros antigos, cheios de bolor e cobertos de segredinhos enterrados em pó e séculos. Costumam ter em suas residências grandes estoques de livros de feitiçaria, cadernos de culinária e uma quantidade razoável de revistas com a programação dos canais por assinatura. Bruxos e bruxas modernos não conseguem viver sem seus filmes e séries preferidos, são espectadores assíduos e sedentos por entretenimento despretensioso. Os mais precavidos e sisudos, por outro lado, costumam instalar em suas casas canais por assinatura com programação voltada para a saúde e para os negócios, em uma tentativa de manter vivo o interesse pelas coisas “sérias” do mundo moderno. Os bruxos que não possuem televisão paga em seus lares, são adeptos de outras atividades, que não, passar várias horas diárias frente a um monitor de vidro assistindo a séries enlatadas. Alguns vivem a decorar os cômodos de suas casas, outros se dedicam à dança de salão (no caso, à dança de sala de estar) e outros fazem artes manuais, como patchworks com forros de baús velhos ou bonequinhos decorativos com meias de algodão listradas.

Autoretrato

setembro 26, 2007

Olho para o lado e vejo um rapaz enorme, com braços compridos como um gorila e uma cabeça bem pequena, moldada por uma camada espessa de cabelos negros e espetados. Curvado para frente, ele se debruça sobre um livro, que conserva a cinco centímetros de seu rosto. Os olhos castanhos, muito próximos um do outro, não se movem durante a leitura. É o livro que é levado de um lado para o outro e cada vez mais para baixo, conforme a leitura avança. Em seu ritmo frenético e bizarro de leitura, esse estranho é a razão pela qual eu quero ser jornalista.

Estamos num ônibus cheio de gente, em pleno centro de Florianópolis, e ninguém parece notar esse sujeito que se destaca no meio dos outros. Mas ele não é só um cara esquisito sentado num ônibus, ele é personagem de uma história que eu quero contar. É para isso que eu quero ser jornalista, para contar histórias.

Diário de um Coronel

setembro 20, 2007

Sentado ao meu lado no avião, um cabra atarracado, de cabelos branquinhos, apóia as mãos trêmulas e morenas na barriguinha saliente. A poltrona não quer ficar na posição vertical e ele se oferece para me ajudar. Você é de Petrolina, minha filha? Eu não. Sou de Florianópolis é minha primeira vez aqui. Ah então você vai gostar muito, Petrolina é uma cidade muito boa. O São Francisco é muito bonito. Eu sou prefeito, diz ele, com sua fala pausada, e o nome da cidade que governa parece nome de fruta. As frutas aliás, são uma das grandes fontes de renda da região, assim como a capricultura. A cidade fica do lado de Juazeiro. Sou prefeito pela quarta vez e já fui vereador sete vezes.

Nossa, mas pra ter sido eleito tantas vezes o senhor deve ter entrado na política muito cedo. Fui vereador pela primeira vez com 21 anos. Entrei na política e nunca mais saí. Política é dom.

Você não adivinha a idade que eu tenho! Bom, se ele fala assim, deve ter mais do que aparenta. Chuto sessenta e erro feio. Nem a pele queimada pelo sol e sardenta faz com que ele aparente os oitenta anos que vai completar em outubro. A água lá na sua cidade deve rejuvenescer, hein, seu Prefeito? Água que nada minha filha, o que rejuvenesce são as meninas… Diz ele com um sorriso maroto e aponta para a morena que dorme ao seu lado. Tá vendo essa menina? É minha secretária, eu trouxe comigo. Tenho quatro em Curaçá, todas dessa idade…

Nisso um senhor magro vem em nossa direção pelo corredor. Ô colega, tudo bom? Tava mesmo falando em você esses dias. O PSB anda muito fraco estávamos pensando se você não quer mudar de partido, daí a gente faz uma coligação com o PMDB… O magrelo fala muito, mas parece não convencer. Seu tom agressivo e direto não causa muito efeito no Prefeito, que ouve prestando bastante atenção, com seu ar ingênuo e bondoso, um jeitinho que parece de vô do interior, mas não dá resposta.

O magrelo se cansa da palestra e volta para o seu assento, e o Prefeito me diz que sempre foi muito amigo do ACM. Nós tínhamos um trato, estávamos juntos até morrer. Ele foi primeiro, mas eu continuo no PFL. Pra que eu vou mudar de partido se não for para conseguir uma creche, uma escola para o meu município? A teoria é bonita, mas eu fico pensando se era isso mesmo que o faria mudar de partido.

Diz ele que nunca foi empregado de ninguém e que se eu perguntar quanto ele gasta por mês ele não sabe. Eu vou gastando, não to nem aí. Engraçado, ser Prefeito também é receber um salário. Não sei se a família dele é rica, já que ele me disse que só cursou até a quarta série. Se fosse rico talvez fosse doutor, como ACM. Acho melhor não perguntar de onde sai o dinheiro.

O Prefeito tem família grande, diz que juntando a esposa, os 9 filhos, as noras, os genros e os netos, somam 35 pessoas. Toda a prole fez faculdade, e ele se orgulha disso. Assistente social, advogado, psicólogo, cada um se formou em uma área, mas nenhum virou político. Política é dom, diz ele de novo, e depois que o governo fez a lei do nepotismo ele tirou todos os parentes que tinha de cargos públicos. Ele diz isso com um olhar ressabiado, como se eu fosse fiscal de alguma coisa. Depois volta ao tom paternal, e eu fico imaginando que ele deve ter uma fazenda, com uma mesa bem cumprida para juntar toda a família nos domingos e para receber o povo das redondezas com seus pedidos: um remédio para o pai, uma cabra pra cruzar com o cabrito da família, uma passagem para a cidade grande, uma ajuda para resolver uma pendenga. Quando chegamos ao aeroporto, uma hora depois, é como se eu fosse mais uma ovelha de seu rebanho, e ele me oferece carona até o hotel no Hyundai que o esperava. Agradeço e pego um táxi. Por mais que o tempo passe, que o ACM tenha morrido, que o governo faça a transposição do São Francisco e que Nilo Coelho tenha trazido o sabor das frutas para a economia da região, parece que tem coisas que não mudam no nordeste. O calor, a seca e os coronéis continuam os mesmos.

Antes fosse bêbada

agosto 14, 2007

Entrei e me sentei perto da máquina de café expresso. Um suco de laranja e um pão de queijo, por favor. Quase oito horas, logo as coisas começam a abrir. Chegar mais cedo é sempre bom.

O balcão em formato de U da padaria estava quase vazio. Além de mim, só um bêbado, sentado do outro lado, que fala alguma coisa sem sentido. Oito horas da manhã e já bêbado, ou ainda bêbado.

Ela entrou e ficou me encarando. Eu não entendi. Toda arrumada, usando uma bolsa cara, sapatos de salto, jóias. Quem se veste assim para tomar café da manhã na esquina? Mas bem, os Jardins são ali do lado, vai ver que trabalha na Oscar Freire, ou é só perua mesmo…

Sentou e continuou me encarando. A garçonete a chamou pelo nome. Olá minha princesa, como está hoje? Vai querer o mesmo de sempre? A resposta foi virar e continuar me encarando. Devo estar incomodando, pensei. Mas por que eu, sentadinha tomando meu café e não o maldito bêbado, que a essa altura cantava qualquer coisa que tinha sido sucesso no carnaval passado num volume extraordinário?

A garçonete não esperou resposta. Fez uma cara estranha e colocou uma xícara na frente da perua, que olhou o café e me encarou de novo.

Não tem espaço pra comer aqui Tânia, como é que eu vou tomar o meu café? Aqui não dá pra ser Tânia! Aqui não tem espaço, Tânia! Repetia o nome da garçonete como se fosse uma criança que acabou de aprender a escrever “O ônibus é amarelo. O ônibus é da escola. O ônibus me leva pra casa”. Aí tem coisa, pensei. E não é nada boa.

O bêbado parou de cantar para ver quem estava gritando mais do que ele. A Tânia estava preocupada. Tem espaço aí sim querida. Toma seu café, toma. Ela falava e olhava pra mim. Tinha dez lugares vazios ao redor do balcão da padaria, e eu sentei justo aonde a perua doida tomava café todo dia. Levantar e sair, isso sim é uma boa idéia.

O bêbado, vendo que eu me levantei resolveu puxar assunto. Já vai princesa? Vamos dar uma volta por aí? A perua ficou mais emputecida de ver ele falar comigo. Cala a boca seu bêbado, deixa ela ir embora!

Era o que faltava. Sua perua vagabunda, você é louca! É isso que você é! Eu posso ser bêbado, mas você é louca. Ok, vou sair enquanto eles estão ocupados um com o outro. Droga tarde demais. Eu não sou louca Tânia! Não deixa ele falar assim comigo Tânia! É tudo culpa dela Tânia! Ela sentou no meu lugar, Tânia! Eu só que queria tomar café, Tânia! Eu só queria tomar café! Não deixa ele falar assim comigo, Tânia, não deixa! Eu só quero ser feliz! Eu tenho direito de ser feliz, Tânia! Eu quero ser feliz!

Agora é oficial, sou o motivo da discussão entre um bêbado e uma perua louca que não consegue ser feliz se não sentar todo dia no mesmo banco pra tomar café. Levantei pra pagar a conta, o bêbado e a perua repetiam as mesmas ofensas um pro outro. Em dois minutos a padaria tinha deixado de ser um lugar simpático para virar um hospício sem enfermeiros.

Fui pro caixa atordoada. Só queria sair dali. Eu quero ser feliz, Tânia! Eu preciso ser feliz! Eu quero ser feliz! Gritava como se sua vida dependesse disso. Eu nem sabia mais se fazia diferença o banco da padaria ou não, mas ela não era feliz. Talvez nem soubesse o que é isso e estivesse só repetindo o que sua mãe louca dizia, quando apanhava do marido alcóolatra e descontava quebrando pratos na cabeça das crianças quando elas choravam de fome. Talvez ela tivesse se casado com algum cara com grana, pensando que assim ia estar livre desse passado miserável e só o que conseguiu foi se tornar esse ser bizarro, rico por fora, podre por dentro. Antes fosse bêbada.

O cara do caixa me deu um sorrisinho torto. Você acredita que eu agüento isso todo dia? Não, não acredito.

Teoria da desculpa

agosto 12, 2007

Errar é humano, isso todo mundo sabe, mas nem todo mundo sabe pedir desculpas. Não que seja fácil, na verdade pode ser complicado, assim como falar de sentimentos e intenções é difícil, mas é algo essencial em qualquer relacionamento. Cedo ou tarde todo mundo faz besteira e um pedido de desculpas de verdade pode ser a diferença entre o fim e o perdão.

Ok. Isso é óbvio. Então por que algumas pessoas simplesmente são incapazes de pedir desculpa? É ridículo. É irritante. É desconcertante. É absurdo. Então se você não sabe, preste atenção.

Pedir desculpa não é apenas pronunciar as palavras “me desculpe”. Para os mais orgulhosos talvez isso já seja um grande esforço, admitir o erro e se colocar na posição de quem pede, de quem está em dívida, por baixo na relação.

Mas a verdade é que virar para o lado e dizer “desculpa” não significa muita coisa.Não mesmo. Quase nada. É suficiente quando você pisa no pé de alguém ou dá um encontrão num desconhecido, mas está muito longe de resolver as coisas se o motivo do pedido de desculpa realmente foi sério. É só uma palavra. Mais uma, que de tanto ser usada pode acabar não significando nada. Apenas mais um som emitido por qualquer troglodita no universo que não tenha problemas de fala. Mágoas não são esquecidas com um pedido de desculpas.

As desculpas tem que ser equivalente ao erro cometido. Se o erro foi dizer alguma coisa, pedir desculpas é explicar a razão do erro e qual era a intenção original. Matemático e frio. Exatamente assim.

Infelizmente nem sempre a gente sabe porque faz as coisas ou tem uma boa intenção mal compreendida no fundo das besteiras que cometeu. Neste caso existem outras opções. Mandar flores, fazer serenatas, no fundo são sempre a mesma coisa: declarações de amor. Ninguém precisa fazer tudo certo sempre, só precisa saber lembrar aos outros, apesar dos erros que comete, que os ama. Esta técnica tem um índice de eficácia bem alto. Fez besteira? Então pare, pense e descubra detalhes e fatos que sejam as razões e as raízes do seu amor por alguém. Quanto mais verdadeiro for, mais eficaz.

Talvez nada disso funcione. Sempre é uma possibilidade. Nesse caso, vale a pena lembrar um dos trechos do Manual de Instruções do livro Histórias de cronópios e de famas, de Júlio Cortazar, chamado Instruções para chorar.

A transcrição segue abaixo para aqueles que estragaram tudo, perderam quem amavam, para os que se arrepedendem e estão desesperados. Pode ser que não resolva, mas sempre alivia.

Instrucciones para llorar

Instrucciones para llorar. Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente.

Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.

Texto retirado do site http://www.juliocortazar.com.ar.