Archive for the ‘Gustavo Bonfiglioli’ Category

julho 30, 2007

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junho 27, 2007

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junho 15, 2007

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junho 10, 2007

Sistemátomo

maio 22, 2007

Esqueça as teorias. O mundo não é assim por causa do colonialismo, do feudalismo, do imperialismo, do terrorismo, do surrealismo ou de algum outro “ismo” pseudo-intelectual. A culpa não é do Bush, do Fidel, do Diogo Mainardi e nem de Jesus. As raízes – sim, as raízes – do famigerado e imutável “sistema” vão um pouco – muito mais a fundo – à menor das estruturas. Isso mesmo, ele mesmo. Pare para pensar no funcionamento sociológico de um átomo.

Repousando ao núcleo, os nêutrons permanecem no alto de seus pedestais de isenção e estabilidade, aristocráticos. Gordos, fétidos e indiferentes. Acompanham, às gargalhadas, a sofrida dinâmica servil da eletrosfera. Os nobres bon-vivants atômicos degustam dry-martinis presunçosamente, sob o espectro blasé da neutralidade. Pudera: fora do cômodo núcleo atômico, têm uma vida média de cerca de 15 minutos. How typical.

Os prótons sim, cheios da “positiva” fúria obstinada. Gordos e fétidos também, mas cheios de oportunismo. Graças aos nêutrons, resistem à inevitável e incômoda atração com a ralé, daquele submundo escatológico e caótico da eletrosfera – bleargh. Sanguessugas da nobreza neutrina, do núcleo, do poder, do centro, da evidência, do empreendedorismo de cordiais tapinhas nas costas. Emergentes, burgueses – “pró”tons.

O que se vê além-núcleo é, enfim, a tal eletrosfera. Uma imensa periferia em camadas, onde os elétrons – negativos, tísicos, pobres e emputecidos – correm, correm, correm. Labuta ardilosa e rotineira, como numa linha de produção. Sistema que permanece e permanecerá exatamente do jeito que é. Enquanto a high-society atômica ostenta seu luxo efêmero, os elétrons, sem perspectivas, correm – sempre no mesmo caminho, presos ao mesmo espaço. Nunca se verão elétrons no “núcleo”, assim como nunca se verá sociedade igualitária, sistema justo e nenhuma dessas utopias de botequim.

E aí os átomos juntam-se uns aos outros, nas orgias bizarras e assimétricas que são as moléculas. Desenfreada troca de elétrons, como (ainda hoje) se trocam escravos. Das moléculas surgem as primeiras estruturas, e delas surgem todas as coisas. Tudo é feito de matéria desigual, injusta, podre.

Não é de se espantar.

Fossa

maio 19, 2007

Aquela projeção dogmática…aquela certeza etérea, aquela extremidade, aquele tesão – essa ruptura. Essa falta de amor, ele que te entorpecia. Ele que acenava, que ia a fundo nos poros, que admirava com certa timidez adolescente. Esse clichê é tão efêmero…

Sentido sul, sempre sul. Passando pela serra, depois que a vegetação escasseia, depois que o clima inebria, chega-se a uma estrada aberta no deserto, mão-dupla, com a ida livre e a volta completamente engarrafada. Ao cabo de várias milhas, surge a enorme depressão, preenchida por uma névoa escura, de modo que a sensação é de adentrar num buraco negro. É Fossa, a cidade triste – e dizem seus moradores ser perene o breu.

A Fossa é anárquica. Isso porque a única tentativa de democratizar o condado resultou no suicídio de todos os que assumiam a prefeitura – pior do que viver na Fossa é ter de administrá-la. Dessa forma, a organização social delineia-se de forma absolutamente aleatória e caótica. Combinam-se conspirações no burburinho dos depressivos, inocula-se amargura nas ruas – em seringas contaminadas, migalhas de auto-estima dilacerada são devoradas do chão.

Ainda assim, num bantustão isolado de dor, o fluxo de turistas é intenso durante o ano todo. Fossa é a Meca do eu melancólico em cada ser, e a passagem por ela é circunstancial ou proposital. É comum a aquisição do “pacote Fossatur”: centro histórico, monumentos, sessão de pranto histérico, sessão de pranto brando, fim-de-semana de solidão. Um pouquinho de Fossa, e a cicatriz no free shop ou na feirinha de artesanato, por uns três dólares, talvez menos. Souvenir.

Também aparecem os mochileiros da Fossa, que procuram conhecê-la mais a fundo, e senti-la em sua totalidade. A periferia, a esquina da confeitaria, o espelho d’água, a ruela esquecida entre duas avenidas, os becos mais obscuros, a senhora à janela que tenta, curiosamente, esboçar um meio-sorriso – o louco anseio de sair da Fossa a qualquer custo, apesar do magnetismo inexplicável que o solo da cidade exerce sobre quem a visita.

Mas, é claro, não esqueçamos dos residentes da Fossa. Eles, que por toda a vida coexistem nesse espaço sob a pressurização constante do que chamamos de sofrimento. Eles que choram ao comprar o jornal, eles que se auto-flagelam na fila do banco, eles que vão rastejando ao local de trabalho. Eles que, diariamente, transformam seus sonhos em projéteis agudos para uma guerrilha urbana, e os atiram uns contra os outros. Eles que foram fagocitados pelas suas próprias resignações.

Da passagem pela Fossa, o que intriga é sair de lá tendo a certeza do retorno, breve ou não. Há quem se iluda, se preserve, evite ao máximo as intensidades que possam levar à cidade, mas não tem jeito. Quando se dão conta, já se uniram aos milhões que agonizam às ruas tristes-cheias-vazias de Fossa.