Archive for the ‘Resenhas’ Category

Estamira está em todo lugar

outubro 25, 2007

 

Estamira é um documentário de Marcos Prado, filmado em 2006, sobre uma mulher de mesmo nome que vive em um lixão. 

Difícil dizer se ela sabe do que está falando, mas com certeza um pouco do que ela representa está em todo lugar, principalmente nas cidades grandes, onde não só o lixo costuma ser um problema de saudade pública, como muitas pessoas depois de sofrerem bastante passam a viver na sua própria realidade, seja ela a mendicância, o lixão ou a psicose.

Estamira é uma mulher que mora no lixão. Ela fala em seu dialeto próprio e passa horas xingando a Deus e falando coisas que não tem muito sentido. Inicialmente parece louca. Ela não é 100%, como diz sua filha, mas a questão é que a história de sua vida de certa forma justifica o seu desequilíbrio. A começar pelos abusos sofridos quando era pequena, pelo padrasto, que ainda por cima a deixou em um bordel aos 12 anos. Estamira saiu de lá para se casar com um homem infiel, num casamento em quenão existia respeiro, e ambos eram violentos. A partir do momento em que deixou o marido, as coisas ficaram ainda mais difíceis financeiramente. Para piorar o quadro, Estamira foi estuprada duas vezes, no caminho de sua casa.

Uma mulher que vive do lixo para criar seu filhos, voltou as costas para um Deus que ela chama de estuprador. Como dizer que ela está errada? Como julgar essa mulher que todos os dias passa por algo inimaginável?

Apesar de não fazer sentido em grande parte das coisas que diz, Estamira tem algo de intelectual na sua loucura, um quê de filosofia nas coisas que diz. É como se ela própria inventasse um novo sentido para as palavras, e se convencesse de que aquilo faz sentido. Algumas vezes durante o filme é perceptível que nem ela mesma acredita no que está dizendo, nas conexões entre palavras que não dizem nada juntas, e então você a vê em alguns momentos como uma mulher ferida e em outros como uma criança, que quer inventar uma história, mas não sabe a hora certa de chegar ao final. Por isso ela continua inventando e indo sempre mais longe do ponto em que queria chegar, até a hora em que já não se lembra mais do começo da história, nem dos personagens, sendo que talvez ela tenha esquecido o personagem principal: ela mesma.

O filho de Estamira tem um grande problema com o seu lado religioso, porque ele é um rapaz que lê a Bíblia e que freqüenta a igreja, mas as duas filhas de Estamira parecem entender muito bem quem é a mãe, e a amam como ela é. A mais velha por saber sua história e compreender os arrependimentos e as tristezas da mãe. A mais nova de um modo ainda mais doce e conflituoso, se sente culpada por não ter sido criada pela mãe, mesmo que isso significasse morar no lixão, e ao mesmo tempo parece ser a responsável pelos momentos em que Estamira está mais calma e serena, porque a filha está ao seu lado, lhe fazendo carinho. Apesar de tudo, Estamira ainda é capaz de amar.

Estamira é como arte contemporânea, difícil e complexa. Quando a vemos, sentimos repulsa, nos sentimos em conflito, mas ao mesmo tempo em que queremos sair dessa realidade cruel e triste, queremos saber mais, não que seja difícil, pois Estamira está em todo lugar e como ela diz no filme “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

Subvertendo versões

setembro 30, 2007

Enquanto não lançam disco novo (o já gravado Não Esperem Por Nós…), os guris da Pipodélica compilaram todas versões de outros artistas que fizeram e colocaram no projeto Infinito. Funcionando a princípio como um EP virtual (assim como Volume 4, lançado no início de 2005), o site será atualizado com novas versões assim que elas forem feitas. A próxima a entrar é She’s Leaving Home, gravada para um tributo brasileiro em comemoração aos 40 anos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

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Estão lá Xmas Time Is Here Again (Beatles), Eu me amo (Ultraje a Rigor), Acontece (Cartola), A Viagem (Odair José), Zagueiro (Jorge Ben) e Ohm Sweet Ohm (Kraftwerk). Talvez por terem um estilo tão peculiar e único, a banda de Florianópolis consegue imprimir sua cara em músicas tão distintas. Não são apenas versões; são músicas com a cara da banda, sendo que quem não conhece as originais poderia muito bem que trata de músicas da Pipodélica. E, importante, com um resultado positivo sempre. Coisa que apenas o Móveis Coloniais de Acaju, no Brasil, também consegue.

É interessante analisar as versões como uma evolução sonora da banda, a mesma que tiveram em seus discos. Assim, Xmas Time Is Here Again, ainda com Carine Nath nos vocais, lançada em 1999, traz um pop menos elaborado em questão de timbres, e é a mais próxima do original. Daí pra frente todas as versões são de depois de 2004, e os guris subvertem o que era um ska-pop (Eu me amo), um sambinha ao violão (Acontece), uma balada marcial (A Viagem), um samba-rock (Zagueiro) e uma melancolia eletrônica (Ohm Sweet Ohm), transformando-as em baladas climáticas cheias de texturas sonoras e timbres, com muito mais cores e ânimo, que não fariam feio no principal disco da banda, Simetria Radial, de 2003.

Os Pipodélicos apresentam uma nova proposta de lançamento em um mercado em transição. Com um álbum em constante confecção, pretendem alimentar os fãs regularmente com novo material. Ao mesmo tempo, terminam a mixagem do novo CD, que deve ser lançado no início do ano que vem. Um álbum que se anunciava progressivo, mas que vem na mesma linha de Simetria, sem tantas guitarras quanto o EP Volume 4. Felizes com o resultado, eles prometem o melhor disco da banda. “Hora H é a música mais Pipodélica de todos os tempos”, já disse Xuxu. E isso significa que vem coisa boa por aí.

Baixe as músicas de Infinito em http://infinito.pipodelica.com.br

Escute duas músicas novas no MySpace da banda, www.myspace.com/pipodelica

Veja abaixo um ensaio acústico de Memória Multicolor, do álbum Simetria Radial

Baraka – um poema visual

setembro 3, 2007

Baraka, uma antiga palavra Sufi que pode ser traduzida simplesmente por bênção (blessing), por respirar (breath), por essência da vida, é um poema visual, um filme sobre o mundo e o que há de espiritual e doentio nele, os contrastes das diferentes culturas e as semelhanças que elas têm na sua angústia e esperança na busca por Deus e na sua relação com a natureza.

Filmado em 1992, em 23 países (Argentina, Brasil, Camboja, China, Equador, Egito, França, Hong Kong, Índia, Indonésia, Irã, Israel, Itália, Japão, Quênia, Kuweit, Nepal, Polônia, Arábia Saudita, Tanzânia, Tailândia, Turquia e EUA) Baraka pode ser considerado, de certa forma, um documentário experimental, já que não possui narração ou diálogos, apenas imagens, que incluem um vasto registro de rituais religiosos, maravilhas naturais, processos de mecanização e diversos estilos de vida e a música, fundamental para a criação da atmosfera envolvente e mística do filme.

Segundo os críticos, Baraka é um filme que, de modo não-verbal e não-linear, discute o sagrado e o humano; a ordem natural e a entropia; a santidade e o materialismo. Portanto, é um filme dialético, totalmente dependente da percepção e interpretação do espectador. Não importa quem você seja ou onde viva: você também está em Baraka.

É como se Deus resolvesse traçar um paralelo rápido entre as coisas mais diferentes que criou, passando por todo o mundo e se debruçasse sobre a Terra, olhando tanto as coisas boas como as ruins, mas sem julgar nada. Mesmo as guerras são poéticas em Baraka. São parte da vida e, como várias outras coisas mostradas no filme, devem ser repensadas.

A espiritualidade é latente no filme inteiro. De acordo com a Antropologia, o aumento da capacidade cerebral fez com que o homem formulasse questões mais complexas, dentre elas de onde viemos e para onde vamos. A busca pela resposta levou diversas culturas diferentes a admitirem a existência de um ser superior, um Deus. Em Baraka, é como se de repente todas as culturas resolvessem mostrar qual o seu Deus, sendo que o ocidente é responsável por algumas das imagens mais tristes e chocantes do filme. Na sua negação de um Deus primitivo que é objeto de cultos e sacrifícios, o ocidente cultua a mecanização, a ciência, colocando em segundo plano a humanidade, no sentido da compaixão. Esse é o significado da cena dos pintinhos dentro da máquina, o mesmo significado das cenas de guerra: nenhum.

Baraka é um filme sobre a vida, um registro da humanidade que propõe não uma aceitação do que somos, mas a reflexão de que estarmos acostumados com alguma coisa não quer dizer que ela seja correta, assim como algo de outra cultura nos chocar não significa que seja algo ruim ou bárbaro.  É para quem está de saco cheio de filmes com muito efeito especial e pouco conteúdo, e da previsibilidade dos roteiros básicos e rasos do tipo mocinha conhece mocinho, dificuldades os separam, mocinhos sofrem, mas ficam juntos no final.

A insustentável leveza do ser

agosto 25, 2007

O que faz da sua vida a sua vida? As decisões que você tomou fizeram com que sua vida fosse o que é ou uma série de coincidências te levaram a conhecer as pessoas que você ama e a seguir o rumo que você seguiu na vida? 

A idéia do eterno retorno, de Nietzsche diz que um dia tudo vai se repetir tal como já foi vivido e que essa repetição vai se prolongar indefinidamente. A vida que desaparece hoje, por mais atroz ou mais bela que tenha sido não tem o menor sentido. Assim como a guerra entre judeus e palestinos ou o holocausto, ela não alterou em nada a face do mundo apesar de todas as mortes que causaram. No eterno retorno o holocausto se repete para todo o sempre. Milhares de pessoas são dizimadas, o muro é construído separando Berlim em duas e isso não impede que os judeus construam um muro isolando os palestinos mais de 50 anos mais tarde. Nada mudou.  

Essa repetição infinita atribui um grande peso a todos os fatos, já que todos eles se repetirão para sempre. Pior do que um Robespierre, de uma Revolução Francesa, é a sua volta eterna.

Essa é a divagação com que o escritor tcheco Milan Kundera inicia o livro A insustentável leveza do ser, publicado em 1984. A história se passa Passado na antiga Tchecoslováquia, durante os eventos da “Primavera de Praga”, em que o clima de traição e anticomunismo tomam conta do país após a invasão da União Soviética.  

As personagens principais do livro são Tomas e Tereza. Tomas é um cirurgião com dificuldade em ter relações monogâmicas, que conhece Tereza trabalhando num bar durante uma viagem a um pequena cidade da Boêmia. Algum tempo depois ela vai visitá-lo em Praga e pega uma gripe forte, que a deixa de cama por uma semana. Tomas cuida dela durante esse período e se apaixona pela idéia de ter alguém tão vulnerável em sua vida. Sente-se como se Tereza lhe tivesse sido enviada através de uma cesta levada rio abaixo pela correnteza de um rio e deixada aos seus cuidados. Eles passam a morar juntos, e, pelo resto de sua vida, Tomas se pergunta se está com Tereza por amor ou se foi uma armadilha do destino, através de coincidências como a gripe, que o fizeram se sentir responsável por aquele ser indefeso e que o amava tão desesperadamente.

Tereza é fotógrafa, sempre teve uma relação ruim com sua mãe e nunca gostou de sua vida, até que conheceu Tomas, a quem sempre amou incondicionalmente. Por isso suporta todas as amantes que ele tem e o cheiro que elas deixam nele e que a faz ter pesadelos todas as noites.

O livro é muito interessante, não apenas por tratar relacionamentos com um realismo muito forte e por fazer reflexões profundas sobre as relações de força e manipulação presentes numa relação amorosa, mas por se passar num local que passa por uma transformação histórica muito pouco comentada em comparação com a de outros países na mesma época, mas nem por isso menos interessante. Talvez o fato do autor ser tcheco faça com que tenha uma visão diferente da do resto dos europeus.

Para aqueles que não procuram uma história de amor água com açúcar com final feliz e belas cenas em castelos encantados, mas um romance filosófico e reflexivo, eu recomendo.

Pra gringo ver

agosto 6, 2007

 

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Malandragem e oportunismo talvez sejam os melhores termos a serem usados quando se fala do Bonde do Rolê. Despretensiosamente misturando samples de funk carioca com solos e riffs de guitarra, os DJs e produtores Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot e a vocalista Marina Vello aproveitaram a esteira do reconhecimento do Cansei de Ser Sexy no exterior, fascinaram o DJ Diplo e engataram uma turnê pelos EUA e Europa, participando de grandes festivais – mesmo que como nomes secundários. Dessa forma, subverteram a lógica e foram contratados pela Domino Records, casa de Arctic Monkeys e Franz Ferdinand, e tiveram seu primeiro disco (With Lasers) lançado primeiro lá fora – e sabe-se lá quando chegará às lojas brasileiras. Só com muito jeitinho brasileiro pra conseguir tudo isso. Ah, vá lá, quem quiser também chame isso de sorte.

Apenas o gosto estrangeiro por coisas bizarras e fora do comum de outros países para explicar tudo que aconteceu com o Bonde. A música é ruim, com colagens e misturas de batidas e riffs de forma gratuita – bem longe do que faz a Comunidade Nin-Jitsu ou do que fazia o De Falla no começo da década. Junte a isso letras de humor adolescente, sem a espontaneidade e safadeza machista dos bons tempos do Raimundos, que resvalam no vulgar o tempo inteiro. É música pra escutar em balada, com muita cerveja na cabeça – e mesmo assim, após duas ou três (como Dança do Zumbi e Caminhão de Gás) é bem provável que você esteja pedindo água. Coisa pra gringo ver.

Se musicalmente o Bonde não é lá essas coisas, como fenômeno esquizóide eles são totalmente válidos, e já começaram a colher os frutos do seu sucesso. Um fenômeno, principalmente pelo fato de terem atingido este posto tão rapido – e sem acontecer no país de origem.

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Na verdade, a impressão que dá é que os três, desde o começo, levaram a coisa meio que como uma brincadeira, uma diversão despretensiosa que já foi longe pra caramba. O que eles precisam agora é aproveitar esse momento sem se deslumbrar muito com a fama, pois, se tudo correr como esperado, eles não devem passar do terceiro disco e, depois disso, vão voltar para Curitiba e para o ostracismo. Precisam fazer valer seus 15 minutos de fama, para ter muita história para contar para os netinhos. 

No purgatório do pop

julho 17, 2007

Banda paulistana Ludov lança segundo CD mais próximo da MPB e tenta alcançar vôos mais altoschega.jpg

Em outubro de 2005, o Ludov fez um pocket show na FNAC Curitiba, no Shopping Barigui. Todos sentados, guitarras e baixos apoiados nas coxas e cinco sorrisos nos rostos – destaque para a simpatia e o brilho nos olhos da vocalista Vanessa Krongold ao cantar cada sílaba. Sorrisos sinceros, diga-se de passagem, daqueles que você dá apenas para os amigos em dia que está de bem com a namorada. E parecia mesmo que eles estavam tocando para amigos, com uma naturalidade tranqüila. Em um clima tão leve, o som que ecoava pelos cantos da livraria era sutil, como em um luau, agradável de se ouvir. É esse o som e o clima que transparecem no novo CD da banda, Disco Paralelo, lançado em junho pelo selo paulistano Mondo 77.

De lá para cá muita coisa aconteceu com o Ludov. Primeiro a saída da gravadora, Deck Disc, pela qual haviam lançado no início de 2005 o primeiro disco, O Exercício das Pequenas Coisas; a saída do baixista/fundador da banda/amigo Edu Filomeno; a participação na trilha sonora do filme da Disney High School Musical; a composição das novas músicas; a eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo; a volta ao mundo independente com a Mondo; e, óbvio, as gravações do novo disco. Algumas perdas, outras motivações. Nada diferente do que a vida normal.

O fato mais marcante talvez tenha sido a saída de Edu, que foi morar no Canadá. Apesar de não ser a primeira baixa na banda, foi o primeiro membro fundador a sair e não ser substituído. Isso levando em conta que a história do Ludov começa mesmo em 1996, quando os amigos de infância em Brasília Habacuque e Mauro chegam em São Paulo para fazer faculdade e montam o Maybees, junto com Edu, Vanessa e Falcão na bateria. Todos eram estudantes de Publicidade, Mauro na ECA/USP e os outros na ESPM. Falcão, depois de gravar os dois discos da banda (Maybees, de 1998, e Picture Perfect, de 2000), foi estudar engenharia de som no Canadá. Em seu lugar entrou Vlad Rocha, velho conhecido dos tempos de faculdade, que também saiu após a gravação de dois álbuns com a banda (agora já chamada Ludov). Para substituí-lo entra Chapolin, também ex-colega da faculdade.

Com a saída de Edu o fator amizade pesou. “A gente ficou com preguiça de fazer todo processo de integração com uma pessoa de novo. Um novo membro não seria apenas um baixista, e sim um cara que você convive muito durante a semana. Banda é como um casamento, tem que ter essa química. Todo mundo se conhece há tanto tempo que ficamos com preguiça de estabelecer uma nova relação”, explica Mauro. O estabelecimento da formação em quarteto mudou muita coisa. Primeiro no lado pessoal. “Cara, ele era um amigo que eu via todo dia, viajava junto. Quando saiu ficou um vácuo, ver ele uma vez por semana não era suficiente. Agora que ele ta no exterior, então, nem se fala”, lamenta o guitarrista.

A saudade bateu, mas em termos musicais as mudanças foram tão (ou mais) profundas. Os dois guitarristas passaram a se revezar no baixo, com o auxílio em shows do produtor e amigo Fábio Pinc. Esse foi um dos motivos do disco novo soar mais sutil, introspectivo e leve do que O Exercício das Pequenas Coisas. Os pequenos detalhes de teclado e arranjo foram deixados de lado com a opção de um som mais cru, baseado em guitarras limpas e uma bateria tocada de forma mais “suave”. Algo que suscita logo uma aproximação com a MPB;

O Exercício das Pequenas Coisas era composto por um pop inteligente difícil de encontrar na cena brasileira atual. Acessível sem ser clichê, ele surgiu impulsionado pelo sucesso da música Princesa (gravada no EP Dois a Rodar, de 2004, e incluída como faixa bônus no CD), que havia ganhado o prêmio de Videoclipe Revelação no Video Music Brasil, da MTV, em setembro de 2004. O prêmio garantiu o contrato com a Deck, que acabou também relançando Dois a Rodar.

Em uma gravadora média, o lançamento do CD ganhou um tratamento que nenhum anterior tinha recebido. O cuidado estético habitual da banda com encarte e toda parte visual continuava lá, mas a promoção agora era maior, com exposição direta na MTV e até capa do exigente Caderno 2, do Estadão. O disco cravou outro clipe de sucesso, Kriptonita, e foi apontado como um dos melhores do ano pela crítica.

Mesmo assim, o clima na gravadora já não era o mesmo. “Nunca pensamos numa gravadora ou selo como salvação, como responsável pelo sucesso da banda ou nossa felicidade. Mas precisamos sentir que o trabalho está sendo bem feito. Quando fechamos com a Deck existia esse compromisso, só que com o tempo a relação ficou morna. Então decidimos sair”, comenta Mauro. “Ficamos um tempo sem ter necessidade de buscar outra gravadora, só pensando no disco novo, sem se preocupar com quem ia lançar. Aí pintou a Mondo, que é por pessoas que já estavam no nosso circulo pessoal e profissional, então não foi difícil encontrá-los como opção. Foi meio como olhar pro lado. E estamos super satisfeitos.”

Antes do acordo com a Mondo 77, o Ludov já começava a compor. O ponto de partida e de motivação foi o convite da Disney para participar da trilha sonora de High School Musical, fazendo uma versão da música What I’ve Been Looking For, que virou O Que Eu Procurava. A experiência foi totalmente nova para a banda – eles nunca haviam gravado versão de outra música e nem participado de uma trilha sonora. “Veio num momento interessante, porque tínhamos terminado a turnê do disco anterior e tava tudo uma calmaria. Depois da turnê rola uma espécie de crise de abstinência, às vezes você se pega em casa no sábado sem saber o que fazer. Aí todo mundo se envolveu no projeto, começamos a tocar e compor de novo”, conta Mauro.

Foram alguns meses de composição e arranjos, ensaiando toda semana. No começo, com a companhia da Copa do Mundo e do álbum de figurinhas, até que o Brasil foi eliminado pela França e um desânimo bateu no guitarrista. “Assistimos o jogo todos juntos, no Sítio, que é o estúdio que o Fábio Pinc tem em um sítio afastado da cidade. Depois do jogo eu não queria mais saber, joguei meu álbum fora. Faltavam umas oito figurinhas pra completar.” De qualquer modo, ao final do processo eles chegaram com mais de 20 músicas para escolher antes de entrar em estúdio. “Até o último minuto antes de gravar a primeira bateria estávamos em dúvida. Tentamos dar um coerência à seleção de músicas, mas não sei bem direito qual.”

Se existe coerência nas canções de Disco Paralelo elas estão na já citada sonoridade sutil. É impossível não citar uma clara aproximação com a MPB (em todo disco) e os ecos de Los Hermanos que aparecem em Conversas em Lata e Refúgio. Tudo ainda bastante pop – só com um pouco mais de refinamento. Basta ver que Sintonia, faixa lançada no site da banda no segundo semestre do ano passado. Surgida junto com as canções novas, ela mantém a energia do disco anterior – e não figura entre as 11 selecionadas de Disco Paralelo. “O importante nesse disco foi a liberdade. Em nenhum momento a gente determinou onde queria chegar”, ressalta Mauro.

Para orquestrar essa liberdade, o quarteto chamou o produtor Chico Neves, famoso por seus trabalhos com Los Hermanos, Os Paralamas do Sucesso, Lenine e O Rappa, entre outros. A constante qualidade técnica dos discos de Chico – destaque para Hey Na Na, dos Paralamas – chamaram a atenção da banda. A partir do momento que fecharam o acordo, eles passaram a gravar os ensaios semanais e mandar para o produtor saber em que ponto as músicas estavam.

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Com isso, a gravação no Rio de Janeiro durou apenas dez dias. Longe de São Paulo, o nível de concentração dos músicos foi muito maior, sem ter que se preocupar com os problemas da vida cotidiana ao chegar em casa. O aproveitamento do tempo em estúdio foi total, sem dispersões. “O Chico cria um clima muito bom, você se sente à vontade. Ele conduz a gravação de uma maneira tão boa que você nem percebe que chegou ao ponto ideal. Foi nossa melhor experiência de gravação, pelo fator técnico, artístico e pessoal. O Chico é uma das pessoas mais queridas que você pode conhecer na vida. É quase como ir ao Tibet e conhecer o Dalai Lama”, empolga-se o guitarrista.

O resultado final foi um disco mais coeso que O Exercício das Pequenas Coisas, porém, ainda longe de ser irretocável – as faixas de abertura, Ciência e Fugi Desse País, são verdadeiros gols contra. Mas as melodias delicadas de Delírio (sob asas) – cantada por Mauro -, Noite Clara e A Espera, a densidade de Conversas em Lata e o flerte com o rock internacional atual de referência ao pós-punk oitentista de Urbana jogam a favor. Utilizando elementos dos momentos mais calmos dos discos anteriores, uma coisa que não pode se dizer é que o álbum seja mais maduro. Ainda mais quando a melhor música, Rubi, tem melodia vocal extremamente parecida com Érika, do disco Picture Perfect, quando eles ainda atendiam por Maybees.

O problema do Ludov não é artístico, e sim estrutural. Com 11 anos de atividade, um prêmio importante nas costas e o reconhecimento da crítica, eles não conseguem atingir o mainstream da música brasileira. Pior que isso, estão numa espécie de purgatório do pop – nem tão conhecidos para ir ao Faustão e vender muitos discos, nem tão anônimos para tocar nas bibocas apertadas do underground brasileiro para 300, 400 pessoas. No mesmo dia do show na FNAC em Curitiba eles participaram de um festival em um var com capacidade para 200 pessoas, e ar para respirar era artigo de luxo naquela noite dentro do recinto.

 

De certa forma eles haviam passado por situação semelhante no começo da década, quando mudaram de Maybees para Ludov. O Maybees era uma banda totalmente diferente, não apenas por cantar em inglês. As guitarras eram mais presentes e o som mais rock e garageiro – sem ser tosco. Com dois discos aclamados pela crítica e pelo público independente, de certa forma o ponto máximo de reconhecimento e prestígio possível dentro da cena, a pergunta era a) continuar fazendo a mesma coisa e viver do prestígio alcançado, ou b) mudar de idioma, sonoridade e tentar alçar novos vôos, quiçá mais altos. A segunda opção pareceu mais atraente.

O jornalista José Flávio Júnior já flagrava esse momento em sua crítica de Picture Perfect para a revista Bizz. Dizia ele: “sabe o The Bends, do Radiohead? O Maybees fez o seu. Depois da estréia, que rendeu boa exposição e alguma popularidade no cenário alternativo, o quinteto paulistano foi fazer o disco decisivo. Com muita astúcia e bom gosto adicionaram metais, cordas e muito teclado no pop rock simples que fez a fama do primeiro álbum. (…) A banda segue no caminho. Só que para fazer um OK Computer e agradar a gregos e troianos, vai ter de começar a cantar em português.”

Hoje, Zé Flávio não acha que a excelência sonora tenha sido alcançada pelo grupo com a mudança de idioma, mas acredita nas possibilidades do Ludov. “Os chamaria de “banda emergente”. Ainda estão definindo a personalidade, mas o potencial é imenso, até porque nela se encontram bons instrumentistas e uma cantora afinada (fato ainda raro por aqui). Como qualquer grupo pop, precisam de hits para conseguir ampliar a audiência ainda mais .” Músicas boas, com capacidade de agradar o público de um Jota Quest eles tem. Resta conseguir se inserir no mercadão, coisa cada dia mais difícil com a decadência da indústria musical no Brasil.Além de saber jogar o jogo, certamente a sorte será fundamental para uma maior exposição. Com ou sem sucesso, uma certeza: o Ludov é a banda nacional com mais requisitos para fazer a ponte entre underground e mainstream.

Bauhaus: o nascimento do design moderno

julho 7, 2007

 

O design está em presente em tudo que nos cerca, nos móveis, nas peças decorativas, nos eletrodomésticos e até em jóias e bijuterias. O incrível é que o conceito de design atual nasceu há menos de um século, na Bauhaus.

O período de existência da Bauhaus foi de apenas quatorze anos, mas muitas de suas propostas ainda hoje servem de inspiração no campo do design. Grandes artistas como Kandinsky, Klee, Schlemmer, Moholy-Nagy, ao lado de arquitetos e artesãos de vanguarda, foram mestres nesta escola que nasceu da união da Escola de Artes e Ofícios com a Escola de Belas-Artes em 1919, durante o período da República de Weimar, na Alemanha.

O que se pretendeu na Bauhaus foi dar aos estudantes de arte uma formação global, tanto artística como artesanal. Para alcançar este objetivo, foi criada uma nova forma de dar aulas, através da interação constante entre os professores e os alunos. A educação deveria ser democrática para agir como transformadora da sociedade. Essa forma de ver o mundo explica porque a escola foi fechada em 1933, com a ascensão do nazismo.

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À esquerda, um exemplo do estilo de produção anterior à Bauhaus, à direita cadeira produzida de acordo com o design desenvolvido na Bauhaus, chamada de Le Corbusier, em homenagem ao arquiteto homônimo.

As criações da escola eram baseadas no funcionalismo, mas o lado artístico sempre era trabalhado. Os resultados foram criações sempre voltadas para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, através de produtos criados por processos artísticos que garantissem a forma ideal, adaptada ao corpo humano, e possibilitassem a produção em massa de uma forma fácil.

 

Le Corbusier

 

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O design do prédio da Bauhaus foi feito de acordo com a tendência construtivista, movimento iniciado na Rússia que valorizava muito as formas geométricas. Essa tendência estética passou a se refletir na construção de prédios e casas muito comuns atualmente, baseados na forma de um quadrado ou retângulo.

A arquitetura passou por grandes mudanças na mesma época com o arquiteto Charles-Edouard Jeanneret-Gris, mais conhecido como Le Corbusier, que é considerado um dos responsáveis pela padronização da aparência das grandes metrópoles do mundo, por ter sempre defendido que todos os prédios deveriam ser brancos e que os esforços de diferenciação dos prédios eram artificiais. Brasília foi planejada sob a sua influência.

Le Corbusier também foi um dos primeiros arquitetos a compreender as diferenças que os carros tornavam necessárias nos planejamentos urbanos e é um dos grandes nomes na história da arquitetura contemporânea.

A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea

julho 1, 2007

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Marcel Duchamp, foto de Henri Cartier Bresson

Marcel Duchamp foi um artista que questionou através de seu trabalho o que é uma obra de arte e propôs um novo método para a sua realização: partindo de idéias, ao invés de partir de assuntos do cotidiano.

O fato é que Duchamp nunca foi um artista que atendia às expectativas da época.Começou a produzir no começo do século XX, e com o passar do tempo sua obra adquiriu características irônicas e contestadoras.

Tendo começado sua carreira como pintor, ele realizou obras que tinham características impressionistas, expressionistas e cubistas.

 

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Já nessa época, seu quadro Nu descendo a escada foi mal visto pelos cubistas, que o julgaram uma ironização da proposta cubista.

A obra de Duchamp conservou esse caráter questionador e insatisfeito com os padrões até o ponto em que Duchamp destruiu os padrões existentes até então. Ele fez um tipo de arte que não se enquadrava em nenhuma categoria. Os ready mades não são pintura, gravura e não são esculturas já que ele nem sequer os fez. Com esse ato, de designar um objeto fabricado em série como obra de arte, Duchamp expandiu os horizontes da arte contemporânea. Como disse Luiz Camillo Osório, professor de Estética e História da Arte na UFRJ, do Renascimento até Picasso as transformações artísticas se deram no interior de uma linguagem pictórica, de uma concepção histórica da forma e do objeto artístico. E a partir de Duchamp essa trajetória se alterou e tomou rumos que mudaram completamente a concepção de arte atual.

Como observou Octavio Paz, em seu livro “Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza”, “Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir a dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, mas transparente”.

 

Esse gesto simples, mas impensado até então, fez com o mundo da arte se visse diante de duas reflexões extremamente importantes para a arte contemporânea: o que faz com que consideremos um objeto arte? Qual a importância do gesto do artista na obra de arte?

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Os ready mades se tornaram o elemento de destaque da produção de Duchamp. Entre os mais famosos e irônicos, podemos citar a obra L.H.O.O.Q. (sigla que, lida em francês, assemelha-se ao som da frase “Elle a chaud au cul”, que, traduzida para o português, significa “Ela tem fogo no rabo”), que é uma reprodução da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, com um bigodinho.

 

Além disso Duchamp criou Madame Rrose Sélavy (cujo sobrenome se assemelha à expressão francesa “C’est la vie”, ou seja, “É a vida”, em português), uma artista irônica, assim como ele, que assinou uma parte dos ready mades.

Seria Madame Rrose Sélavy mais um ready made? O artista existe porque sua assinatura está em obras de arte que estão são reconhecidas pelo circuito artístico?

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Nesta foto, tirada por Man Ray, Duchamp aparece travestido de Rose Sélavy. Com esse tipo de obra de arte Duchamp tirava

o foco da criação artística da sociedade e seus problemas ou da representação fiel do modelo e coloca em questão o ato artístico.

Man Ray, pintor americano amigo de Duchamp disse em entrevista transcrita por Pierre Cabane, em “Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido”, “Não atribuo ao artista uma espécie de função social em que ele se acha obrigado a fazer qualquer coisa, em que tenha um dever para com o público. Tenho horror a todas essas considerações”.

De fato Duchamp tinha suas próprias questões, como o estudo dos problemas óticos. O estudo do olhar sobre a arte interessou muito a Duchamp, que se opunha àquilo que ele chamava de “arte retiniana”, ou seja, que agrada à vista, que foi feita para não incomodar, para satisfazer. Nesse sentido Duchamp o esforço de Duchamp era no sentido oposto, de levar o público a refletir a partir da confrontação com algo novo e inesperado. O objeto que era a obra de arte não tinha o propósito de ser alvo de uma contemplação, admiração, ele devia levar a uma reflexão, e essa reflexão era o objetivo da obra.

A base teórica do trabalho de Duchamp influenciou as gerações que o seguiram e foram fundamentais para a trajetória que a arte contemporânea seguiu, tornando-se propositiva e questionadora.

Movimentos artísticos como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato e a Arte Conceitual foram muito influenciados por Duchamp. André Breton, artista surrealista, por várias vezes tentou fazer com que Duchamp aderisse à causa do movimento surrealista, Tristan Tzara, um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de Duchamp uma precursora.

No entanto uma das previsões de Duchamp não se concretizou: por diversas vezes ele disse que a pintura estava morta. Ao contrário, a pintura, assim como outras formas de arte, continua se inovando, incorporando formas de expressão e atraindo artistas inovadores como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Andy Warhol.

Em seu livro Destruição do pai, reconstrução do pai, Louise Bourgeois fala sobre o ato de criaçãoAs conexões que faço em meu trabalho são conexões que não posso encarar. São na verdade conexões inconscientes. O artista tem o privilégio de estar em contato com seu inconsciente, e isso é realmente um dom. É a definição de sanidade. É a definição de auto-realização”. Como disse o próprio Duchamp, em entrevistas, ele queria inventar ou encontrar seu próprio caminho, em lugar de ser um mero intérprete de uma teoria, e conseguiu.

A coragem de dizer a verdade

junho 27, 2007

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No livro “Um Homem sem Pátria, coleção de crônicas e pequenos ensaios”, Kurt Vonnegut analisa a narrativa de várias histórias: Cinderela, Dickens, Kafka, Shakespeare.

Para Vonnegut o que faz com que uma história tenha qualidade não é o que acontece ao longo de enredo, Hamlet é a história de um rapaz, cujo pai é assassinado e ele tenta descobrir quem matou seu pai. Milhares de histórias seguem esse enredo. Em outras milhares o fantasma do pai morto volta para falar ao filho, sem que isso signifique que o defunto vai contar ao filho quem o pai. O que faz de Hamlet uma grande história, para Vonnegut, é o fato dos personagens de Shakeaspere não saberem o que é bom e o que é ruim na sua vida, assim como os homens de fato não sabem. Shakespeare admite assim a condição do homem na sua vida, e isso engrandece a sua obra, que toma dimensão filosófica a partir de um fato mundano. Isso, para Vonnegut, é a coragem de dizer a verdade.

Courbet tem a coragem de dizer a verdade e de provocar aqueles que a ignoram ao pintar A origem do mundo. É possível ignorar boa parte do tempo que somos animais, assim como os cavalos e os ratos, mas é impossível ignorar a face animalesca do homem quando se trata de sexo.

Por mais que as mulheres usam sete saias, armações de metal embaixo dos vestidos, espartilhos, soutiens e o que mais for, por baixo de todo pano ainda haverá seios e uma vagina. Parece ridículo, mas se isso fosse tão óbvio o quadro de Gustav Courbet não teria causado o alvoroço que causou.

Todo aquele escândalo, senhoras horrorizadas, mocinhas proibidas de ver o quadro, que ficou perdido por tanto tempo por causa de uma vagina!

Ora essa, a origem do mundo para todos os homens é uma vagina. É a pura verdade! Então encarem-na! Encarem a vagina da origem do mundo! Deixem de lado a hipocrisia e vejam a verdade por debaixo dos panos.

O que Courbet ousou fazer em 1886 ainda desafia a sociedade contemporânea. Isso me lembra uma entrevista feita na Serra Pelada, há alguns anos, em que o jornalista, se não me engano Pedro Bial, que na época não apresentava só o Big Brother, perguntou a um daqueles miseráveis homens porque ele arriscava a vida tentando achar ouro num lugar que já tinha sido tão explorado. A resposta do homem foi: para ficar rico. Bial então lhe perguntou para que ele queria ficar rico, e a resposta, sabia como a origem do mundo foi: ué, para comer mulher!

Courbet exclamou (chocando tantas pessoas): sexo move o mundo! E move mesmo.

Arte e cultura de mãos dadas

junho 24, 2007

Resenha do ensaio “A arte como um sistema cultural”, de Clifford James Geertz.

Em seu ensaio “A arte como um sistema cultural”, integrante do livro “O Saber Local: novos ensaios em Antropologia Interpretiva”, 142-181, Editora Vozes, Clifford James Geertz trabalha a questão da arte ser algo de que o discurso não dá conta de explicar e, ao mesmo tempo, as pessoas se sentirem atraídas pela idéia de falar sobre arte.

Para o antropólogo estadunidense, considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea – a chamada Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa – isso acontece porque, ao nos depararmos com uma obra de arte, percebemos que há ali algo importante e tentamos expressar o que sentimos, mas as palavras soam vazias e falsas ao falar sobre arte. Como cita Geertz “quando não somos capazes de falar, devemos ficar em silêncio”,no entanto, os próprios artistas não conseguem fazê-lo.

Apesar da aparente inutilidade em se falar sobre arte, discutir arte é uma necessidade incessante, diz Geertz. No entanto, boa parte das pessoas discute arte em termos artesanais, colocando as cores de uma obra de arte e suas relações acima de temas como harmonia ou composição pictórica. No ocidente algumas pessoas chegam mesmo a acreditar que isso é suficiente para se entender a arte.

Mas a maioria crê que isso não é suficiente, e que a discussão nesses termos deriva de interesses culturais que não são a arte em si.

A função do discurso sobre arte é buscar para esta um lugar no contexto das demais expressões dos objetivos humanos e dos modelos de vida a que essas expressões dão sustentação (p.145).

Geertz faz uma análise dos fatores que fazem com que algo seja definido como uma obra de arte. Essa definição nunca é puramente estética, mas sim uma forma de anexação a outras formas de atividade social, com a intenção de incorporar essa apreciação estética a um padrão de vida (p.146).

Essa atribuição de um significado cultural a objetos de arte é sempre um processo local e a incapacidade de compreender essa variedade é a responsável por fazer com que muitos estudiosos da arte não-ocidental digam que povos primitivos falam pouco sobre arte. Povos primitivos falam sim sobre arte, mas não da mesma forma como o fazem os pesquisadores, em termos de propriedades formais, conteúdo simbólico, valores afetivos e estilísticos.

Os povos primitivos falam sobre arte ao dizer como ela deve ser usada, quem é seu dono, quem o faz, quando é tocado, quem desempenha papel nessa ou naquela atividade e assim por diante. A questão é que a atitude dessas sociedades com relação à arte é vista pelos pesquisadores não como discurso sobre arte, mas como parte de suas atividades sociais, de sua vida cotidiana. A relação que possuem com arte passa despercebida ao nosso plano de visão.

Como resposta a isto, Geertz cita Matisse, que dizia que os meios através dos quais a arte se expressa e o sentimento pela vida que os estimula são inseparáveis. Portanto, o diálogo em torno do objeto de arte, ainda que discutindo sua função ou quem o possuía, era uma forma das sociedades primitivas exteriorizarem sentimentos que levaram à sua execução, ou seja, uma forma de falar sobre arte.

Pelo fato de ser impossível separar a arte do sentimento que estimulou sua execução, estudar a arte é explorar uma sensibilidade que é, essencialmente, uma formação coletiva.

Essa forma de ver a arte nos afasta da visão funcionalista, que vê as obras de arte como mecanismos elaborados para definir as relações sociais, mantendo suas regras e fortalecendo seus valores (p. 150). Para Geertz, as formas de arte não pregam doutrinas. Elas materializam uma forma de viver, evidenciando um modelo de pensamento para o mundo dos objetos, tornando-o visível.

Deste ponto de vista, o valor que as diferentes sociedades atribuem a elementos como o traço e a linha é derivado de significados da sua própria cultura. Por isso, o que se fala sobre arte, inclusive o que não faz parte reconhecidamente do discurso estético, é importante na reflexão sobre arte, para tentar apreender a origem dos valores artísticos nas diferentes sociedades.

Os antropólogos reagem a esta união entre a cultura e os valores estéticos replicando que isso pode ser verdade para os povos primitivos, que fundem os vários domínios de sua experiência em um todo gigantesco, mas que isso não se aplica a culturas mais desenvolvidas (p. 154).

Para retrucar esse argumento, Geertz analisa dois empreendimentos estéticos desenvolvidos e muitos diferentes: a pintura do quattrocento e a poesia islâmica.

Para falar sobre a pintura italiana do século XV, Geertz cita a análise de Michael Baxandall, no livro “Painting and experience in fifteenthcentury italy”, que procura estabelecer “o olhar da época, a bagagem intelectual que o público de um pintor do século XV, isto é, outros pintores e as ‘classes patrocinadoras’ trazia no confronto com estímulos visuais complexos, como quadros”.

Isso significa que as pessoas são sensíveis a vários tipos de habilidades interpretativas, e que essas habilidades não são inatas, mas parte da bagagem cultural de cada homem, que ordena a sua experiência visual.

A pintura do quattrocento era na sua maior parte de temática religiosa, e a sua intenção era exaltar a dimensão espiritual da vida, convidando o observador a refletir sobre as verdades do cristianismo. Não era, portanto, algo que devia ser apenas observado, mas que devia levar a uma reflexão, interagia com a cultura na qual estava inserida de maneira complementar: era necessário haver uma compreensão do tema da pintura e uma reflexão a partir disso, e o conhecimento prévio do assunto, comum aos italianos inseridos neste meio, quer como pintores quer como mecenas, era necessário para isso.

Havia ainda vários fatores que colaboravam para a formação desta sensibilidade no público. Os pregadores populares transmitiam conhecimento religioso às suas congregações de forma que as fisionomias eram caracterizadas e as cores transformadas em símbolos. Isso era essencial para a resposta à pintura.

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O nascimento de Vênus,1483 – Sandro Botticelli

Outro fator que contribuía para a compreensão dos quadros era a dança da época, que utilizava passos lentos e movimentos geométricos. Essas formas de agrupamento foram utilizadas por pintores como Botticelli para organizar as figuras em pinturas como Primavera e Nascimento de Vênus. As pessoas compreendiam a maneira como as pessoas se agrupam como resultado do tipo de relacionamento que existe entre elas.

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Primavera,1478 – Sandro Botticelli

Além disso, as pessoas possuíam uma grande capacidade de avaliação de formas geométricas. Essa habilidade era muito necessária no comércio, pois existiam embalagens de tamanho padrão, que eram divididas em outros tipos de embalagens. Aos comerciantes era indispensável a habilidade de decompor massas irregulares em grupos de massas regulares, cilindros, cones, cubos e assim por diante. É um mundo intelectual específico, mas era nessa esfera, de lugares como Veneza e Florença, que viviam as classes cultas.

Geertz cita Baxandall na sua afirmação de que um registro visual é algo que precisamos aprender a ler, assim como temos que aprender a ler um texto de uma cultura diferente da nossa.

A participação no sistema da arte só se torna possível através da participação no sistema geral de formas simbólicas que chamamos de cultura (p. 165) e uma teoria da arte é, ao mesmo tempo, uma teoria da cultura, e não algo autônomo.

O poeta no islã é o homem que faz o tráfico da substância moral da sua cultura.

O Corão é o único milagre do islã. Seu nome significa “recitação”, e ele difere das outras escrituras porque não contém relatos de profetas falando sobre Deus, mas a própria palavra de Deus, que escreveu o Corão. Assim como Deus, o Corão é imortal, é um dos atributos de Alá. Então, quando alguém recita o Corão canta o próprio Deus, exerce um ato de fé.

A língua árabe possui a sua versão clássica, que é a linguagem do Corão, falada por uma parcela pequena da população, e a sua versão vulgar, que é falada por todos. No entanto, as árabes consideram que só a língua culta é capaz de exprimir as grandes verdades, e que a língua vulgar é incapaz de dizer coisas sérias.

A poesia do islã é uma reorganização das palavras do Corão falando sobre temas definidos, usando fórmulas pré-estabelecidas. Temas como a inevitabilidade da morte, a não-confiabilidade das mulheres e o orgulho religioso são comuns.

A poesia do islã corre o tempo todo o risco de ser sacrílega, já que usa as palavras do Corão para tratar de temas mundanos. As apresentações dos poetas são feitas ao ar livre, e as poesias não são escritas, são feitas na hora. Caso o poeta não atinja as expectativas da platéia será vaiado e obrigado a parar a recitação.

A definição do que é de bom gosto e o que não é depende da capacidade do artista de atingir as sensibilidades que a sociedade possui, tanto no caso da pintura do quattrocento como na poesia islâmica.

Portanto, se existe algo em comum entre todas as artes, certamente não será o fato de afetarem um sentido universal de beleza presente em todos os homens. Assim como a variedade artística não é resultado do acaso, mas das várias concepções que as diferentes sociedades têm sobre como funciona e se organiza o mundo.

Localizando o contexto de surgimento das artes, talvez seja possível começar a localizar as origens de seu poder.