Archive for the ‘Reportagens’ Category

Miranda, do Ídolos para o Trombone

outubro 15, 2007

Carlos Eduardo Miranda, o Miranda do Ídolos, produtor musical que descobriu os Raimundos e produziu Cordel do Fogo Encantado, Mundo Livre S.A, O Rappa, Skank, Lobão, Otto, Cansei de ser Sexy e De Falla, entre outras bandas, contou um pouco de sua vida pessoal para o repórter Tiago Agostini. A seguir um trecho da entrevista.

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  • Miranda, você gosta de futebol?

“Véio, tem tanta coisa pra fazer na vida que se preocupar com futebol é muito pra mim. Só acho legal pra sacanear quem gosta. Eu sempre dou um jeito de olhar na Internet coisa dos times desses caras, só pra exercitar essa coisa que todo mundo gosta. O futebol é meio o que a novela é para mulher, é o papo com os amigos e tal, aquilo que tu acompanha todo dia. E também, nessa hora vai namorar. Namorar é melhor. E ainda tem que fazer outras coisas. Já é raro ter tempo pra assistir filmes… Tem que ver filme, ler gibi, ler livro, tem que pensar, tem que namorar, tem que comer, tem que dormir e tem q cair na gandaia. Tudo isso é coisa que ocupa muito o cara. Divide um dia por essas coisas pra tu ver. E nenhuma delas é boa por pouco tempo. Comer vai umas 3 , 4 horas, no mínimo. Namorar vai no mínimo umas 6 horas, já deu 10. Dormir mais umas 4, 5 horas já deu umas 15. Ai tem q ler, tomar banho… Eu tomo 2 ou 3 banhos por dia. E Internet ainda, que toma muito tempo. E não é só Internet, é conversar, que eu gosto pra caralho.”

Ana das Carrancas e sua filhas

setembro 26, 2007

Cerâmica Pernambucana

Quando chegou em Pernambuco era conhecida como Ana do cego, retirante vinda do Piauí, que por 3 meses viajou com a família durante a noite, para fugir do calor e do sol, e de dia descansava e procurava com o que se alimentar. Nunca aceitou que o marido, que é deficiente visual, fosse pedinte. Insistiu em trabalhar para sustentar a família, e começou a fazer louça para vender. Virou Ana louceira, mas a vida continuava difícil. Ganhava pouco com a venda das louças, e o preço da argila subia na praça. Para não parar de trabalhar, passou a buscar argila no rio São Francisco.

Numa das idas até o leito do rio, se sentou para observar os barcos com as suas carrancas, enquanto pedia a Deus que a ajudasse a encontrar uma solução para sustentar a família. Diz a lenda que muitas embarcações naufragavam no rio São Francisco, vítimas de animais gigantescos e seres estranhos. Para afugentá-los criou-se o costume de colocar na proa do navio uma carranca de madeira, que projetando sua sombra monstruosa na água mantinha os maus espíritos afastados, e o barco protegido. Transportando a forma das carrancas para o barro, Ana Louceira, passou a Ana das Carrancas e pelo reconhecimento de seu trabalho, hoje é conhecida como a Dama do Barro.

Seguem abaixo fotos tiradas em seu ateliê, que infelizmente Ana não usa mais, pois sofreu um derrame há pouco tempo. Suas filhas, no entanto, continuam vivendo do barro. Maria da Cruz faz o mesmo tipo de carranca que a mãe a ensinou, já Ângela, como diz a irmã, tem imaginação própria, e além de novos tipos de carrancas produz lindas telas com barro.

Carrancas

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Produção de Ângela (Argila sobre Tela)

Luiz Gonzaga

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Releitura da Bandeira de Pernambuco

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Mulher com Moringa e Natureza Morta

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Nova Carranca

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Será de Cuiabá a melhor banda de rock nacional da atualidade?

setembro 15, 2007

Cuiabá é considerada a porta de entrada para a floresta amazônica e, além dela, tem ao seu redor o cerrado e o pantanal. Três ecossistemas totalmente diferentes, ao lado do centro geodésico da América (o ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico). Com uma máxima temperatura média de 34,1 ºC e picos acima dos 40 ºC, é chamada de Hell City pelos íntimos. Um lugar de onde, à primeira vista, seria improvável sair uma cena de rock. Mas, não só a cena local se espalhou pelo Brasil e ganhou notoriedade, como é de Cuiabá a banda indie mais hypada, incensada e festejada pela crítica nos últimos tempos: Vanguart.

Foram três Eps desde o surgimento da banda, em 2003 (Ready To, The Noon Moon e Before Vallegrand), atiçando a curiosidade e deslumbrando os admiradores. O folk rock em inglês à Dylan, com toques de Radiohead, dos meninos conquistou fãs pelo Brasil inteiro, pelos shows que fizeram quando resolveram cair na estrada. Público que aguardava ansiosamente o lançamento do primeiro disco, Vanguart, prometido desde meados de 2006. Em agosto finalmente ele veio, encartado na revista Outracoisa.

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Gravado em duas semanas no estúdio Inca, em Cuiabá, em dezembro de 2006, o CD demorou a sair muito por causa da burocracia. “A gente já tinha começado a gravar ele umas três vezes, até que surgiu essa proposta legal do estúdio. Gravamos rápido porque já conhecíamos as músicas bem. Em janeiro tínhamos o disco pronto, masterizado, mas não podíamos pagar. Como ele é parte financiado por leis de incentivo federal e municipais, tivemos que esperar abrir o edital, sair a grana, o que é um processo um pouco demorado”, explica o baterista, Douglas Godoy.

Vanguart, o disco, chega às bancas com as principais canções do grupo não lançadas em EPs anteriormente. Semáforo, Cachaça e Hey Yo Silver, que já viraram hinos e sucessos no meio indie. O disco abandona a exclusividade do inglês para abrigar seis músicas em português, sete em inglês e uma em espanhol.

Incensado pelo público indie e por uma parte da imprensa, o Vanguart ganhou muitos detratores nesse tempo de estrada. Além de um ranço por parte da crítica com a semelhança com Bob Dylan, o nome Vanguart foi considerado pretensioso demais. “Não entenderam a ironia. O que pode ter de menos vanguarda em alguém cantar folk em inglês com um violão?”, teoriza Helio. “Não entramos nessa pra ganhar fãs ou coisas assim. O que nos importa é fazer a música que gostamos, é essa necessidade.”

No caso de Helio, a necessidade de se expressar começou cedo. Aos 12 anos ele compôs as primeiras músicas e, mesmo sem gostar muito do resultado, não desistiu. “Nessa idade você é um idiota, um moleque sem muitas aspirações. A primeira musica que escrevi e gostei foi com uns 15, 16 anos.” Isso explica a repulsa do vocalista a Ready To, primeiro EP, caseiro, gravado antes de o Vanguart ser realmente uma banda, com músicas de quando ele tinha uns 14 anos. Helio não gosta do álbum e não deixa ser passado para ninguém. Diferente de The Noon Moon, também caseiro mas um pouco mais maduro, de quando o vocalista tinha uns 16 anos. “É um disco toscamente gravado, mas gosto muito daquela sonoridade. Ainda vou prensa-lo de novo”, orgulha-se Helio. “Ali já tem alguns dos elementos do que seria mesmo o Vanguart.”

Sim, porque a banda tomou forma mesmo em 2004, depois que o vocalista voltou de sua viagem pela Bolívia. “Eu tava sem rumo, com muitos demônios na cabeça, aí fiz essa viagem. Fiquei um tempo em La Paz, masquei uma folha de coca, compus um monte de músicas e voltei com o Vanguart idealizado como banda.” A partir daí a banda teve algumas mudanças de formação até se estabelecer no quinteto atual (além de Helio e Douglas, o guitarrista Daniel Dafré, o baixista Reginaldo Lincoln e o tecladista Luiz Lazzaroto). Da viagem também nasceu Los Chicos de Ayer, única música em espanhol do disco de estréia. “A música é sobre a dor que encontrei lá, e que também está muito presente no Brasil, em Cuiabá. As pessoas são muito passionais na América Latina. Muito dessa dor foi responsável pelo que o Vanguart é hoje”, explica Helio.

E é ai que o burburinho começa a se estabelecer em torno da banda. Começando a se apresentar pelos palcos do Brasil, nos diversos festivais independentes, eles foram descobrindo que havia público para folk rock e aperfeiçoando sua sonoridade. Lançaram, em 2005, o EP Before Vallegrand (com uma das melhores músicas da banda, a curta e rápida Into The Ice) e logo depois os singles Semáforo e Cachaça. Fernando Rosa, do site Senhor F, foi o primeiro a chamar a primeira de Hino de Uma Geração. Mas, afinal, o que ela tem de tão significativa? “Todos meus amigos querem morrer hoje em dia. De todas as formas. Cada um sabe sua forma de morrer e se sentir bem”, filosofa o vocalista.

Hoje com 22 anos, Helio é considerado um dos principais letristas do rock independente. Canções como Los Chicos de Ayer, Para Abrir os Olhos e Cachaça comprovam isso. Isso significa amadurecimento? “Às vezes acho que sou o mesmo moleque de 12 anos. Só sei que escrever é algo essencial pra mim. Meu primeiro beijo na boca eu dei porque escrevi um soneto para a menina, se não, não conseguia. Quero chegar aos 60 escrevendo.”

O último passo importante da banda foi participar do programa Som Brasil em homenagem a Raul Seixas, na TV Globo. “Não muda muita coisa, a não ser que agora a gente vai poder tocar Raul quando pedirem nos shows”, brinca Douglas. Aparecer em rede nacional, na principal emissora do país, não parece ter deslumbrado os rapazes. Uma possível conquista do mainstream continua a não ser uma meta. “Acho que ninguém mais vai estourar. Eu acredito em uma carreira mais consolidada de trabalhos sólidos. Eu estou muito mais preocupado com o que a gente vai apresentar no próximo álbum do que se a gente vai estourar ou não. Não é falta de ambição, mas precisamos primeiro trabalhar a música, não ficar pensando se vamos estourar porque tocamos na Globo. Se fosse um projeto montado pra estourar não estaríamos aqui hoje. Desde o começo, foi algo que fizemos por causa da música.”

JC Investigações

junho 11, 2007

 

Edifício Pórtico, rua Felipe Schmidt, centro de Florianópolis. No nono andar, uma das salas deste edifício comercial destoa das demais. Todas as portas têm placas de identificação de psicólogos, dentistas e outros profissionais, exceto a porta da sala 907, toda branca, sem campainha, aparentemente desocupada. Uma pessoa se aproxima, bate na porta e entra na sala, apreensiva, sentindo a respiração ofegante. Aqui, nesta sala de seis metros quadrados, mal iluminada e quase sem mobília, funciona a JC Investigações, empresa de detetives particulares.

Lá dentro um dos detetives particulares da equipe, motoqueiro, com um casaco de couro preto, um capacete numa mão e uma câmera de longo alcance na outra, mostra para JC, um dos donos da empresa, a filmagem que acaba de fazer: uma mulher loira sai de seu carro e entra num prédio residencial. “Ela não está com roupa de ginástica” comenta o detetive. Sem saber que é observada, a loira entra no prédio, vai para um apartamento do terceiro andar, circula pela casa falando ao telefone.

Esta mulher que aparece na filmagem está sendo vigiada a pedido de seu amante, que mora em outro estado. Ele é casado, e para evitar problemas, paga todas as despesas de sua amante para que ela more aqui em Florianópolis. De tempos em tempos ele contrata os serviços de JC para saber o que a amante faz quando ele não está por perto.

Esse é um caso comum para JC, detetive particular há quinze anos. Em sua empresa ele oferece serviços de investigações criminais, políticas, empresariais, infidelidade conjugal, varredura telefônica (grampo), levantamento de informações sobre o passado de uma pessoa e para pais que querem descobrir se os filhos estão usando drogas. Para isso, conta com uma equipe de três casais de detetives, todos credenciados na Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, que usam escutas telefônicas, grampos, filmadoras de longa distância, micro-câmeras e o que mais for necessário para descobrir o que seus clientes querem saber.

 

Sorria, você está sendo filmado

Quem são as pessoas que contratam os serviços de JC? “Gente de todo tipo, desde médico, empresário, até balconista”. Os serviços só não atraem mais clientes porque os preços são salgados: uma investigação curta leva de 3 a 10 dias para ser completada, e a diária dos serviços fica entre 350 e 400 reais. “Mas depende do serviço. Tem serviço que leva mais tempo, pra colocar alguém dentro de uma empresa, por exemplo, daí é mais caro”. Um dos trabalhos recentes de JC foi investigar os funcionários de um ferro-velho, porque o dono do lugar queria saber se os seus empregados estavam cumprindo seus horários e se estavam desviando material (sim, eles estavam).

Os casos de infidelidade conjugal também são muitos. “O problema é quando o cara acha que a mulher tá saindo com outro cara e a gente pega ela saindo do motel com outra mulher, ou vice-versa, daí a gente tem que preparar bem o sujeito, porque é um choque”, diz JC. Por isso o detetive particular também tem um pouco de psicólogo. Nem sempre as pessoas estão preparadas para ver e ouvir tudo que as câmeras com dispositivo infra-vermelho e as escutas captam. “Tem gente que começa a chorar, grita, eu sempre pergunto se as pessoas têm problema no coração, porque vai que o cara tem um troço e morre, eu preciso que o cliente sobreviva para me pagar” diz o detetive sorrindo.

 

Espionagem Tecnológica

Toda vez que uma emissora de televisão ou uma grande revista faz uma matéria sobre os equipamentos que os detetives utilizam e sobre as técnicas de investigação isso tem duas implicações para os detetives particulares: a procura pelos seus serviços aumenta com a divulgação, mas as pessoas ficam mais precavidas quanto aos métodos de investigação. Isso dificulta o trabalho de JC, que precisa estar sempre em busca novas formas de realizar o seu trabalho.

Mais louco é quem me diz

maio 25, 2007

O prédio parece uma pousada. Paredes amarelas, um portal na entrada, muitos carros estacionados. Mas dentro a realidade é totalmente diferente: mulheres e homens ficam em setores diferentes e são impedidos de sair por grades e enfermeiros. As pessoas não conversam entre si. Algumas têm sarna, outras piolhos. Uma mulher varre o chão. Compulsivamente. De um lado para o outro, ela varre o mesmo lugar o dia inteiro, sem limpar nada. Uma jovem está há horas sentada em sua cama abraçada a um ursinho de pelúcia. Ninguém pode assistir televisão, precisa-se da autorização de um psicólogo para ler qualquer livro e não há absolutamente nada para se fazer. Difícil não enlouquecer num ambiente destes.  

Pois é exatamente esse o tratamento dispensado aos internos na clínica psiquiátrica Instituto São José. Hoje é dia de visita na clínica e alguns parentes aguardam para ver os internos. Poucas pessoas. Na sala de espera todos parecem muito cansados.  

Vilma está preocupada com a filha que foi internada domingo, Franciele. Ela tem 25 anos, trabalha numa rede de supermercados, tem um filho de oito anos, é separada e mora com a mãe em Florianópolis há apenas alguns meses.  

Franciele chegava em casa depois do trabalho, se trocava e saía para beber. “Na ânsia de encontrar tempo para trabalhar, cuidar do filho e aproveitar sua vida, ela dormia 2 ou 3 horas por noite”, diz Vilma. Ela foi internada devido a uma crise de euforia ligada ao alcoolismo e à depressão, e se queixa à mãe por estar no mesmo pavilhão de doentes muito mais graves, como a filha de Eduarda, Silvia, que sofre de transtorno de personalidade Borderline.  

Pessoas com esse transtorno são propensas a comportamentos agressivos por motivos quase nulos e a tentar o suicídio. É a terceira vez que Silvia fica internada, e Eduarda, que trabalha na área da saúde, diz com os olhos cheios d´água que desta vez sua filha se internou por vontade própria, e que agora sim ela acredita em sua recuperação. 

Há oito anos Silvia está em tratamento psiquiátrico, ela já passou por outras duas internações. “Acredito que a internação seja necessária num momento de crise, e que a partir do tratamento na clínica é que o paciente vai passar por uma reeducação mental, que leva muitos anos”, disse Eduarda. 

No mesmo dia, um rapaz de 27 anos, olheiras profundas e cabelos desgrenhados na altura dos ombros está recebendo alta. Por um mês e meio Jardel permaneceu internado no Instituto São José. Quando lhe perguntam por que estava internado ele responde “Por nada…”, e deixa o olhar vagar sem  foco.  

“Ele enlouqueceu por causa de uma guria” diz sua mãe, que veio de Jaguariuna para buscá-lo. Jardel é apaixonado por uma menina que nunca quis saber dele. Em todos os lugares em que ela ia, lá estava ele esperando por ela… Ele aprendeu latim sozinho para impressionar sua amada lhe mandando bombons e um trecho de Romeu e Julieta na língua mais antiga do mundo, ignorando o fato de Shakespeare ser inglês. A menina, assustada, deu queixa de Jardel na polícia por perseguição. Ele passou a ficar o tempo todo em casa, costurando.  

O que a literatura chamaria de um louco de amor, a medicina classificou como um paciente com depressão e transtornos obssessivos. Hoje ele volta para Jaguariuna, mas vai continuar tomando 5 remédios diferentes, para evitar que uma nova recaída aconteça.  Talvez a longa duração tratamentos e o sofrimento que a doença traz aos familiares seja o motivo pelo qual muitos internos do Instituto não recebem visitas. O abandono dos parentes é motivo de revolta para muitos deles.  

Todos os pacientes do Instituto São José querem voltar para casa. Muitos estão internados contra sua vontade e não reconhecem estar doentes. No entanto os pacientes são bem tratados e isso já é uma grande evolução se considerarmos os tratamentos que as pessoas consideradas loucas receberam desde a Idade Média.  

No século XV os loucos eram condenados a serem queimados vivos em fogueiras, como as bruxas. Depois passaram a ser trancafiados em calabouços, como os criminosos. Os médicos lhes faziam sangrias para que o sangue infectado fosse retirado  

No século XX vários tratamentos foram testados: injeções de cânfora, de leite e de sangue de placenta humana eram aplicadas nos pacientes. A malaioterapia consistia em provocar no paciente uma infecção de malária. O paciente podia ser induzido ao coma por injeções insulínicas, que numa dose um pouco maior poderiam ser fatais.  

A eletroconvulsoterapia é o famoso tratamento de choque, que induzia os pacientes a terem convulsões e a perder todos os dentes, tanto por causa dos choques elétricos como por causa do bater dos dentes durante as convulsões.  

Mais tarde os médicos começaram a usar os pacientes de manicômios como cobaias para testar cirurgias cerebrais. Os loucos eram considerados animais e sua solicitação não era necessária para a realização da cirurgia, que causava diversos efeitos colaterais, como a perda dos movimentos das pernas e até mesmo a morte.  

Só na década de 40 o Código de Nuremberg, elaborado depois do holocausto nazista e das experiências feitas com prisioneiros em campos de concentração, definiu regras claras para a realização de experimentos com seres humanos, estabelecendo que as cirurgias só podem ser realizadas com a autorização do paciente e que a cirurgia só pode ser feita se for trazer benefícios para o paciente.  

 Na mesma época, os manicômios passaram pela reforma psiquiátrica, a partir da qual meios violentos e repressores deixaram de ser usados nos pacientes internados.  

A Organização Mundial da Saúde estima que 1% da população mundial tenha algum tipo de problema mental. Nos últimos dez anos foi reduzido pela metade o número de leitos ocupados por pessoas com problemas mentais no SUS. Antes eram quase 45.000 pessoas, agora são 18.000, ou 15,4% dos leitos hospitalares brasileiros. 

 Até os anos 80 a internação era única alternativa para os doentes mentais. Muitos alcoólatras e dependentes de drogas também iam para manicômios, como narra Austregésilo Carrano em seu livro Canto dos Malditos, que deu origem ao filme Bicho de Sete Cabeças. Atualmente, na maior parte dos casos, as pessoas com problemas mentais são encaminhadas para o Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) mais próximo, e internações são recomendadas apenas no caso de pacientes agressivos, que a família não consegue controlar.