Estamira está em todo lugar

outubro 25, 2007

 

Estamira é um documentário de Marcos Prado, filmado em 2006, sobre uma mulher de mesmo nome que vive em um lixão. 

Difícil dizer se ela sabe do que está falando, mas com certeza um pouco do que ela representa está em todo lugar, principalmente nas cidades grandes, onde não só o lixo costuma ser um problema de saudade pública, como muitas pessoas depois de sofrerem bastante passam a viver na sua própria realidade, seja ela a mendicância, o lixão ou a psicose.

Estamira é uma mulher que mora no lixão. Ela fala em seu dialeto próprio e passa horas xingando a Deus e falando coisas que não tem muito sentido. Inicialmente parece louca. Ela não é 100%, como diz sua filha, mas a questão é que a história de sua vida de certa forma justifica o seu desequilíbrio. A começar pelos abusos sofridos quando era pequena, pelo padrasto, que ainda por cima a deixou em um bordel aos 12 anos. Estamira saiu de lá para se casar com um homem infiel, num casamento em quenão existia respeiro, e ambos eram violentos. A partir do momento em que deixou o marido, as coisas ficaram ainda mais difíceis financeiramente. Para piorar o quadro, Estamira foi estuprada duas vezes, no caminho de sua casa.

Uma mulher que vive do lixo para criar seu filhos, voltou as costas para um Deus que ela chama de estuprador. Como dizer que ela está errada? Como julgar essa mulher que todos os dias passa por algo inimaginável?

Apesar de não fazer sentido em grande parte das coisas que diz, Estamira tem algo de intelectual na sua loucura, um quê de filosofia nas coisas que diz. É como se ela própria inventasse um novo sentido para as palavras, e se convencesse de que aquilo faz sentido. Algumas vezes durante o filme é perceptível que nem ela mesma acredita no que está dizendo, nas conexões entre palavras que não dizem nada juntas, e então você a vê em alguns momentos como uma mulher ferida e em outros como uma criança, que quer inventar uma história, mas não sabe a hora certa de chegar ao final. Por isso ela continua inventando e indo sempre mais longe do ponto em que queria chegar, até a hora em que já não se lembra mais do começo da história, nem dos personagens, sendo que talvez ela tenha esquecido o personagem principal: ela mesma.

O filho de Estamira tem um grande problema com o seu lado religioso, porque ele é um rapaz que lê a Bíblia e que freqüenta a igreja, mas as duas filhas de Estamira parecem entender muito bem quem é a mãe, e a amam como ela é. A mais velha por saber sua história e compreender os arrependimentos e as tristezas da mãe. A mais nova de um modo ainda mais doce e conflituoso, se sente culpada por não ter sido criada pela mãe, mesmo que isso significasse morar no lixão, e ao mesmo tempo parece ser a responsável pelos momentos em que Estamira está mais calma e serena, porque a filha está ao seu lado, lhe fazendo carinho. Apesar de tudo, Estamira ainda é capaz de amar.

Estamira é como arte contemporânea, difícil e complexa. Quando a vemos, sentimos repulsa, nos sentimos em conflito, mas ao mesmo tempo em que queremos sair dessa realidade cruel e triste, queremos saber mais, não que seja difícil, pois Estamira está em todo lugar e como ela diz no filme “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim”.

Lápis de cor

outubro 24, 2007

Clique nas imagens para vê-las ampliadas

d.jpg      d2.jpg

 

 

d3.jpg

 

d4.jpg

Porque Pessoa era O Cara

outubro 17, 2007

Eu não gosto de poesia, mas sim de poetas. Poesia só pela poesia costuma ser vazio, meloso e masturbatório demais. Mas tem pessoas que valem a pena. Tem algumas que valem a pena pela companhia, que só por estarem num ambiente deixam o clima mais leve, outras valem pelo humor ou pela beleza. Fernando Pessoa deve ter sido uma pessoa que valeu a pena por cada linha que escreveu, por cada pensamento que teve.

Dizem que tudo já foi dito, pensado, escrito… Que ser original é impossível. Eu acho que isso é falta de confiança de quem fala, mas às vezes vale a mais a pena citar alguém que foi O Cara do que escrever aqui qualquer abobrinha.

Senhoras e senhores, Fernando Pessoa:

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando, olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Trecho do livro Mensagem:

“Sem a loucura que é o homem, além de besta sadia, cadáver adiado que procria?!”

outubro 16, 2007

Clique sobre a imagem para vê-la ampliada

rafa.jpg

Miranda, do Ídolos para o Trombone

outubro 15, 2007

Carlos Eduardo Miranda, o Miranda do Ídolos, produtor musical que descobriu os Raimundos e produziu Cordel do Fogo Encantado, Mundo Livre S.A, O Rappa, Skank, Lobão, Otto, Cansei de ser Sexy e De Falla, entre outras bandas, contou um pouco de sua vida pessoal para o repórter Tiago Agostini. A seguir um trecho da entrevista.

miranda.jpg

  • Miranda, você gosta de futebol?

“Véio, tem tanta coisa pra fazer na vida que se preocupar com futebol é muito pra mim. Só acho legal pra sacanear quem gosta. Eu sempre dou um jeito de olhar na Internet coisa dos times desses caras, só pra exercitar essa coisa que todo mundo gosta. O futebol é meio o que a novela é para mulher, é o papo com os amigos e tal, aquilo que tu acompanha todo dia. E também, nessa hora vai namorar. Namorar é melhor. E ainda tem que fazer outras coisas. Já é raro ter tempo pra assistir filmes… Tem que ver filme, ler gibi, ler livro, tem que pensar, tem que namorar, tem que comer, tem que dormir e tem q cair na gandaia. Tudo isso é coisa que ocupa muito o cara. Divide um dia por essas coisas pra tu ver. E nenhuma delas é boa por pouco tempo. Comer vai umas 3 , 4 horas, no mínimo. Namorar vai no mínimo umas 6 horas, já deu 10. Dormir mais umas 4, 5 horas já deu umas 15. Ai tem q ler, tomar banho… Eu tomo 2 ou 3 banhos por dia. E Internet ainda, que toma muito tempo. E não é só Internet, é conversar, que eu gosto pra caralho.”

Da série Personagens: Capitão Gancho

outubro 9, 2007

hook.jpg

Sobre música

outubro 4, 2007

flauta.jpg

O homem que não possui a música em si mesmo,

Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,

Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia.

Sua inteligência é morna como a noite,

Suas aspirações sombrias como Erebo,

Desconfia de tal homem! Escuta a música.

Shakespeare

Citação extraída do livro “O espiritual na arte”, de Wassily Kandinsky

Da série Personagens: Prince Charming

outubro 3, 2007

prince_1.jpg

Subvertendo versões

setembro 30, 2007

Enquanto não lançam disco novo (o já gravado Não Esperem Por Nós…), os guris da Pipodélica compilaram todas versões de outros artistas que fizeram e colocaram no projeto Infinito. Funcionando a princípio como um EP virtual (assim como Volume 4, lançado no início de 2005), o site será atualizado com novas versões assim que elas forem feitas. A próxima a entrar é She’s Leaving Home, gravada para um tributo brasileiro em comemoração aos 40 anos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

pipodelica.jpg

Estão lá Xmas Time Is Here Again (Beatles), Eu me amo (Ultraje a Rigor), Acontece (Cartola), A Viagem (Odair José), Zagueiro (Jorge Ben) e Ohm Sweet Ohm (Kraftwerk). Talvez por terem um estilo tão peculiar e único, a banda de Florianópolis consegue imprimir sua cara em músicas tão distintas. Não são apenas versões; são músicas com a cara da banda, sendo que quem não conhece as originais poderia muito bem que trata de músicas da Pipodélica. E, importante, com um resultado positivo sempre. Coisa que apenas o Móveis Coloniais de Acaju, no Brasil, também consegue.

É interessante analisar as versões como uma evolução sonora da banda, a mesma que tiveram em seus discos. Assim, Xmas Time Is Here Again, ainda com Carine Nath nos vocais, lançada em 1999, traz um pop menos elaborado em questão de timbres, e é a mais próxima do original. Daí pra frente todas as versões são de depois de 2004, e os guris subvertem o que era um ska-pop (Eu me amo), um sambinha ao violão (Acontece), uma balada marcial (A Viagem), um samba-rock (Zagueiro) e uma melancolia eletrônica (Ohm Sweet Ohm), transformando-as em baladas climáticas cheias de texturas sonoras e timbres, com muito mais cores e ânimo, que não fariam feio no principal disco da banda, Simetria Radial, de 2003.

Os Pipodélicos apresentam uma nova proposta de lançamento em um mercado em transição. Com um álbum em constante confecção, pretendem alimentar os fãs regularmente com novo material. Ao mesmo tempo, terminam a mixagem do novo CD, que deve ser lançado no início do ano que vem. Um álbum que se anunciava progressivo, mas que vem na mesma linha de Simetria, sem tantas guitarras quanto o EP Volume 4. Felizes com o resultado, eles prometem o melhor disco da banda. “Hora H é a música mais Pipodélica de todos os tempos”, já disse Xuxu. E isso significa que vem coisa boa por aí.

Baixe as músicas de Infinito em http://infinito.pipodelica.com.br

Escute duas músicas novas no MySpace da banda, www.myspace.com/pipodelica

Veja abaixo um ensaio acústico de Memória Multicolor, do álbum Simetria Radial

Os condões da feitiçaria moderna: Questões imobiliárias

setembro 29, 2007

circus.jpgApesar de a economia no mundo mágico não andar essas coisas, na área imobiliária a situação é outra. Há ofertas aos montes. Casas abandonadas, esquisitas, fora de moda, convencionais e moderninhas. Onde houver uma ampla sala de estar, uma lareira e uma árvore velha, as chances de encontrar um bruxo hospedado são grandes. E ainda maiores se o local possuir bons espelhos ovais, caldeirões de cobre ou estanho e livros de todos os tipos. Feiticeiros adoram ler livros antigos, cheios de bolor e cobertos de segredinhos enterrados em pó e séculos. Costumam ter em suas residências grandes estoques de livros de feitiçaria, cadernos de culinária e uma quantidade razoável de revistas com a programação dos canais por assinatura. Bruxos e bruxas modernos não conseguem viver sem seus filmes e séries preferidos, são espectadores assíduos e sedentos por entretenimento despretensioso. Os mais precavidos e sisudos, por outro lado, costumam instalar em suas casas canais por assinatura com programação voltada para a saúde e para os negócios, em uma tentativa de manter vivo o interesse pelas coisas “sérias” do mundo moderno. Os bruxos que não possuem televisão paga em seus lares, são adeptos de outras atividades, que não, passar várias horas diárias frente a um monitor de vidro assistindo a séries enlatadas. Alguns vivem a decorar os cômodos de suas casas, outros se dedicam à dança de salão (no caso, à dança de sala de estar) e outros fazem artes manuais, como patchworks com forros de baús velhos ou bonequinhos decorativos com meias de algodão listradas.