Archive for the ‘Roberta Ávila’ Category

Cultura popular, música popular e artesanato

novembro 6, 2007

O termo cultura popular é preconceituoso porque divide a população entre “elite” e “povo”, sendo o povo a parcela pobre e sem educação. A cultura popular seria, portanto, uma espécie de reflexo rude da cultura erudita e a sua afirmação a partir da cultura popular definiria seu domínio cultural sobre outras parcelas da população.

A denominação da música como popular leva essa caracterização em conta, na medida em que o termo popular afasta esse tipo de música da música clássica, que seria parte da cultura da elite, e também a afasta do termo música folclórica, indesejado por sua ligação com a tradição e dessa forma com a falta de originalidade.

Do mesmo jeito o artesanato, uma forma de produção tradicional, é desvalorizado pela sociedade industrial. De acordo com García Canclini, em seu texto sobre a venda do artesanato indígena no México, o tratamento dispensado ao artesanato pela sociedade é uma forma de afirmação de poder da cultura dominante sobre a dominada. A venda do artesanato o define como uma arte secundária, já que ele não vai ser exibido em galerias e admirado, mas sim servir como enfeite ou objeto de uso comum para uma pessoa de outra classe social e outra cultura, ou ainda como forma de ostentação, no caso de jóias e mobília trabalhada.

O comércio do artesanato vai servir para sustentar uma família indígena que antes não pertencia ao modo de produção capitalista, mas que será inserida nele com a venda de sua produção artística. Isso estabelece uma relação de cultura dominadora e cultura dominada, já que faz parte desse contexto da dominação cultural que a cultura dominadora se insira no ambiente das culturas dominadas, através de roupas, eletrodomésticos e da inserção no imaginário da cultura dominada de desejos de consumo que antes não existiam.

A música popular usa essa denominação para fugir desse afastamento que o artesanato apresenta: ele é fruto da tradição, de algo que não é novo e não pertence ao povo, mas aos seus antepassados. Dessa forma, ela consegue um apelo comercial de que a música folclórica não desfruta. A música popular é o novo, é o encontro da tradição com a atualidade, e é distante da elite, assim como a denominação da parcela pobre da população de “povo”.

No entanto, ambas as produções, a música e o artesanato, são produtos da cultura popular, se chamarmos de popular o que é feito pelas pessoas de uma sociedade, não importando seu nível de educação ou de adequação junto à elite ou junto aos grupos de maior tradição cultural. No entanto, a denominação da música como popular lhe atribui um significado que facilita a sua circulação no meio comercial e a sua assimilação pela população, enquanto o artesanato fica restrito a ser visto e comercializado como produção de uma cultura dominada e que acaba sendo vista como inferior.

Biliografia:

O que é cultura popular, Antoni Augusto Arantes Ed. Braziliense

Do mercado à boutique: quando as peças de artesanato emigram, Nestor García Canclini, As culturas populares no Capitalismo

A “origem do samba” como invenção do Brasil (Por que as canções têm música?)Rafael José de Menezes, Revista Brasileira de Ciências Sociais, disponível no site http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_31/rbcs31_09.htm

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10.000 visitas

novembro 2, 2007

No trombone: 10.000 visitas desde a sua criação.

Média de 120 por dia.

Post mais lido: A influência de Marcel Duchamp na Arte Contemporânea – https://notrombone.wordpress.com/2007/07/01/a-influencia-de-marcel-duchamp-na-arte-contemporanea/

Colaboradores:

Ana Júlia Crócomo – estudante de Artes Plásticas

Diego Spagnuelo – estudante de Artes Plásticas e de Design

Gustavo Bonfiglioli – estudante de Jornalismo

Lídia Cabral – estudante de Artes Plásticas, trabalha com o fotógrafo Norton José

Rafaela Creczynski Pasa – estudante de Artes Plásticas, atualmente faz estágio com uma ceramista

Roberta Ávila – estudante de Jornalismo e de Arte Plásticas

Tiago Agostini – estudante de Jornalismo

Divagações pictóricas

outubro 31, 2007

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No quadro A arte da pintura de Johaness Vermeer, o pintor está de costas para o expectador, com sua modelo posando. Uma cortina semi-aberta dá a impressão de que estamos espiando o pintar que está a postos, com o pincel na mão. Esta pintura é muito interessante , pois de fato estamos o tempo todo buscando nos quadros o olhar do pintor, o que ele quis nos dizer. E de fato nunca poderemos ter certeza se o que entendemos de uma obra realmente foi o que o artista quis passar. A subjetividade da obra faz com que ela possa ter muitas leituras diferentes, com que o seu significado ultrapasse em valor o que o artista quis expressar na mente de outras pessoas.

Ao pensar nessa questão da subjetividade das obras de arte, é impossível não se lembrar de René Magritte.

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Em seu quadro O Terapeuta, ele pinta o profissional que lida os complexos e traumas dos pacientes como um homem de cabeça de gaiola, como se fosse um ser que guarda a chave do sagrado, dos significados que ninguém tem, e ele as tivesse aos montes na sacola que carrega na mão. Mas na entanto a sua cabeça está trancada. Ele pode ter muitas chaves, mas não tem sua própria chave. Os terapeutas precisam de terapeutas. E talvez o pintor de quadro de Vermeer fosse como um terapeuta, que tem a chave de um segredo e apenas revela uma parte aos expectadores. Ele revela a sua presença, mas não aonde o seu olhar está concentrado.

O terapeuta também pode ser interpretado não como uma pintura sobre um terapetua, mas sobre cada um tentando entender sua própria mente, tentando ser o terapeuta de si mesmo e libertar os pássaros que voam em círculos dentro de nossa cabeça, batendo nas grades e ficando tontos e soltando penas sem conseguir sair.

Magritte passa a mesma sensação de intimidade que Vermeer, com a diferença que o misterioso em Vermeer é o que não podemos ver, mas em Magrite o mistério vêm do inexplicável, do indizível, que, ao mesmo tempo em que demonstra a solidão do ser representado na tela, nos dá uma sensação de intimidade, porque eu reconheço minha própria solidão na solidão do outro. A mesma sensação de intimidade que Vermeer cria, direcionando o olhar do expectador através da luz, tão característica dos seus quadros, com sua incidência lateral em grande parte de suas composições, e que pode ser observado no famoso Moça com Brinco de Pérola. Essa luz faz com os elementos de composição do quadro sejam secundários, o olhar é direcionado por essa luz que tem um quê de celestial. É como se o pintor estivesse segurando a cortina e dizendo “pode espiar, mas só vai ver o que eu quiser…”. E essa sensação de estar assistindo uma cena íntima e especial nos fascina.

A mesma sensação de intimidade vem ironizada por Magritte em seu quadro Os amantes.

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Ao colocar os rostos tapados se beijando Magritte questiona os relacionamentos e invoca Levinás, colocando na tela o absolutamente outro com rostos. Há entrega, o que é indiscutível pela expressão corporal do casal, mas ela é condicionada pelas engrenagens que regem nossa cabeça. Enquanto Vermeer quer deliciar com a imagem do proibido, Magritte quer que não nos contentemos em ver a superfície. Enxergar apenas o que a cortina permite não é o suficiente para Magritte. Ele quer ir além, quer escrachar, quer que Os Amantes enxerguem O Terapeuta em si mesmos, desvendando para os amantes o fato de que o outro sempre é capaz de nos surpreender e de se surpreender consigo mesmo e que todas as pessoas são o Absolutamente Outro, não importa o quanto a amemos, como disse Fernando Pessoa em seu poema Meus Olhos, Porque quem ama nunca sabe o que ama/Nem sabe por que ama, nem o que é amar …/Amar é a eterna inocência,/E a única inocência não pensar…”

Estamira está em todo lugar

outubro 25, 2007

 

Estamira é um documentário de Marcos Prado, filmado em 2006, sobre uma mulher de mesmo nome que vive em um lixão. 

Difícil dizer se ela sabe do que está falando, mas com certeza um pouco do que ela representa está em todo lugar, principalmente nas cidades grandes, onde não só o lixo costuma ser um problema de saudade pública, como muitas pessoas depois de sofrerem bastante passam a viver na sua própria realidade, seja ela a mendicância, o lixão ou a psicose.

Estamira é uma mulher que mora no lixão. Ela fala em seu dialeto próprio e passa horas xingando a Deus e falando coisas que não tem muito sentido. Inicialmente parece louca. Ela não é 100%, como diz sua filha, mas a questão é que a história de sua vida de certa forma justifica o seu desequilíbrio. A começar pelos abusos sofridos quando era pequena, pelo padrasto, que ainda por cima a deixou em um bordel aos 12 anos. Estamira saiu de lá para se casar com um homem infiel, num casamento em quenão existia respeiro, e ambos eram violentos. A partir do momento em que deixou o marido, as coisas ficaram ainda mais difíceis financeiramente. Para piorar o quadro, Estamira foi estuprada duas vezes, no caminho de sua casa.

Uma mulher que vive do lixo para criar seu filhos, voltou as costas para um Deus que ela chama de estuprador. Como dizer que ela está errada? Como julgar essa mulher que todos os dias passa por algo inimaginável?

Apesar de não fazer sentido em grande parte das coisas que diz, Estamira tem algo de intelectual na sua loucura, um quê de filosofia nas coisas que diz. É como se ela própria inventasse um novo sentido para as palavras, e se convencesse de que aquilo faz sentido. Algumas vezes durante o filme é perceptível que nem ela mesma acredita no que está dizendo, nas conexões entre palavras que não dizem nada juntas, e então você a vê em alguns momentos como uma mulher ferida e em outros como uma criança, que quer inventar uma história, mas não sabe a hora certa de chegar ao final. Por isso ela continua inventando e indo sempre mais longe do ponto em que queria chegar, até a hora em que já não se lembra mais do começo da história, nem dos personagens, sendo que talvez ela tenha esquecido o personagem principal: ela mesma.

O filho de Estamira tem um grande problema com o seu lado religioso, porque ele é um rapaz que lê a Bíblia e que freqüenta a igreja, mas as duas filhas de Estamira parecem entender muito bem quem é a mãe, e a amam como ela é. A mais velha por saber sua história e compreender os arrependimentos e as tristezas da mãe. A mais nova de um modo ainda mais doce e conflituoso, se sente culpada por não ter sido criada pela mãe, mesmo que isso significasse morar no lixão, e ao mesmo tempo parece ser a responsável pelos momentos em que Estamira está mais calma e serena, porque a filha está ao seu lado, lhe fazendo carinho. Apesar de tudo, Estamira ainda é capaz de amar.

Estamira é como arte contemporânea, difícil e complexa. Quando a vemos, sentimos repulsa, nos sentimos em conflito, mas ao mesmo tempo em que queremos sair dessa realidade cruel e triste, queremos saber mais, não que seja difícil, pois Estamira está em todo lugar e como ela diz no filme “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

Porque Pessoa era O Cara

outubro 17, 2007

Eu não gosto de poesia, mas sim de poetas. Poesia só pela poesia costuma ser vazio, meloso e masturbatório demais. Mas tem pessoas que valem a pena. Tem algumas que valem a pena pela companhia, que só por estarem num ambiente deixam o clima mais leve, outras valem pelo humor ou pela beleza. Fernando Pessoa deve ter sido uma pessoa que valeu a pena por cada linha que escreveu, por cada pensamento que teve.

Dizem que tudo já foi dito, pensado, escrito… Que ser original é impossível. Eu acho que isso é falta de confiança de quem fala, mas às vezes vale a mais a pena citar alguém que foi O Cara do que escrever aqui qualquer abobrinha.

Senhoras e senhores, Fernando Pessoa:

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Trecho do livro Mensagem:

“Sem a loucura que é o homem, além de besta sadia, cadáver adiado que procria?!”

Sobre música

outubro 4, 2007

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O homem que não possui a música em si mesmo,

Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,

Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia.

Sua inteligência é morna como a noite,

Suas aspirações sombrias como Erebo,

Desconfia de tal homem! Escuta a música.

Shakespeare

Citação extraída do livro “O espiritual na arte”, de Wassily Kandinsky

Ana das Carrancas e sua filhas

setembro 26, 2007

Cerâmica Pernambucana

Quando chegou em Pernambuco era conhecida como Ana do cego, retirante vinda do Piauí, que por 3 meses viajou com a família durante a noite, para fugir do calor e do sol, e de dia descansava e procurava com o que se alimentar. Nunca aceitou que o marido, que é deficiente visual, fosse pedinte. Insistiu em trabalhar para sustentar a família, e começou a fazer louça para vender. Virou Ana louceira, mas a vida continuava difícil. Ganhava pouco com a venda das louças, e o preço da argila subia na praça. Para não parar de trabalhar, passou a buscar argila no rio São Francisco.

Numa das idas até o leito do rio, se sentou para observar os barcos com as suas carrancas, enquanto pedia a Deus que a ajudasse a encontrar uma solução para sustentar a família. Diz a lenda que muitas embarcações naufragavam no rio São Francisco, vítimas de animais gigantescos e seres estranhos. Para afugentá-los criou-se o costume de colocar na proa do navio uma carranca de madeira, que projetando sua sombra monstruosa na água mantinha os maus espíritos afastados, e o barco protegido. Transportando a forma das carrancas para o barro, Ana Louceira, passou a Ana das Carrancas e pelo reconhecimento de seu trabalho, hoje é conhecida como a Dama do Barro.

Seguem abaixo fotos tiradas em seu ateliê, que infelizmente Ana não usa mais, pois sofreu um derrame há pouco tempo. Suas filhas, no entanto, continuam vivendo do barro. Maria da Cruz faz o mesmo tipo de carranca que a mãe a ensinou, já Ângela, como diz a irmã, tem imaginação própria, e além de novos tipos de carrancas produz lindas telas com barro.

Carrancas

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Produção de Ângela (Argila sobre Tela)

Luiz Gonzaga

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Releitura da Bandeira de Pernambuco

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Mulher com Moringa e Natureza Morta

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Nova Carranca

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Autoretrato

setembro 26, 2007

Olho para o lado e vejo um rapaz enorme, com braços compridos como um gorila e uma cabeça bem pequena, moldada por uma camada espessa de cabelos negros e espetados. Curvado para frente, ele se debruça sobre um livro, que conserva a cinco centímetros de seu rosto. Os olhos castanhos, muito próximos um do outro, não se movem durante a leitura. É o livro que é levado de um lado para o outro e cada vez mais para baixo, conforme a leitura avança. Em seu ritmo frenético e bizarro de leitura, esse estranho é a razão pela qual eu quero ser jornalista.

Estamos num ônibus cheio de gente, em pleno centro de Florianópolis, e ninguém parece notar esse sujeito que se destaca no meio dos outros. Mas ele não é só um cara esquisito sentado num ônibus, ele é personagem de uma história que eu quero contar. É para isso que eu quero ser jornalista, para contar histórias.

Diário de um Coronel

setembro 20, 2007

Sentado ao meu lado no avião, um cabra atarracado, de cabelos branquinhos, apóia as mãos trêmulas e morenas na barriguinha saliente. A poltrona não quer ficar na posição vertical e ele se oferece para me ajudar. Você é de Petrolina, minha filha? Eu não. Sou de Florianópolis é minha primeira vez aqui. Ah então você vai gostar muito, Petrolina é uma cidade muito boa. O São Francisco é muito bonito. Eu sou prefeito, diz ele, com sua fala pausada, e o nome da cidade que governa parece nome de fruta. As frutas aliás, são uma das grandes fontes de renda da região, assim como a capricultura. A cidade fica do lado de Juazeiro. Sou prefeito pela quarta vez e já fui vereador sete vezes.

Nossa, mas pra ter sido eleito tantas vezes o senhor deve ter entrado na política muito cedo. Fui vereador pela primeira vez com 21 anos. Entrei na política e nunca mais saí. Política é dom.

Você não adivinha a idade que eu tenho! Bom, se ele fala assim, deve ter mais do que aparenta. Chuto sessenta e erro feio. Nem a pele queimada pelo sol e sardenta faz com que ele aparente os oitenta anos que vai completar em outubro. A água lá na sua cidade deve rejuvenescer, hein, seu Prefeito? Água que nada minha filha, o que rejuvenesce são as meninas… Diz ele com um sorriso maroto e aponta para a morena que dorme ao seu lado. Tá vendo essa menina? É minha secretária, eu trouxe comigo. Tenho quatro em Curaçá, todas dessa idade…

Nisso um senhor magro vem em nossa direção pelo corredor. Ô colega, tudo bom? Tava mesmo falando em você esses dias. O PSB anda muito fraco estávamos pensando se você não quer mudar de partido, daí a gente faz uma coligação com o PMDB… O magrelo fala muito, mas parece não convencer. Seu tom agressivo e direto não causa muito efeito no Prefeito, que ouve prestando bastante atenção, com seu ar ingênuo e bondoso, um jeitinho que parece de vô do interior, mas não dá resposta.

O magrelo se cansa da palestra e volta para o seu assento, e o Prefeito me diz que sempre foi muito amigo do ACM. Nós tínhamos um trato, estávamos juntos até morrer. Ele foi primeiro, mas eu continuo no PFL. Pra que eu vou mudar de partido se não for para conseguir uma creche, uma escola para o meu município? A teoria é bonita, mas eu fico pensando se era isso mesmo que o faria mudar de partido.

Diz ele que nunca foi empregado de ninguém e que se eu perguntar quanto ele gasta por mês ele não sabe. Eu vou gastando, não to nem aí. Engraçado, ser Prefeito também é receber um salário. Não sei se a família dele é rica, já que ele me disse que só cursou até a quarta série. Se fosse rico talvez fosse doutor, como ACM. Acho melhor não perguntar de onde sai o dinheiro.

O Prefeito tem família grande, diz que juntando a esposa, os 9 filhos, as noras, os genros e os netos, somam 35 pessoas. Toda a prole fez faculdade, e ele se orgulha disso. Assistente social, advogado, psicólogo, cada um se formou em uma área, mas nenhum virou político. Política é dom, diz ele de novo, e depois que o governo fez a lei do nepotismo ele tirou todos os parentes que tinha de cargos públicos. Ele diz isso com um olhar ressabiado, como se eu fosse fiscal de alguma coisa. Depois volta ao tom paternal, e eu fico imaginando que ele deve ter uma fazenda, com uma mesa bem cumprida para juntar toda a família nos domingos e para receber o povo das redondezas com seus pedidos: um remédio para o pai, uma cabra pra cruzar com o cabrito da família, uma passagem para a cidade grande, uma ajuda para resolver uma pendenga. Quando chegamos ao aeroporto, uma hora depois, é como se eu fosse mais uma ovelha de seu rebanho, e ele me oferece carona até o hotel no Hyundai que o esperava. Agradeço e pego um táxi. Por mais que o tempo passe, que o ACM tenha morrido, que o governo faça a transposição do São Francisco e que Nilo Coelho tenha trazido o sabor das frutas para a economia da região, parece que tem coisas que não mudam no nordeste. O calor, a seca e os coronéis continuam os mesmos.

Cuesta – Parque Nacional Serra da Capivara

setembro 16, 2007

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